🧑‍🤝‍🧑Diálogo conjugal

Una Caro: o matrimônio como união exclusiva e pertença recíproca

Uma nova perspectiva sobre o matrimônio e a família

O Papa Leão XIV aprovou, em 21 de novembro de 2025, a Nota doutrinal Una Caro (uma só carne), da Sagrada Congregação da Doutrina da Fé (SCDF), em que aprofunda o valor do matrimônio e a importância da família para a sociedade. É um documento riquíssimo com 7 capítulos, 156 parágrafos e 256 citações bibliográficas de Papas, filósofos, santos, teólogos etc.

Vários pontos fundamentais são destacados pela SCDF. Relembra que o casamento é uma “unidade indissolúvel”; o matrimônio é uma união exclusiva onde os cônjuges se pertencem mutuamente; uma união que não deve ser desfeita como Cristo ensinou: “Não separe o homem o que Deus uniu” (Mt 19,6).

Créditos: Arquivo CN.

Explica que aqueles que se doam plena e completamente um ao outro só podem ser dois (cf. Catecismo n. 371); de outro modo, seria um dom parcial de si mesmo que não respeita a dignidade do parceiro. Reafirma o ensinamento da Igreja que a monogamia não é uma limitação, mas a possibilidade de “um amor que se abre ao eterno”. E lembra que isto é um ensinamento bíblico, desde o Gênesis (2,23-34).

O desafio do poliamor e o verdadeiro sentido da liberdade conjugal

A Nota constata que, no Ocidente, está crescendo o “poliamor”, ou seja, formas públicas de união não monogâmica; e relembra que a unidade conjugal é imagem da união entre Cristo e a Igreja, como São Paulo fala na Carta aos efésios: “Por isso, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois constituirão uma só carne (Gn 2,24). Esse mistério é grande, quero dizer, com referência a Cristo e à Igreja” (Ef 5,31-32).

O documento ressalta a beleza da unidade conjugal que, com a ajuda da graça, representa esta união entre Cristo e sua esposa, a Igreja, e leva a entender a riqueza do matrimônio cristão. São Paulo diz: “É grande este mistério”.

A Nota destaca também que os cônjuges se pertencem numa caridade conjugal, “fundada no consentimento livre”, que é um reflexo da comunhão que existe na Santíssima Trindade, o que gera “uma forte motivação para a estabilidade da união”.

Este “pertencer mútuo” implica em não profanar a liberdade do cônjuge, evitando “o domínio do outro”; não fazer do outro um “objeto a seu serviço”, inclusive com violências verbais ou físicas, opressão, pressão psicológica, falta de respeito e de reverência diante da dignidade do outro.

Lembra a Nota doutrinal que o matrimônio não é posse, mas a saudável “reciprocidade de duas liberdades que nunca são violadas”. O diálogo maduro e o amor conjugal devem eliminar o erro de querer absorver o outro. E convida os cônjuges a não se recusarem mutuamente porque o distanciamento prolongado prejudica a unidade. Isto deve ser vencido por um diálogo sincero.

E destaca a importância da oração como meio precioso para crescer no amor conjugal e no crescimento recíproco, para o casal amadurecer, santificar-se; isto exige compreensão, perdão, paciência com o outro, e superar as divergências, egoísmos, orgulho, arrogância, irritação, etc., como São Paulo fala no seu “hino ao amor” em 1 Cor 13,4-8.

Sexualidade, fecundidade e a abertura ao próximo

O documento destaca também a importância da sexualidade e fecundidade. A sexualidade deve ser entendida como realidade do corpo e da alma, como “um presente maravilhoso de Deus” que orienta à doação de si e ao bem do outro, e na geração dos filhos.

A Nota lembra que o amor conjugal se realiza na fecundidade, na geração dos filhos dentro da paternidade responsável, “ainda que isso não signifique que este deva ser o objetivo explícito de cada ato sexual”. O matrimônio conserva seu caráter essencial mesmo quando é sem filhos. E lembra que é legítimo o casal observar e respeitar os tempos naturais de infertilidade para o uso dos métodos naturais de contracepção para o espaçamento do nascimento dos filhos quando isto é necessário pelas dificuldades do casal.

A norma fala da necessidade de preparar as gerações para a vida sexual no casamento como um “mistério de amor”, unitivo e procriativo, não apenas como prazer, mas com responsabilidade e maturidade.

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O perigo do egoísmo a dois e o chamado à caridade

O documento chama também a atenção dos casais para a vivência da caridade com o próximo, e não cair o casal num “egoísmo a dois”, que não se preocupa com os problemas dos outros e se fecha no individualismo. E lembra que o ser humano só se realiza colocando-se em relação com os outros e com Deus, no dom de si mesmo.

Como todos os documentos da SCDF, há referências aos ensinamentos dos papas anteriores, especialmente São Paulo VI, São João Paulo II, Bento XVI, Francisco e Leão XIV. Para dar um exemplo, Leão XIV descreve os esposos como “um modelo de fidelidade e de atenção ao outro; de fervor e perseverança na fé; de educação cristã dos filhos; de generosidade no exercício da caridade e da justiça social; um modelo também de confiança na provação”.


Felipe Aquino

Professor Felipe Aquino é viuvo, pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova. Página do professor: www.cleofas.com.br e Twitter: @pfelipeaquino