Riqueza e pobreza

Em grande parte das casas dos cristãos existe o livro da palavra de Deus. A essa constatação, acrescenta-se o fato de que se espalha cada vez mais o desejo de leitura, meditação e vivência da palavra em nossas famílias. Afinal, não há outra possibilidade de transformar a nossa sociedade e quem participa da vida litúrgica da Igreja tem esse privilégio do contato com a palavra.

Na leitura, orando a palavra de Deus, encontramos verdadeiras provocações, como a que São Lucas apresenta no capítulo 16:19-31, sobre a riqueza e a pobreza. Nos últimos anos a questão da riqueza e da pobreza foi tratada com fortes conotações ideológicas, por extremistas de variadas tendências, dificultando a acolhida aberta, sincera e disponível do ensinamento do Senhor. Se o argumento é delicado, sabemos que é também essencial e inadiável, levando em conta a fonte do ensinamento e a situação de nosso mundo.

A parábola descreve a situação do rico e do pobre, nesta vida e na eternidade, com as conseqüências das opções feitas aqui na terra.

Se no Antigo Testamento havia normas muito definidas para punir o ladrão, já aqui na terra, na parábola contada por Jesus, o homem rico não é condenado por ter tirado dos outros, mas por não ter dado daquilo que lhe pertencia. Tornou-se escravo de suas posses e, portanto, cego diante das necessidades do pobre. Este por sua vez, é de tal modo valorizado pelo Senhor que seu nome é citado, “Lázaro”, enquanto do rico esbanjador só sabemos que gastava muito.

O pobre era também doente, e sua situação é fonte de tentação da revolta que muitas vezes deve ter batido à porta de seu coração. Depois da morte, o rico sofre e pede ajuda; tendo negado migalhas de pão, pede o mínimo que é uma gota d´água.

Em nosso tempo, mais cedo do que poderíamos esperar, a sociedade já está colhendo frutos de insatisfação e frustração depois da busca desenfreada da posse e do prazer. Essa parábola ensina um caminho exigente: a posse dos bens é sempre fonte de tentação, risco para qualquer pessoa. Só a partilha dos bens “redime” a posse!

Não podemos usar a desculpa de que “não roubamos de ninguém”, pois “quantos são os necessitados ao meu lado, tantos são aqueles que prejudiquei” (Hom. 12,7).

Para alertar-nos, temos “a lei e os profetas” e, mais ainda, alguém que de fato ressuscitou dos mortos! Para qualquer um de nós, seja qual for a situação social em que estamos, vale hoje perguntar: como adquirimos nossos bens? Como os usamos? Nosso coração está apegado a eles ou está livre?

As respostas a tais perguntas poderão suscitar um novo relacionamento com os bens terrenos, importantes para o serviço das pessoas, mas nunca destinados à idolatria do consumo. Quem abrir seu coração haverá de iniciar, a partir de sua casa, a estrada da partilha e da comunhão, realidades que irão nos acompanhar na eternidade, onde Deus será tudo em todos.

.: Trecho do livro: Filhos de Deus

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