Acenda a luz!

A Igreja reza confiante na Quaresma: “Ó Deus, que nos mandastes ouvir o vosso Filho amado, alimentai nosso espírito com a vossa palavra, para que purificado o olhar de nossa fé, nos alegremos com a visão da vossa glória”. Mas é bem realista perceber que há muitos fatos e problemas que dificultam nosso “olhar de fé”. Multiplicam-se notícias de atos violentos e um sem número de crimes que nos deixam estarrecidos. Num hipotético campeonato de violência e criminalidade, nossa Belém já está à frente de muitas outras regiões do país. A vida é banalizada, mata-se quase por brincadeira, o trânsito se torna caótico e violento.

Nosso sistema se saúde, dos melhores do mundo em sua concepção, não consegue se universalizar. Ainda que nosso país experimente uma fase positiva de crescimento econômico, persistem as desigualdades sociais e muitos dos projetos pessoais desmoronam como castelos de areia. Já estamos pagando muito caro pelas opções feitas pela sociedade nas últimas gerações. Como olhar com fé todas estas realidades e enfrentar os desafios que nos cercam?

Deus não arquitetou qualquer castigo para a humanidade, justamente porque Ele é só Amor. Nós mesmos combinamos nossas terríveis armações e nos enredamos de tal forma que se erguem verdadeiros becos sem saída, dificultando a percepção dos rumos a serem percorridos. É como uma criança que ganhou um enorme brinquedo, cheio de aparatos eletrônicos, sem dúvida, maravilhosos, mas não sabe o que fazer com ele. Falta-lhe um manual de instruções! Parece-nos que estamos num túnel escuro, que muitos chegam a chamar de noite da cultura contemporânea.

Mesmo em quadros culturais diferentes, a natureza humana é sempre a mesma. Os primeiros discípulos de Jesus também se assustavam com as surpresas do caminho percorrido com Ele. Carregavam consigo as esperanças de séculos, no desejo sincero da chegada do Messias esperado. No entanto, justamente Aquele em quem aprenderam a depositar confiança parece-lhes misterioso demais para sua frágil capacidade de compreensão. Dura foi a progressiva percepção de que ir atrás d’Ele exigiria deles passar pela escuridão da cruz e da morte. Era-lhes escandalosa a perspectiva de que o sofrimento faz parte e é estrada para a realização plena de qualquer pessoa. O impasse em que se encontravam gritava pela luz!


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Alguns deles foram escolhidos para subir a um alto monte, que a tradição localizou no Tabor (cf. Mc 9, 2-12), para entenderem o segredo do Senhor. A atenção que lhes deu Jesus era tanta que até quis se cercar de testemunhas abalizadas: Moisés e Elias, a lei e os profetas. Mais ainda: abriu-lhes o Céu, permitindo-lhes ouvir o Pai do Céu: “Então desceu uma nuvem e os encobriu com sua sombra. E da nuvem saiu uma voz: Este é o meu Filho amado. Escutai o que ele diz!” Viram a alvura da glória de Jesus, mais bonita do que o trabalho da mais competente lavadeira do mundo. Ali, no turbilhão de interpretações sobre o Mestre, cercados pela perseguição e incompreensão, deviam entender que Deus é o senhor da história e que a saída tinha um nome, o de Jesus Cristo, o Filho amado a ser ouvido e seguido. Tiveram que aprender quando desceram do monte, pois foram obrigados ao silêncio, já que se tratava primeiro de viver do que falar.

Até hoje os cristãos se veem no mesmo impasse, pois estão inseridos nos mesmos desafios a que estão sujeitos seus contemporâneos. A violência e a criminalidade não pedem uma carteira de identidade religiosa, mas atingem a todos. As perguntas pelo sentido da vida continuam a nos provocar! O que fazer com o brinquedo que temos nas mãos, sabendo que dentro dele pode estar uma bomba-relógio?

O “manual de instruções” diz que há que se arriscar no seguimento de Jesus Cristo. Comece por ir atrás d’Ele, apostando na imensa legião de testemunhas, pessoas que passaram pelo “vale da sombra da morte” ou que foram conduzidas aos píncaros da contemplação de Seu amor. Com o tempo, a compreensão do sentido da existência acontece. Mas é preciso começar com a vida e com o coração. A noite da cultura é, em grande parte, fruto das pretensões de quem quer ser, com a própria cabeça, dono do mundo. Uma boa dose de simplicidade infantil e de gratuidade fará bem a todos.

Pessoas assim serão capazes de dar o primeiro passo. Nos quartos escuros da existência, levantar-se para acender a luz acaba desfazendo os pequenos ou grandes fantasmas. E mais ainda quando tomamos a iniciativa de oferecer a luz do afeto, o carinho do elogio, a valorização do bem, mesmo pequeno, que as pessoas sabem fazer. E se no mar de maldade existente pudermos ir ao encontro da humanidade desfigurada a fim de descobrir que ninguém foi feito para a perdição? Olhar ao redor e perceber que há uma nuvem (cf. Mc 9,7), símbolo da ação misteriosa do Espírito Santo, na qual podemos entrar para ouvir a voz do Pai do Céu!

Homens e mulheres de nosso tempo poderão oferecer o que têm de melhor, parecidos com Abraão, sem medo de dar a Deus o próprio filho (cf. Gn 22,1-18). Só assim Deus Pai poderá desfazer a triste lógica dos sacrifícios humanos que persistem até hoje. E Seu amor foi tão grande que aceitou entregar Seu Filho amado (cf. Rm 8,31-34), permitindo-Lhe entrar com amor infinito lá dentro da lógica irracional da maldade, para resgatar todos os homens e mulheres que, escravos do pecado, clamam por salvação. Com Sua graça e seguindo o rastro deixado por Ele, a luz se acende! Na grande cidade ou na grande humanidade, rostos transfigurados poderão emergir até das cinzas! A beleza e a bondade para as quais a humanidade foi criada virão à tona.

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