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Amizade: dom e tarefa

A amizade como tarefa se expressa também na iniciativa. O amor tem sede de ser demonstrado e cultivado

A vida é uma realidade que se exerce em meio a constantes tensões. Existir é estar exposto a acréscimos e podas, é encontrar-se com perdas, alegrias, sofrimentos e frustrações. Uma coisa é certa: existir, com qualidade, não é tarefa fácil, pois a vida constantemente exige de nós respostas e posicionamentos diante das dificuldades apresentadas por ela.

Viver é responder, e viver bem significa responder bem, decidindo em tudo pelo melhor. Contudo, o peso das respostas exigidas pela vida torna-se mais leve quando aprendemos que a existência pode ser partilhada.

Foto: Wesley Almeida / cancaonova.com

Quando um coração descobre em si o dom de acompanhar e deixar-se acompanhar, o ser se reveste de um novo sentido e tudo se adorna de um novo sabor. A arte de acompanhar e ser acompanhado tem o poder de tornar importante o que antes nada significava. Quando temos a coragem de partilhar o que somos, incluindo limites e fraquezas, e de atenciosamente acolher o que o outro é, podemos contemplar milagres sendo realizados por meio dessa entrega.

O que, para nós, não tem valor pode edificar alguém, o que outro enfrenta nesse espaço de tempo pode ser a palavra certa que precisamos ouvir; a partilha do que se é, no positivo e negativo, tem a força de realizar profundas transformações.

Quando abandonamos o medo, abrimo-nos para conhecer e ser conhecidos, descobrimos muitos recados de Deus escritos em muitas histórias e corações, que desejam ansiosamente serem declarados a nós. No entanto, é preciso compreender que tais recados existem e podem estar mais perto do que imaginamos, mas é necessário que tenhamos disposição para lê-los e absorvê-los em seu pleno significado. Existem inúmeras cartas que o Criador endereçou a cada um de nós. Isso pertence a Ele, é dom que parte do Seu coração. Porém, decifrar esse dom é tarefa eminentemente humana, depende somente de nós.

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A amizade é dom de Deus, mas necessita de constantes cuidados humanos para perpetuar-se na existência. A amizade tem o poder de tornar a vida mais leve e significativa. Quando se partilha dores e alegrias, tudo se investe de uma nova cor.

Uma das definições do conceito de inferno se desvela na solidão. Inferno é o estado no qual o ser se encontra só, impossibilitado de contemplar a face d’Aquele que o ama infinitamente. Tal impossibilidade não se estabelece por insuficiência d’Aquele que ama, mas é fruto da liberdade do ser que optou pela negação dessa presença, decidindo assim pela eterna ausência. Essa definição muito nos ensina quando buscamos percorrer o território da amizade, pois esta sempre é fruto de uma liberdade que descobre o dom da graça, inaugurando possibilidades de interação com um outro ser que, conscientemente, corresponde a esta, dando passos concretos rumo à partilha e à ação do que é, para assim construir esse relacionamento que recorda o céu, realizando o ofício de dissipar solidões e suscitar alegrias perenes.

A amizade pede iniciativa

Aquele que nos criou deseja que todos os homens se amem, contudo, Ele nos presenteou com um dom chamado liberdade, para que com este optemos pelo que seremos e assim construamos nossa história.

O amor – interação e doação – não é apenas um sentimento, mas uma decisão consciente. Ele é tarefa proposta a nós como condição de possibilidade para nossa plena realização. Na amizade, a parte que nos cabe exige de nós sensibilidade e determinação. A qualidade de nossas amizades depende da atenção e dos cuidados que dispensamos a elas. Para que os laços se aprofundem, faz-se essencial a disposição para se revelar sem medo e para acolher o outro como ele é, sem lhe impor os nossos moldes. Ser amigo é partilhar e aceitar como o outro é, sem querer transformá-lo em nós mesmos. Ele é um outro, e assim precisa ser acolhido. A amizade como tarefa se expressa também na iniciativa. O amor tem sede de ser demonstrado e cultivado; se isso não ocorrer, ele se cansa e vai habitar em outro lugar.

O amor, quando é expresso, provoca reação, gera um ambiente de amor. Assim a amizade se transforma em um lugar onde o coração experiencia um pouco de céu, ainda nessa terra.

Que a graça nos convença a respeito do que, de fato, cabe a nós nesta vida. E que assim, estabelecendo nossa escala vital de prioridades, consigamos perpetuar o amor em nossos dias, sendo luz e permitindo-nos iluminar pelas fagulhas de eternidade presentes em cada coração.


Dijanira Silva

Missionária da Comunidade Canção Nova, desde 1997, Djanira reside na missão de São Paulo, onde atua nos meios de comunicação. Diariamente, apresenta programas na Rádio América CN. Às sextas-feiras, está à frente do programa “Florescer”, que apresenta às 18h30 na TV Canção Nova. É colunista desde 2000 do portal cancaonova.com. Também é autora do livro “Por onde andam seus sonhos? Descubra e volte a sonhar” pela Editora Canção Nova.

 

 

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