Substituição de Deus pelo homem

Uma clara visão da realidade que vivemos contribui eficazmente para nosso caminhar tranqüilo. Percebe-se a rota certa e também é ajuda na solução dos problemas decorrentes da confusão reinante. Antigamente, o homem possuía um ponto de referência: a verdade objetiva. Podia errar, mas sabia que assim agindo estava fora dos valores autênticos. Nos últimos tempos, penetraram, profundamente, na cultura dos povos, conceitos que outorgam ao subjetivo a elaboração da verdade. Cada um julga, segundo parâmetros por ele construídos, o que deve fazer ou omitir. No fundo, é a substituição de Deus pelo homem.

O que era prerrogativa d’Aquele, a elaboração dos mandamentos a ser seguidos e a revelação da doutrina a ser aceita, passou à esfera da criatura humana. Como produto desse subjetivismo nasce o relativismo pelo qual nada mais é irreformável ou seguro. Hoje, poderá ser proclamado certo o que ontem era errôneo.

Mas, felizmente, há sinais de um retorno aos princípios que antes regiam a sociedade. Ao menos, alguns já reconhecem serem errados vários conceitos, frutos dessa pseudocultura moderna. Não se trata de volta a antigas posições, tomadas em bloco, pois nelas haveria certamente elementos ultrapassados. Sente-se, hoje, em muitos ambientes, a necessidade de uma retificação de rota. Por exemplo, no passado, propugnou-se pela união entre a Igreja e o Estado como forma ideal de convivência. Recordo que, em um seminário realizado no verão de 1991, em Moscou, com a participação da Pontifícia Comissão para a Cultura, afirmou-se publicamente que, em uma sociedade pluralista, o Estado deve ser separado da Igreja, mas não dos sentimentos religiosos do povo. A sociedade não subsiste sem os valores éticos e estes desaparecem sem a vivência que decorre da Fé. Além disso, várias conferências episcopais têm tido a oportunidade de lembrar que “Estado leigo” não significa “Estado ateu” ou anti-religioso.

Apesar disso, sopram no mundo e, portanto, no Brasil, os ventos da secularização e da autonomia do homem diante de Deus. Em conseqüência, os que fazem as leis e as executam, muitas vezes agem como se desconhecessem o sagrado, atendendo apenas às exigências do mundo. A opinião pública, eivada desses princípios, pressiona fortemente na direção dos valores meramente terrenos, desconhecendo os eternos. A consciência da capacidade da criatura leva a negar a submissão ao Criador, às suas prescrições, quer no direito natural quer no positivo.

Assim, tantos cidadãos responsáveis pela direção do País, às vezes de boa fé, enveredam por soluções frontalmente contrárias às normas divinas. Como exemplo, cito a pressão em favor do aborto, ao mesmo tempo em que defendem os direitos humanos. Ora, o fundamento destes é a garantia da preservação da vida, desde a concepção até a morte natural.

Há um pavor de ser ridicularizado em razão da fidelidade às leis eclesiásticas. Entre os que se julgam seguidores do Mestre, surge uma aberração que tende a se expandir. Aceitam Cristo, louvam-no, mas negam respeito e obediência à Igreja. Ou ainda, criam um modelo religioso à própria imagem e segundo os conceitos em voga. Dessa forma, a estrutura querida pelo Salvador – “quem vos ouve a mim ouve” (Lc 10,16) – é rejeitada.
Além disso, foge-se do sacrifício pessoal, busca-se esquecer a realidade da morte; o alvo a ser atingido a qualquer custo é a felicidade neste mundo. Os meios não importam.

Em todo esse conjunto, há um círculo vicioso. A falência da Fé cristã se manifesta nas obras, na vida particular e pública. Impera uma cultura eivada de paganismo, de liberdade sem peias, de subjetivismo. O ambiente que se respira é fator de decomposição moral. Para exemplificar, lembro-me de uma pesquisa feito ao final de 1991: a resposta à pergunta sobre “o que mais se desejava”, em 1992, foi sempre dinheiro e outros bens materiais. Nela, verifiquei que não houve uma só referência ao espiritual. Se alguém só procura o que é terreno, ignora Deus; então, por que se surpreender com tantos escândalos administrativo-financeiros, violência, drogas, AIDS? Se hoje repetíssemos essa pesquisa, com toda certeza a resposta seria a mesma.
Felizmente, há um pequeno grupo, um fermento, que sabe dizer o “não” quando necessário e o “sim”, mesmo com sacrifício. São esses homens que edificam uma sociedade, inclusive a religiosa.

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