Coração feliz

Deixar para trás o que fica para trás

Se o coração deixasse para trás o que fica para trás ele seria mais inteiro, ele caminharia leve e sem peso de acusações

Existem situações na vida da gente que acabam influenciando profundamente aquilo que somos. Tal influência, por vezes, pode exercer sobre nós o ofício de aprisionar, estacionando nosso olhar em paisagens que não mais compõem nossos dias.

De fato, o coração, –com as razões que o povoam, –vive inconstâncias que, em determinados momentos, o tornam confuso e inquieto; e se ele não for bem nutrido e direcionado, pode desenvolver certa facilidade para se acorrentar àquilo que não mais pode ser nem ter.

Deixar para trás o que fica para trás - 1600x1200Foto: Wesley Almeida / cancaonova.com

A raiz de tal confusão, muitas vezes, consiste no orgulho, que o impede de se aceitar pequeno e limitado, querendo assim sempre “voltar para consertar” e explicar aquilo que em sua vida ficou ausente de perfeição.

Seria tão mais fácil reconhecer: “Errei, nessa circunstância eu não fui capaz de acertar…”. Assim o coração ficaria livre para compreender com propriedade o profundo significado da misericórdia, que se configura como acolhida sem precedentes daquilo que o ser é, e de maneira singular de suas fragilidades e incapacidades. Assim o coração será feliz por ser o que é, sentindo-se acolhido por um amor infinitamente maior que o seu, que não o acusa nem vive a exigir explicações.

Ser amado

Onde o amor é abundante cessam-se as explicações. Quem explica demais se sente acolhido de menos, pois no coração que se compreende conhecido e amado as palavras podem ser dispensadas e as explicações dão lugar à certeza de ser amado como se é.

Se o coração deixasse para trás o que fica para trás ele seria mais inteiro, caminharia leve e sem peso de acusações. Contudo, para isso é necessário deixar passar sem tentar explicar nem consertar; mas um deixar com a serena consciência de que existe um terno abraço sempre pronto a acolhê-lo em cada esquina de sua história.

As justificativas tornam a vida pesada, pois semeiam desconfiança. Quem se justifica demais diante de seus erros e fraquezas ainda não compreendeu que é amado assim como é. Quem se contempla amado não vive explicando suas limitações, mas se permite ser perdoado e acolhido apenas pela força de um simples olhar, mesmo com a ausência de palavras.

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Confiar no amor

Deixar sem buscar justificar e explicar é um concreto sinal de que o coração aprendeu a confiar na força do amor que acolhe sem desprezar. Sem desprezar a essência –que é boa –em virtude dos fragmentos de imperfeição.

Deixar é também uma forma de ser autêntico consigo, assumindo que, em determinada circunstância, não foi possível acertar, mas que é possível aprender com o limite para construir uma posterior vitória.

Diante de um Amor que é sempre ‘sim”’, o coração precisa ser educado para abandonar os seus frágeis “’nãos’” nesse imenso abismo de acolhida e compreensão.

Dessa forma, a vida se tornará mais livre para tentar, sem ter que fingir ou representar para se aceitar como é. Desprender-se é deixar para trás o que fica para trás!


Padre Adriano Zandoná

Padre Adriano Zandoná é missionário da Comunidade Canção Nova. Formado em Filosofia e Teologia, tem quatro livros publicados pela Editora Canção Nova e participação em dois CDs de oração.

Todas as segundas-feiras, o sacerdote preside a Missa na Catedral Nossa Senhora do Líbano, às 19h30, em São Paulo (SP). A transmissão é ao vivo pela TV Canção Nova. Padre Zandoná apresenta o programa ‘Pra ser Feliz’ na mesma emissora, todas as quintas-feiras ao meio dia, e também na Rádio América CN AM 1410, todas as quintas-feiras às 13h.

Atualmente, o sacerdote exerce a função de responsável local da Canção Nova em São Paulo (SP) e promove o evento ‘Abraça São Paulo’.

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