Volta Senhor!

Foi durante um Rebanhão aqui em Brasília. Durante os três dias de carnaval a Renovação Carismática Católica estava reunida no estádio de Taguatinga e, pela primeira vez em muitos anos, eu não estava disposto a participar. Primeiro porque o encontro era longe da minha casa e segundo porque os pregadores eram desconhecidos; e eu pensei comigo: “Nada de interessante pode acontecer lá”. Então, na tarde de segunda-feira, minha casa ficou em silêncio. Minha mãe e minha irmã saíram e meu pai dormia em seu quarto. Resolvi estudar mas, por curiosidade, só por curiosidade, liguei o rádio, sintonizei na transmissão do Rebanhão e me fechei em meu quarto.

Depois de uma pregação o padre que conduzia o encontro começou a anunciar várias curas. Como inúmeras vezes tivemos oportunidade de assistir, ele dizia que o Senhor estava curando uma senhora com dor nas costas. Em seguida perguntava quem fora curado e então se levantaram algumas senhoras. Todo o povo aplaudiu. Aí eu pensei – num estádio com seis a oito mil pessoas certamente haverá uma senhora com dores nas costas. O padre continuava anunciando que um homem estava sendo curado de dor de cabeça. Aquilo já estava me incomodando porque era por volta de três horas da tarde e fazia muito calor na cidade. Facilmente se encontraria no meio daquele povo alguém com dor de cabeça. Mais uma vez, o padre perguntava quem havia sido curado e alguém levantava, e o povo aplaudia. “Que padre irresponsável. Ele brinca com a fé e a simplicidade do povo”, pensei comigo. “Quero ver se o Senhor faz uma cura extraordinária. Quero ver se ele vem aqui e me cura também.”

Sou médico e atualmente faço pneumologia e terapia intensiva. Trabalho diariamente com pacientes muito graves e constantemente me encontro em situações de emergência. Doentes em seu extremo; uma dose a mais ou a menos faz diferença. E por estudar estas coisas sei como são complicadas, difíceis, verdadeiros mistérios. O tratamento médico, por mais evoluído que seja, ainda é precário e deixa a desejar. Realmente acredito que o Senhor, que fez o céu e a terra e tudo que neles há, é capaz de curar quem quiser, onde quiser e como quiser. Mas duvidava que Ele estivesse ali, curando aquelas pessoas de doenças tão simples e através daquele sacerdote que tanto me incomodava. E assim permanecia o desafio, não ao Senhor mas ao padre: “Quero ver se o Senhor faz uma cura extraordinária. Quero ver se ele vem aqui e me cura também.”

Passados alguns minutos o padre anunciou: “Agora o Senhor está deixando o estádio. Está indo visitar um jovem médico, que nos escuta pela rádio agora. Devido à sua profissão, duvida de tudo que acontece aqui. Senhor, nós te pedimos, cura este jovem de sua falta de fé”. Neste momento deixei o livro que estava estudando, me ajoelhei e chorei muito. Pensei – o Senhor, está no meu quarto. No chão, arrependido, em prantos, porém muito feliz, ainda ouvi o que o padre dizia: “Volta Senhor, volta pro estádio para fazer aquilo que foi interrompido”. E eu disse ao Senhor que estava em meu quarto: “volta Senhor, volta para o estádio”.

Hoje posso cantar de verdade como Ricardo Sá – Eu vi o Senhor!

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