"Quem canta, seus males espanta"

Numa forma de desabafo, um rapaz me disse: “Definitivamente não entendo o povo brasileiro. Tão sofrido, maltratado por injustiças políticas, desigualdades sociais, desemprego… e ao mesmo tempo tão festivo e cantante, poeta, fã de carnaval, artista por natureza!”

Conversa vai, conversa vem, chegamos a uma conclusão: quem canta, os males espanta! A arte expressa nas cores, na poesia, no artesanato, na dança e no canto do brasileiro, é uma espécie de desabafo. Um jeito criativo de driblar a realidade quase sempre sofrida por inúmeras razões, de dar sentido à vida e aos fatos que a marcam. Na arte o homem expressa o que sente de forma criativa e envolvente e aí faz uma grande descoberta: sua história e seus sentimentos são semelhantes aos de tantos. Assim ele vence a solidão, ameniza a dor e descobre a felicidade, quando percebe que não é o único a remar contra a correnteza da vida.

Não é raro ouvirmos alguém dizer: “Essa música diz tudo o que sinto” ou mesmo “… esta história tem tudo a ver comigo!” A arte aproxima corações, quebra diferenças, nos faz reconhecer o que somos na essência: irmãos. Em missão no Sul da Bahia, tenho encontrado artistas anônimos e surpreendentes, povo simples marcado pelo sol e por uma história cheia de desafios.

Outro dia, conheci o Sr. Valdomiro, um artesão como tantos da região. Homem acolhedor, cheio de simplicidade e sabedoria. Disse-me que jamais freqüentou uma escola de artes, mas tudo que eu via em sua barraca podia acreditar que ele mesmo é quem tinha feito com suas próprias mãos. Quando elogiei seu talento, remeteu-os rapidamente a Deus e concluiu com uma pergunta: “Moça, repare só, se consigo fazer estas peças sem ter ido à escola, não foi Deus quem me ensinou tudo?”

– “Claro, Sr. Valdomiro!”

Concordei logo com ele e juntos exaltamos a Deus com sinceridade e simplicidade. Aliás, simplicidade, acredito que seja a via que Deus escolhe manifesta-se por aqui. Gosto quando Ziza Fernandes canta: “Deus é bem simples…” E falando de canto, volto ao provérbio que citei no inicio do texto: Quem canta, seus males espanta.

É preciso ir além da dura realidade que, muitas vezes, nos cerca. Acredito que uma postura diferente diante da dor é uma forma de “espantar os males”. Valorizarmos as coisas boas da vida, sairmos do pessimismo e encontrarmos na simplicidade, as maiores lições que Deus quer nos ensinar, também.

Sr. Valdomiro não imagina o bem que me fez com aquela conversa! Ele encontrou na arte o jeito de espantar os males que rondam sua difícil vida de artesão em uma pequena vila. Podemos refletir hoje, se nossas atitudes têm espantado os males ou tem atraído outros?

Amemos nosso trabalho, nossa família, nossa comunidade… Buscando ser afáveis e cordiais com todos, quando for possível, especialmente com os mais necessitados. Tenhamos a coragem de partilhar o que temos, os talentos artísticos também, pois a felicidade não consegue ser vizinha do egoísmo e a matemática do cristão é surpreendente; quando dividimos os dons, eles se multiplicam. Não fique tão triste se não conseguir agradar a todos, afinal quem consegue? Alegre-se quando conseguir ajudar alguns.

Com voz afinada ou não, cante e espante os males.
Seja feliz. Deus o quer feliz!
Torço por você!


Dijanira Silva

Missionária da Comunidade Canção Nova, desde 1997, Djanira reside na missão de São Paulo, onde atua nos meios de comunicação. Diariamente, apresenta programas na Rádio América CN. Às terças-feiras, está à frente do programa “De mãos unidas”, que apresenta às 21h30 na TV Canção Nova. É colunista desde 2000. Recentemente, a missionária lançou o livro “Por onde andam seus sonhos? Descubra e volte a sonhar” pela Editora Canção Nova.

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