🕊️ Redenção

Misericórdia, a porta para a fraternidade

A misericórdia como vigor e resposta aos desafios atuais

“A misericórdia não é sinônimo de fraqueza”, advertiu o Papa Francisco durante a vivência do Jubileu Extraordinário da Misericórdia. Trata-se de uma verdade que merece alcançar, mais fortemente, muitos contextos deste tempo contaminado por tantas perversidades. O caminho da misericórdia permite convencer-se da importância da reconciliação e do perdão, vivências inegociáveis na conquista da paz em todos os níveis e instâncias. Trata-se de uma dinâmica com força terapêutica para quem a pratica e, particularmente, significativa para quem é destinatário da misericórdia.

Créditos: Arquivo CN

A desconsideração do caminho da misericórdia é refletida nas relações interpessoais, com desestruturações que impactam as famílias e as amizades, levam a manipulações nas instituições e corroem o sentido da gratidão. O distanciamento desse caminho é expresso nas violências da sociedade global, contaminada por tantas perversidades — desde aquela que alimenta a indiferença em relação à miséria dos pobres até a calamidade das guerras que vitimam inocentes, a partir do exercício tirânico e inconsequente do poder. Um poder que pode meter medo nos fracos e nos submissos, mas encontra resposta à altura na profecia dos promotores da paz, alicerçados na nobreza da cidadania ou na clara consciência do papel da fé na semeadura da paz.

O compromisso cidadão e a transformação do coração

Avançar no caminho da misericórdia, aprendendo suas lições para adequadamente praticá-la, é compromisso cidadão e testemunho de fé. Se um coração não repatria sentimentos e valores da misericórdia, corre sério risco de inspirar posturas raivosas e discriminatórias. Permite-se impor escolhas egoístas e pautar-se pelo ressentimento. As consequências são desastrosas no cotidiano, com impactos nos relacionamentos e nos rumos institucionais. A misericórdia não é fraqueza. Ao invés disso, tem um vigor próprio que permite alcançar experiência espiritual elevada e, consequentemente, conquistar a sabedoria que alicerça um agir nobre e construtivo. Aprender sobre misericórdia é um horizonte de riquezas humanísticas e espirituais, sem risco algum para a fidelidade à verdade e para a promoção da justiça.

Os cristãos sabem que a referência maior e perfeita da misericórdia é Jesus Cristo, rosto da misericórdia do Pai. Ele revela plenamente a misericórdia de Deus; Ele é o centro do mistério da misericórdia, fazendo com que ela se torne a lei fundamental no coração de cada pessoa. Um remédio eficaz no combate às violências, um corretivo e equilíbrio nas circunstâncias de irascibilidade tão presente no dia a dia. Priorizar a misericórdia é corrigir, com vigor, adoecimentos e ações perversas que moram, até inconscientemente, no coração humano. Ora, a misericórdia será sempre maior do que qualquer pecado, sendo todos chamados a colocar a porta da misericórdia no próprio coração. Assim, derrubam-se muralhas construídas por maus sentimentos e feridas não curadas. Diferentemente das marcas comuns da severidade, a misericórdia cura.

A conhecida narrativa evangélica do bom samaritano é sempre exemplar e instigante. Aquele estrangeiro, além de ter cuidado do homem que caíra nas mãos de ladrões e assaltantes, levou-o a uma hospedaria e, antecipadamente pagando as despesas, recomendou: “Cuida dele”. “Cuida dele” é uma expressão que traduz um compromisso que une todas as pessoas: cuidar do semelhante, servi-lo em todas as circunstâncias, fruto de uma força que vem de Jesus Ressuscitado, pela ação do Espírito Santo, mestre de santidade e de verdadeiro humanismo. E assim, permear o mundo com a misericórdia, em gestos e palavras, para ajudar a construir uma nova civilização, marcada pela lógica do amor.

O amor é a onipotência de Deus. Inspira saber que Deus mostra seu poder exatamente quando perdoa e se compadece. Deus é paciente e misericordioso, fazendo sua bondade prevalecer sobre o castigo e sobre a destruição. A Palavra de Deus, em diversas circunstâncias, revela o segredo de como não comprometer a justiça e alcançar o patamar maior, mais amplo e duradouro da misericórdia. É um amor que nasce de um sentimento profundo feito de ternura e compaixão, de indulgência e perdão. O salmo 136 canta: “Eterna é a sua misericórdia”, em referência ao amor de Deus.

A compaixão como lógica para uma nova civilização

A força própria da misericórdia, longe de ser a lógica permissiva de se fazer “vista grossa”, é um movimento com propriedades para mudar rumos da história, curar corações aquebrantados, restaurar laços e fazer a experiência esperançosa e consoladora do amor. Jesus é o ápice das lições de misericórdia, reveladas especialmente nos diálogos com seu Pai. O Mestre movia-se sempre pela compaixão, uma compaixão que dá tempero e luminosidade à racionalidade. A misericórdia transluz o olhar do misericordioso e o provê com uma sabedoria que revela a justiça.

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A misericórdia como arquitrave da vida e da sociedade

A misericórdia é a porta da fraternidade, o caminho inequívoco dos diálogos, a fonte inesgotável da sabedoria, o gosto saboroso da consideração e respeito aos semelhantes, ainda que sejam inimigos. O vigor da misericórdia responsabiliza todos com o bem de todos, com a compaixão pelos pobres e fragilizados. “A misericórdia é a arquitrave da vida da Igreja”, disse o Papa Francisco. Não pode ser diferente na vida dos filhos e filhas de Deus. A cultura atual ganhará muito — rumos novos e surpreendentes — ao retomar o sentido e o vigor da misericórdia. O começo está sempre no amor, caminho primordial para a paz. Com o vigor da misericórdia, pode-se fazer uma nova aposta humanística, uma revitalização da multilateralidade na política, a reconciliação com inimigos, a conquista de uma alegria duradoura no coração humano e a promoção de um desenvolvimento integral na economia. Inteligente e sábio é buscar o vigor da misericórdia.


Dom Walmor Oliveira de Azevedo

O Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, é doutor em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Atual membro da Congregação para a Doutrina da Fé e da Congregação para as Igrejas Orientais. No Brasil, é bispo referencial para os fiéis católicos de Rito Oriental. http://www.arquidiocesebh.org.br