Ouvir Deus

Silenciar-se é tão terapêutico como expressar-se

É preciso silenciar-se para ouvir a voz de Deus

O silêncio das tardes parece ter se perdido no passado. As manhãs perderam o seu mistério no descortinar de um novo dia. O barulho ocupou todos os espaços que eram reservados ao silêncio. Em meio a um mundo agitado, o silêncio foi, aos poucos, sendo esquecido.

Em pleno século XXI, o homem e a mulher contemporâneos redescobrem o valor do silêncio na confusa agitação da vida cotidiana. O que havia se perdido começa a ser redescoberto como fonte terapêutica. É grande o número de pessoas que procuram retiros e dias de pleno silêncio, nos quais podem estar desligadas das “redes sociais” e também da agitação da vida moderna.

Silenciar-se é tão terapêutico como expressar-seFoto: Daniel Mafra/cancaonova.com

Por que o silêncio é terapêutico?

Silenciar-se é tão terapêutico como o expressar-se. Desde a Antiguidade, principalmente entre os monges do deserto, conhecidos também como “Terapeutas do Deserto”, o silêncio era uma riqueza terapêutica. Por meio dele, homens e mulheres se encontravam com Deus e com si mesmo. Hoje, o ser humano tem sede de silêncio e paz. A agitação da vida moderna roubou esse tesouro que pertence à alma.

Para os monges do deserto, o silêncio era um remédio para a agitação que afligia o ser humano, pois nele [silêncio], a pessoa entra em contato com aquilo que ela possui de mais sagrado, ou seja, a sua própria alma. Nos recônditos da alma, encontram-se as respostas que tanto se busca para o cotidiano da vida. No silêncio da alma, encontra-se a presença de Deus.

Acho complicado quem busca Deus na agitação dos megashows e encontros. Barulho, som em nível altíssimo, gritos… Fico me perguntando: Como será a experiência de alguém que faz um encontro com si mesmo e com Deus em meio a tanta agitação? É possível esse encontro? Qual o nível de experiência espiritual que a pessoa leva para a sua vida cotidiana?

Leia mais:
.: A importância do silêncio para a vida de oração
.: O silêncio é o porteiro da vida interior
.: Escondidos atrás do silêncio
.: Por que temos dificuldades para ouvir Deus?

Ouvir a voz de Deus

Parece-me tão lógico que o silêncio das tardes, das flores, das chuvas e paisagens nos mostrem claramente que Deus se encontra lá, escondido no mistério. Como ouvir um amigo no meio de um show? Mesmo que ele grite ao nosso ouvido, vamos compreender, ainda que com muito esforço, absolutamente quase nada do que ele tentou nos dizer. Como pensar na vida participando de um show, mesmo que este seja cristão? O máximo que conseguiremos é voltar para casa com os tímpanos afetados pelos estragos dos altos decibéis.

A arte do silêncio consiste em ouvir a voz de Deus, que nos espera numa tarde serena, na chuva que irriga a terra para despertar a vida adormecida pela longa seca, nas flores que cumprem o seu papel de falar da beleza da vida, nas paisagens que revelam o mistério que não precisa de palavras.

Se no silêncio que cala toda agitação encontramos Deus, então também nos encontraremos com aquilo que sempre buscamos: nós mesmos. Onde tudo se cala o mistério da vida nos aponta a beleza do que não pode ser expresso verbalmente.


Padre Flávio Sobreiro

Bacharel em Filosofia pela PUCCAMP e Teólogo pela Faculdade Católica de Pouso Alegre (MG), padre Flávio Sobreiro é vigário paroquial da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, em Santa Rita do Sapucaí (MG), e padre da Arquidiocese de Pouso Alegre (MG). É autor do livro “Amor Sem Fronteiras” pela Editora Canção Nova. Para saber mais sobre o sacerdote e acompanhar outras reflexões, acesse: facebook.com/peflaviosobreiro

Evite nomes e testemunhos muito explícitos, pois o seu comentário pode ser visto por pessoas conhecidas.