Olhemos para Cristo trespassado na Cruz!

Nos primeiros séculos da Igreja, a disciplina e a renovação penitencial fizeram surgir um período inspirado nos quarenta dias bíblicos, isto é, a Quaresma. Para isso, recordemos trechos da Mensagem do Papa Bento XVI sobre o assunto, com data de 21 de novembro de 2006: “Hão de olhar para Aquele que trespassaram” (Jo 19,37). Este é o tema bíblico que guia este ano a nossa reflexão quaresmal. Este período do Ano Litúrgico é tempo propício para aprender a deter-se com Maria e João, o discípulo predileto, ao lado d’Aquele que, na Cruz, cumpre pela humanidade inteira o sacrifício da sua vida (cf. Jo 19,25)”.

A Cruz revela a plenitude do amor de Deus: “É no mistério da Cruz que se revela plenamente o poder irresistível da misericórdia do Pai celeste. Para reconquistar o amor da sua criatura, Ele aceitou pagar um preço elevadíssimo: o sangue do seu Filho Unigênito”.
E continua: “Aquele que trespassaram”. “Olhemos para Cristo trespassado na Cruz! É Ele a revelação mais perturbadora do amor de Deus (…) aceitar o seu amor não é suficiente. É preciso corresponder a este amor e comprometer-se depois a transmiti-lo aos outros: Cristo ‘atrai-me para si’ para se unir comigo, para que eu aprenda a amar os irmãos com o seu mesmo amor”.

A mensagem nos indica aspectos bem precisos: “Olhemos com confiança para o lado trespassado de Jesus, do qual brotam ‘sangue e água’ (Jo 19,34)! (…) Vivamos estas semanas como um tempo ‘eucarístico’, no qual, acolhendo o amor de Jesus, aprendemos a difundi-lo à nossa volta com todos os gestos e palavras. Contemplar ‘Aquele que trespassaram’ estimular-nos-á, desta forma, a abrir o coração aos outros, reconhecendo as feridas provocadas na dignidade do ser humano; impulsionar-nos-á, sobretudo, a combater qualquer forma de desprezo da vida e de exploração da pessoa e a aliviar os dramas da solidão e do abandono de tantas pessoas”. E assim termina o Documento: “Maria nos guie neste itinerário quaresmal, caminho de conversão autêntica ao amor de Cristo”.

Neste tempo litúrgico, recordo-me de uma iniciativa modesta, começada no Nordeste, mais precisamente na Arquidiocese de Natal, e que se transformou em um grande movimento de âmbito nacional: a Campanha da Fraternidade. E que constitui, hoje, uma poderosa força evangelizadora. Penetra em toda a parte com seus cânticos, as vias-sacras deste tempo quaresmal, roteiros de homilias nas santas Missas dominicais, subsídios catequéticos, círculos bíblicos, horas santas, enfim, um despertar da Fé com um mais alto e amplo sentido comunitário da Igreja. Emissoras de Rádio e Televisão têm colaborado para isso. Um tema central une e inspira todas as atividades. Anualmente, o próprio Santo Padre inicia este período de pregação. Embora sendo ação de natureza católica, envolve, em vários aspectos, todos os brasileiros de boa vontade.

Por ocasião da abertura da Campanha da Fraternidade, o Sumo Pontífice Bento XVI enviou à Igreja do Brasil uma Mensagem que traz a data de 16 de janeiro de 2007. Iniciou com estas palavras: “Desejo mais uma vez aderir à Campanha da Fraternidade que, neste ano de 2007, está subordinada ao tema ‘Fraternidade e Amazônia’ e ao lema ‘Vida e Missão neste chão’. É um tempo em que cada cristão é convidado a refletir de modo particular sobre as várias situações sociais do povo brasileiro que requerem maior fraternidade (…) com as populações amazônicas (…). Por sua vez, esta mesma preocupação se insere no amplo tema da defesa do meio ambiente, para o qual este vasto território constitui um patrimônio comum que, por sua realidade humana, sócio-política, econômica e ambiental, requer especial atenção da Igreja e da sociedade brasileira (…) ação eclesial dirigida a fomentar um processo de ampla evangelização que estimule a missionariedade e crie condições favoráveis para a descoberta e o crescimento na fé de toda a população amazônica”. E termina o documento com “um preito de gratidão a todos aqueles corajosos missionários, que se consagraram e se consagram, à custa inclusive da própria vida, em levar a fé católica às cidades e aldeias da região; homens e mulheres que, por amor a Deus, entregaram-se de corpo e alma para a extensão do Reino de Deus nesta Terra de Santa Cruz”.

O Santo Padre João Paulo II disse-nos, em sua Mensagem para a Campanha da Fraternidade de 1980, divulgada em cadeia de TV para todo o Brasil: “Converter-se é buscar a atitude de encontro com Deus e de encontro dos corações, no amor com o próximo, a determinar a partilha dos bens com os menos favorecidos das nossas sociedades, com aqueles que, por diversos motivos, não podem continuar a viver na sua terra, e têm de partir, muitas vezes sem saber para onde”.

A Quaresma nos recorda que a penitência, inclusive corporal, não perdeu sua eficácia, nem seu lugar na vida cristã em nossos dias. A Campanha da Fraternidade nos oferece uma excelente oportunidade para o retorno ao verdadeiro espírito deste tempo sagrado.

A vivência da fé cristã, por vezes, escandaliza os que não possuem este dom de Deus. Assim, há pouco tempo, muitos manifestavam seu estupor quando os meios de comunicação social noticiaram o uso de cilício e outras penitências corporais.
Ignoravam que a Redenção da Humanidade é fruto da crucificação de Cristo. Cresce o noticiário sobre assuntos eclesiásticos, marcados com certa freqüência, por erros crassos de quem ignora a instituição deixada pelo Senhor Jesus, a Igreja Católica.

Escutemos o Sucessor de Pedro: “Exorto-vos, pois, a todos, a corresponder generosamente aos apelos da Campanha da Fraternidade: apelos à conversão, à partilha dos bens, a ver nos outros irmãos e irmãs, conosco, filhos e filhas de Deus e co-herdeiros de Cristo (Rm 8, 17)”.

Para o bem do Brasil e da Igreja sejamos generosos em favor do desenvolvimento da Amazônia, segundo os planos de Deus

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