Perseguição à Igreja

A perseguição acompanhou toda a vida de Cristo. Na Igreja, seu Corpo Místico, ela não pode estar ausente. São Lucas (21,12-18) diz: “Hão de vos perseguir (…) por causa do meu nome (…) Sereis traídos até por vosso pai, mãe, irmãos, parentes e amigos (…) Sereis odiados de todos, por causa de meu nome, mas nem um só cabelo de vossa cabeça se perderá”. Toda essa previsão é coroada com uma frase citada em diversos documentos pelo Papa João Paulo II: “No mundo tereis tribulações, mas tende coragem, eu venci o mundo” (Jo 16,33).

Ultimamente, estas e outras passagens bíblicas adquiriram especial importância diante de graves acusações à Igreja. A partir de falhas em sua parte humana, atingida pelo pecado, incriminações são generalizadas, envolvendo inocentes na culpa de alguns.
No caso do escândalo de pedofilia no clero, repórteres de conhecida agência internacional de notícias, em fins de abril último, percorreram as Dioceses dos Estados Unidos e constataram 177 ocorrências, representando menos de meio por cento dos 46.075 sacerdotes daquele país. E, segundo promotores de Justiça, muitos desses fatos são antigos demais para serem levados a juízo.

Entre nós, no Brasil, o problema vem sendo apresentado com algumas nuances. As falhas existentes no clero, em matéria sexual, vêm servindo de pretexto para atacar a Igreja Católica. Atingem profundamente, de modo negativo, a vida religiosa. Pessoas de responsabilidade, pelo menos aparente, encontram guarida nos órgãos de imprensa e causam graves danos entre os menos advertidos.

Neste comentário, uso do mesmo direito de manifestar o que penso sobre esse comportamento e os males que ele causa. Começo observando os aspectos positivos desse noticiário, pois a mais interessada em coibir tais pecados é a própria Igreja, cuja missão é levar à santidade o Povo de Deus, inclusive seus ministros. Beneficia também a sociedade, ao fortalecer as medidas de defesa, de modo particular, da infância. Segundo dados divulgados na imprensa pela ABRAPIA (Associação Brasileira de Proteção à Infância e Adolescência), obtidos em parceria com o Ministério da Justiça, cerca de 62,76% dos casos, a violência sexual é cometida por alguém da própria família, em especial pais ou padrastos. Em 79,17%, o crime ocorre onde a vítima reside. O incesto é a modalidade mais comum do abuso sexual nessa idade.

Sobre este assunto, conhecido médico declarou, dias atrás, pela imprensa: “Na minha experiência profissional, já atendi diversas crianças e até bebês, com sinais evidentes de violência sexual cometida por familiares. A primeira reação dos pais, que alegam outros motivos para os ferimentos, é fugir com a criança do hospital, quando percebem a desconfiança de alguém”.

Este triste quadro é, na expressão do Santo Padre ‘um crime diante da sociedade e um pecado hediondo aos olhos de Deus‘. Evidentemente, merece condenação e castigo dos infratores. Contudo, não pode ser fruto de simples acusação. Distinguir o culpado do inocente é fundamental ao se divulgar a informação ao grande público. E, portanto, não penalizar toda a instituição, isto é, a Igreja. Não se aproveitar dos fatos para divulgar ilações falsas, como atribuir ao celibato a causa desses males.

A campanha difamatória, alimentada por um número extremamente reduzido de casos anunciados, em geral ainda a serem comprovados, tenta lançar o descrédito sobre a quase totalidade dos ministros fiéis a seus compromissos. Por isso, achei oportuno trazer a público algumas informações divulgadas a 4 de maio último pelo Serviço de Informação do Vaticano, em preparação à próxima apresentação do Anuário Católico. Esse comunicado apresenta as variações entre 1978 – início do Pontificado de João Paulo II – ao ano 2000. Embora cansativa a leitura de tantos números, é importante, para perceber que essa mesma Igreja tão atacada é uma instituição florescente.

O número de católicos aumentou, em todo o mundo, passando de 757 milhões em 1978, para um bilhão e 45 milhões, em 2000. Um crescimento de 38%. Nesse mesmo período de tempo, o número dos bispos no universo inteiro passou de 3.714 para 4.541, quase 22% a mais.

No que concerne aos sacerdotes, eram 405.178 no ano 2000, com uma diminuição de 3,75% em relação a 1978. Enquanto na Europa essa diminuição tem sido progressiva, o contrário ocorre na África, Ásia, América e Oceania. O diaconato permanente quintuplicou em todos os Continentes, com um incremento relativo de 400,25%. De 5.512, hoje atinge a cifra de 27.824.

As religiosas diminuíram em número, passando de quase um milhão para 811 mil. Os catequistas e missionários leigos aumentaram consideravelmente. O número de candidatos ao sacerdócio tem crescido globalmente. De 64 mil seminaristas, em 1978, passaram para 411 mil no ano 2000, com uma tendência progressiva e contínua e ininterrupta em todos esses anos.

O aumento da pornografia, a liberdade que se transformou em libertinagem e a irritação provocada pela vida religiosa, que soa como uma condenação a esses desvios, dificultam um julgamento isento dessas sombras no conjunto da vida eclesial. Corrigindo as falhas verdadeiras, castigando os faltosos, promovendo a santidade dos ministros de Deus, caridosamente corrigindo os críticos injustos, suportando com paciência e firmeza as perseguições que sofre a Igreja de Deus, conseguiremos, sem dúvida, superar o clima negativo ora reinante em algumas áreas. Não nos esqueçamos das palavras de Jesus: “No mundo, tereis tribulações, mas tende coragem: eu venci o mundo” (Jo 16,33).

Cardeal Eugênio de Araújo Sales
Arcebispo Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro

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