Uma guinada decisiva

Todos percebemos que, muitas vezes, trabalhando, escrevendo, falando, descansando ou em qualquer outra ação, pode infiltrar-se em nós um apego, mesmo pequeno, a nós mesmos, a coisas, a pessoas… E consentir isso é muito prejudicial para a vida espiritual. São João da Cruz diz: “Pouco importa se o pássaro está amarrado por um fio grosso ou fino. Desde que não se liberte, estará preso tanto por um como por outro. (…) Assim acontece à alma cativa por afeição a qualquer coisa: jamais chegará à liberdade da união com Deus, por mais virtudes que possua”.

É necessário, portanto, nessas circunstâncias, intervir imediatamente e nada é mais útil – é uma experiência que eu fiz, inclusive recentemente – do que declarar a Jesus, que na cruz viveu o desapego mais radical até chegar a gritar o abandono do Pai: “És tu, Senhor, o meu único bem. O único. Não tenho outros”.

Creio que é uma oração importantíssima e muito agradável a Deus, que nos ajuda a não nos empoeirarmos com as coisas terrenas. Vivendo-a, ficamos impressionados – eu fiquei e fico sempre – ao ver como esse adjetivo: “único” (“És tu, Senhor, o meu único bem”) dá uma guinada decisiva na nossa vida espiritual, nos corrige imediatamente, como a agulha de uma bússola que nos dá segurança no nosso caminho para Deus.

Além do mais, esse modo de agir corresponde perfeitamente à nossa espiritualidade, na qual prevalece o aspecto positivo: vivendo o bem, descartamos o mal. Não somos chamados a nos desapegar de algo – de nós mesmos, das coisas e das pessoas -, mas a plenificar a nossa vida amando a Deus como o nosso tudo. Não gostamos do “não”, mas do “sim”.

Essa oração – “És tu, Senhor, o meu único bem”, é um modo maravilhoso de vivermos como verdadeiros cristãos, como pessoas que amam a Deus com todo o coração, com toda a alma e não pela metade. E, ainda, é um modo sublime de nos prepararmos para cada encontro com Ele, por meio das suas inspirações cotidianas; assim como para o grande encontro com Ele quando, no amanhecer do eterno dia, no nosso coração terá valor somente o amor a Deus e, por Ele, aos nossos irmãos.

“És tu, Senhor, o meu único bem”: quanta Sabedoria, quanta prudência, quanta luz, quanta força, quanto amor, quanta perfeição nessas breves palavras! Que Deus nos dê a possibilidade de experimentar toda a potência delas.

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