À nova geração nós contaremos

A 44ª Assembléia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, em 2006, tratará da evangelizacao da juventude. A questão é fundamental para a Igreja, não apenas no Brasil, mas em todo mundo. De fato, se a juventude não for evangelizada, haverá uma interrupção na transmissão da fé e isso teria conseqüências muitos sérias para o futuro da própria Igreja.

Mas é preciso dizer logo: a falta de evangelização da juventude não é um problema dos jovens, mas de toda a Igreja e, talvez, denota a insegurança na fé das gerações adultas. De fato, não parece verdade que os jovens sejam hoje menos propensos a crer e praticar a fé do que no passado: eles querem dar um sentido para as próprias vidas e continuam aderindo a muitas propostas religiosas, ou a substitutivos para a religião.

Assistimos hoje a uma grande oferta de opções religiosas para todas as ocasiões, gostos e decisões na vida. Já não se apela tanto à verdade de uma proposta, mas se insiste nos sentimentos e emoções e se promete a eficácia imediata das propostas. As novas gerações defrontam-se com uma grande variedade de possibilidades e caminhos.

Nem sempre seguem a fé dos pais. Por vezes, os pais ficam inseguros, se vale a pena ou, até mesmo, se é justo “ensinar” a própria religião aos filhos; há quem diga que isso fere a autonomia e o direito de livre escolha dos filhos. Para muitos pais, religião não é mais assunto que se trate com os filhos e até o batismo vai ficando de lado. A religião é relegada sempre mais para a esfera privada e subjetiva, na qual cada um faz suas escolhas conforme seus gostos ou conveniências. E, como gostos e conveniências mudam, assim também a opção religiosa pode mudar. Como se não houvesse outros dados referenciais para a fé e a conduta moral, que não o próprio sujeito.

Sempre houve um jeito muito natural de transmitir a fé aos filhos: as mães falavam de Deus aos filhos, ainda pequenos, enquanto lhes ensinavam a falar; contavam as “histórias sagradas”, na medida e no jeito dos pequeninos, e realizavam a sua progressiva inserção na vida da comunidade eclesial, simplesmente levando-os consigo à igreja. A catequese acontecia de maneira espontânea e natural e a transmissão da fé não ficava parecendo um aprendizado intelectual de conteúdos desligados da vida, mas fazia parte da vivência e da educação para a vida.

A evangelização da infância e da juventude não depende tanto de estratégias e métodos complicados, ou de decisões da autoridade da Igreja. Bem mais simplesmente, ela requer a convicção e o testemunho de fé das gerações adultas e a alegria de comunicar aquilo que dá força e esperança à própria vida.

Era assim que se fazia a transmissão da fé no tempo dos patriarcas e profetas, antes de Cristo: “Uma idade conta à outra as vossas obras e publica os vossos feitos poderosos; de vossa imensidade todos falam e exaltam, ó Senhor, vossa justiça” (cf Sl 144[145], 4-7). Os pais narravam as obras de Deus e o exemplo dos patriarcas aos filhos, aos netos, às jovens gerações, aos estrangeiros… Era um privilégio, ao qual os adultos não renunciavam: “Tudo o que ouvimos e aprendemos, aquilo que nos transmitiram nossos pais, não haveremos de ocultar a nossos filhos, mas à nova geração nós contaremos” (Sl 77[78], 3-4).

Se hoje conservamos a fé apostólica, é porque ela nos foi transmitida, geração após geração. Já S.Paulo, a propósito da fé na Eucaristia, fala da força dessa transmissão da fé: “transmiti-vos aquilo que eu mesmo recebi” (1Cor 11,23). Cada geração recebe o patrimônio da fé da Igreja, nutre-se dele, alegra-se com ele e enriquece-o com sua própria vivência e testemunho. Cada época teve seus mártires e santos, seus grandes teólogos e mestres espirituais, seus pastores e testemunhas da fé, que confortaram e confirmaram os irmãos na fé.

A evangelização é um processo de ajuda às pessoas, para elas se encontrarem com Deus através de Jesus Cristo. O papa Bento XVI, na encíclica Deus é Amor, recorda que a fé cristã é a resposta humana à experiência pessoal do amor de Deus revelado a nós por Jesus Cristo. Esse encontro pessoal e vivencial desperta a fé, forma o discípulo e dá ardor ao missionário. Também os jovens, uma vez evangelizados, serão missionários de outros jovens. E, um dia, falarão de sua fé aos filhos, aos netos. E o processo de transmissão da fé continuará. Como sempre foi.

Fonte: CNBB

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