Pedro hoje é Bento XVI

Considero das maiores graças recebidas de Deus em minha longa vida o ter podido participar, em Roma, de dois históricos acontecimentos da vida da Igreja e do mundo: o sepultamento do Papa João Paulo II e a eleição do Cardeal Joseph Ratzinger, Papa Bento XVI. Embora importante para mim, as anotações diárias que fiz, destacarei apenas esses eventos, mais interessante para os leitores.

Levando em conta as indagações que fazem sobre a pessoa do 265º Sucessor do Apóstolo Pedro, opto por transmitir ao leitor algumas reflexões que vim fazendo durante estes dias. O Cardeal Ratzinger foi nos primeiros anos do seu sacerdócio um conceituado professor de Teologia em quatro grandes Universidades alemãs. Suas aulas eram disputadas. Nesses anos ele iniciou a publicação de seus livros. Em 1962 o episcopado alemão o teve como principal assessor no Concílio Vaticano II (1962-1965).

Isso contribuiu para projetá-lo entre os teólogos do mundo. Seus méritos fizeram que fosse eleito Arcebispo de Munique, uma das maiores cidades da Alemanha. Anos depois o Papa João Paulo II o nomearia Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, uma das mais importantes da Cúria Romana. Por mais de vinte anos foi o braço direito do saudoso Papa em questões de fé e moral.

O empenho do Cardeal Ratzinger na defesa dos valores do Evangelho fizeram que alguns teólogos fossem convocados para explicar suas posições heterodoxas. Entre eles está o ex-franciscano Leonardo Boff, que após a publicação de seu livro “Igreja, Carisma e Poder” foi chamado até Roma. Foi decidido que durante o ano de 1987 ele deveria recolher-se em um “silêncio obsequioso”, revendo algumas de suas posições contra a constituição hierárquica da Igreja. Esse fato entre outros deixou a muitos a impressão de que o Cardeal era uma espécie de “inquisidor”.

Nas várias visitas ad limina que fiz com todo o episcopado paulista, encontramo-nos com ele na Congregação que presidia. Sempre foi extremamente afável, atento a todos os problemas levantados. No momento oportuno dizia a sua palavra de fidelidade ao Evangelho, sempre em profunda comunhão com o Papa João Paulo II. Como decano do Colégio Cardinalício, coube a ele presidir dez importantes reuniões com os 150 cardeais procedentes de todo o mundo.

Sem dúvida Ratzinger era, dentre os cardeais, o mais conhecido e respeitado por seu inegável valor humanístico, filosófico e teológico, de grande espiritualidade. As homilias feitas por ele na Missa do sepultamento de João Paulo II e na Celebração realizada na Basílica de São Pedro horas antes do Conclave, contribuíram para projetar ainda mais a sua pessoa e méritos. Corria à boca pequena que ele entrava na Capela Sistina como o principal dos candidatos do Papa apenas sepultado junto do túmulo do Apóstolo.

No Conclave mais curto da história da Igreja, em menos de 24 horas os 115 cardeais eleitores optaram por Ratzinger como o mais preparado para responder aos desafios internos da Igreja e aos problemas da modernidade. Certamente foi eleito com pelo menos ¾ dos votos, no quarto escrutínio, o que também é inédito. Sabe-se por depoimento do novo Papa aos 5 mil peregrinos alemães vindos para a sua posse, que ele pediu a Deus no momento da apuração dos votos, fosse evitado na altura dos seus 78 anos o fardo extremamente pesado de Pastor maior da Igreja. Perguntado se aceitava a sua eleição respondeu que sim, escolhendo o nome de Bento XVI.

Em depoimento a jornalista brasileiro presente em Roma, sobre o significado dessa escolha quando havia pelo menos dez outros cardeais preparados para o ônus do pontificado, respondi que entre os motivos estava a capacidade do Cardeal Ratzinger para dar continuidade ao longo pastoreio de João Paulo II respondendo, especialmente, aos preocupantes problemas existentes no interior da Igreja e aos desafios da re-evangelização da Europa. Acrescentei parecer-me não ter chegado ainda o momento para a eleição de um Papa latino-americano, africano ou asiático. A Igreja nesses continentes expande-se a olhos vistos, ainda que enfrentando problemas que uma instituição pastoreada e integrada por homens sempre terá. O seu grande desafio hoje é a secularização, o relativismo e permissivismo ético-moral do Velho Mundo.

A apresentação e a posse do novo Papa na Praça de São Pedro reuniu, além dos clérigos e missões de 141 países, uma multidão de 400 mil pessoas. Jamais em toda a história da Igreja a morte de um Papa e o seu sepultamento, a posse de um novo Papa e o início de seu pontificado, tiveram tal eco na bimilenar história da Igreja. Como bispo encontrava-me bem perto do novo Papa. A princípio um pouco tímido mas logo a seguir extrovertido fez uma esplêndida homilia. Provavelmente convém que eu retorne mais adiante à beleza desse solene rito e às reflexões de Bento XVI, aliás Pedro nos dias de hoje. Ele já cativou a todos.

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