Quaresma, tempo de jejum e mortificação

Na Quaresma, a Igreja oferece uma grande riqueza espiritual para se viver bem, oferecendo meios de conversão interior, vias de santidade, jejum, mortificação (voto, propósito, promessa) para que o homem viva a liberdade interior, o desapego aos bens terrenos, e principalmente, para que combata as paixões desordenadas. Mas vamos nos deter neste artigo, particularmente, no jejum e na mortificação.

A Igreja nos propõe o jejum principalmente como forma de sacrifício, mas também como uma maneira de nos educar a fim de percebermos que o que mais necessitamos é de Deus. Dessa forma, justificam-se as demais abstinências, elas têm a mesma função.

O jejum, assim como todas as penitências, é visto pela Igreja como uma forma de educação no sentido de se privar de algo e revertê-lo em serviços de amor, em práticas de caridade. O jejum é esta «metanóia», isto é, aquela transformação espiritual, que aproxima o homem de Deus. O jejum ocupa um lugar importante. O Antigo Testamento enumera-o [jejum] entre os fundamentos da espiritualidade de Israel. Essa prática implica uma atitude de fé, de humildade, de total dependência de Deus. Recorre-se ao jejum como preparação para o encontro com Deus, antes de se enfrentar uma missão difícil, assim como para se implorar o perdão duma culpa, para manifestar a dor causada por uma desgraça familiar ou nacional. Mas este, inseparável da oração e da justiça, visa, sobretudo, a conversão do coração.

Os Santos Padres o tiveram em grande consideração. Para eles, a prática do jejum facilita a abertura do homem a outro alimento: a Palavra de Deus (cf. Mt 4,4) e o cumprimento da vontade do Pai (cf. Jo 4,34); conexo intimamente com a oração, fortifica a virtude, suscita a misericórdia, implora o socorro divino, leva à conversão do coração – com esta dupla vertente: de imploração da graça do Altíssimo e de profunda conversão interior.
São Pedro Crisólogo afirma: “O jejum é paz do corpo, força dos espíritos e vigor das almas” e ainda: “O jejum é o leme da vida humana e governa todo o navio do nosso corpo”.

Mas não podemos jejuar porque todos o fazem. É preciso estar presente uma pergunta: Por que estou fazendo jejum? O que quero mudar? E o que preciso deixar Deus dominar, que não estou conseguindo? Pois, o jejum precisa transformar a vida, submeter o corpo à oração, combater a gula, que é causa de muitas paixões desordenadas e prazeres pecaminosos.

Hoje em dia quase ninguém quer mais jejuar, não queremos colocar o nosso corpo em oração. No entanto, se quisermos nos converter e vencer a satanás deveremos praticá-lo. Não nos esquecendo de que Jesus só venceu a tentação no deserto porque estava em jejum. Nossa vida vai mudar, nossa família também, se jejuarmos.

Outro ponto, que queremos compreender, é a questão das mortificações, vistas como um voto ou promessa a Deus, as quais temos o costume de fazer neste tempo forte de conversão. Mas antes queremos entender o que significa o voto ou promessa que fazemos na Quaresma, vamos entender aqui como mortificação. É a luta contra as más inclinações, a fim de submetê-las à vontade de Deus. A mortificação não é um fim, mas um meio para o homem viver uma vida superior e não desejar ou ficar apegado aos bens terrenos. São bens espirituais que alcançamos com as penitências. A união com Deus é o fim da mortificação.

Os sacrifícios podem ser escolhidos livremente, mas precisam ter uma função específica e serem baseados na pergunta: Por que estou deixando isso ou aquilo? Pois precisa haver um efeito de conversão, de mudança de vida, não é tirar algo por tirar ou porque os outros o fazem. De que adianta parar de tomar café durante 40 dias se nossas atitudes não mudarem? Se não houver uma transformação interior e um propósito de mudar algo de concreto.

As penitências ou mortificações precisam ser assumidas de acordo com o que queremos ou precisamos mudar. Será que não é melhor fazermos o propósito com o Senhor de mudança interior, como por exemplo, parar de murmurar, parar de xingar, de roubar, de fofocar? Esses exemplos podem ter efeitos mais profundos do que simplesmente parar com o chocolate, com o café, com o refrigerante. Contudo, cada um precisa fazê-las, de coração, não importa a mortificação, o que deve ocorrer são os efeitos em nossas vidas. Se nada muda há alguma coisa errada.

“O caminho da perfeição passa pela cruz. Não existe santidade sem renúncia e sem combate espiritual. O progresso espiritual envolve ascese e mortificação, que levam gradualmente a viver na paz e na alegria das bem-aventuranças” (CIC 2015).

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