Pureza da fé

Há certa relação entre o enfraquecimento da verdadeira Fé e a expansão das manifestações religiosas distanciadas do bom senso. Na época do progresso científico, dos computadores, do rigor das pesquisas, paradoxalmente cresce e aumenta a crendice popular.
O mágico exerce enorme atrativo. Facilita, assim, a aceitação como verídicos, de fatos atribuídos a seres extraterrenos por parte de letrados e iletrados. E, em conseqüência, a propagação de ensinamentos doutrinários oriundos desses e de outros fenômenos.

Realmente, há uma fome de Deus e uma avidez pelo transcendental. À medida que nossa civilização mais se configura como simples realidade material, aprofunda-se no coração do homem a certeza de uma outra existência. Além disso, a dor física e moral pede certo tipo de lenitivo, especialmente a quem carece de uma visão cristã do sofrimento. Busca-se desesperadamente uma solução, enquanto muitos esquecem que, se ela é falsa, irá agravar e não resolver uma situação aflitiva. Nem todos sabem aquilatar o valor das lágrimas na construção de uma vida.

O pouco conhecimento da mensagem integral que Cristo nos veio trazer, facilita a penetração de crenças que não podem ser aceitas como uma religião. E sob títulos sugestivos abrigam um conteúdo oposto ao Evangelho.

A gravidade desse quadro não pode ser percebida pelos dados estatísticos, pois a grande maioria continua a declarar-se, publicamente, católica. Nem sempre vê certa incongruência entre o que proclama e os atos que pratica.

Essa conjuntura também traz inconvenientes de outra ordem que a religiosa. Tomemos, entre muitos, um caso.

Anos atrás, um diário de grande circulação anunciou amplamente, durante um mês, a cura de grave doença nos olhos de um paciente. Esse resultado teria sido obtido em local que se intitulava “clínica” e com recursos não científicos, mas extraterrenos, mágicos. Uma intervenção maravilhosa do Além, feita por personagem bastante conhecido. E, por não pertencer à comunidade dos vivos, não podia ser identificado pelos meios que merecessem crédito ao comum dos mortais. Repetidas edições, coadjuvadas por fotografias, deram à pretensa cura farta divulgação. Sem dúvida, ela veio fortalecer convicções sobre o assunto. Quem perdeu a visão e não deseja tê-la restaurada? Uma ocorrência dessa importância insinuava a veracidade de ensinamentos relacionados com o fato.

Entretanto, no mês seguinte, no mesmo jornal, uma longa carta do suposto agraciado. Somente, então, negou o resultado positivo do pseudo-tratamento.

Para nós, cristãos, são dolorosas as conseqüências de ordem espiritual advindas dessas práticas. Penso também nos efeitos negativos para as pessoas que, – deixando os válidos e necessários cuidados médicos –, buscam a solução de seus males nessas fontes ou em outras assemelhadas.

A tendência de nosso povo para o extraordinário explica a máxima cautela da Igreja em autenticar milagres. Embora reconhecendo a ação divina na recuperação da saúde, do bem-estar físico, moral e mental, ela ensina que Deus age normalmente por intermédio da inteligência humana, criada por Ele para servir à sua obra. Só excepcionalmente procede de maneira diversa.
Além disso, verifica-se lamentavelmente um culto ao próprio demônio, o que agrava ainda mais o problema. Atinge-se, então, uma área dolorosa, na qual a criatura despreza seu Criador, em favor do inimigo de Deus.

No comércio, multiplicam-se as casas onde são vendidos ingredientes diversos para a utilização nessas práticas. É um sinal evidente de que há muitos compradores.
As festividades desse gênero recebem multidões de adeptos ou simples curiosos. Congressos, os mais variados, já incluem, a título de interesse pelo exotismo, essas manifestações. A promoção turística, eleitoral ou jornalística, contribui para divulgar uma imagem de nossa cultura colocando-a ao nível desses ritos. E, certamente, parte de nossa população não concorda com nossas concepções cristãs.

Deixemos de lado, por mais importantes e decisivas que sejam, as conseqüências religiosas. Embora respeitando as convicções de alguns ou de muitos irmãos nossos, devemos constatar que valores pertencentes ao patrimônio comum sofrem reações: correm perigo o nível intelectual de nossa população, o adequado tratamento sanitário, o equilíbrio psíquico, alterado por fortes impressões causadas por fatores atribuídos ao Além ou à busca do misterioso.

Ao lado destas considerações, pode ser alinhado o extraordinário êxito de publicações que exploram a curiosidade sobre temas religiosos. Afirmações são feitas com base unicamente em imaginação fantasiosa, como, por exemplo, o “Código Da Vinci”, sem qualquer fundamento histórico. Na mais recente obra desse gênero, vê-se com clareza o grau de credibilidade, que goza, inclusive entre pessoas de nível intelectual elevado.

Nem os dois milênios de respeito à figura e à missão de Jesus Cristo e sua Mãe foram obstáculos ao exercício de uma imaginação doentia ou à busca de interesses subalternos.

Evidentemente, merecem acatamento as crenças de cada um, sua expressão e exigências, sua doutrina e preceitos. Por outro lado, temos o dever de preservar o que pertence à comunidade cristã. Compete a cada cidadão contribuir para o fortalecimento do bem comum e ao cristão também defender a pureza de sua Fé. O bom senso muito nos poderá ajudar, com a graça de Deus, a respeitar a liberdade de uns sem ferir o direito de outros. A dimensão eterna do Evangelho nos pressiona a não o substituir por apregoadas vantagens terrenas e ilusórias.

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