Palavras de Dom Eusébio sobre a 40ª Assembléia

Muito espaço tem ocupado o comentário às Assembléias de Itaici na mídia de todo o país e, até, do exterior. De certa maneira, isto se justifica, embora se trate de um acontecimento intra-eclesial e de prevalência pastoral. Sabe-se, que a nossa Conferência Episcopal Nacional se tem destacado, sobremaneira, em assuntos de ordem social, econômica e política que afetam fortemente a Ação Social da Igreja.

O mesmo sucede no âmbito da Igreja Católica, no mundo inteiro. Assim se explicam as múltiplas declarações e exortações e, mesmo, encíclicas do Santo Padre e de outros Dicastérios Romanos no que tange à ordem propriamente temporal da sociedade humana. “A Igreja é perita em humanidade”, insiste o Papa João Paulo II. Cada cristão consciente não poderá deixar de ser um cidadão responsável. Somos responsáveis, também, pelo bem social, promocional da humanidade: “Sem promoção humana não há evangelização verdadeira”, exortava o atual Papa em Santo Domingos (1992). Já o Concílio Vaticano, em “A Igreja no Mundo de Hoje”, gizava: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, são também as alegrias, as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo”. Cabe a nós assumir essa tarefa.

Quanto às Assembléias Gerais da CNBB, basta lembrar alguns dos documentos elaborados colegiadamente – com séria profundidade, esmero e responsabilidade cívico-moral e eclesial. Cito alguns exemplos: Exigências cristãs de uma Ordem Política; Por uma nova Ordem Constitucional; Solo urbano e Ação Social; Igreja: comunhão e missão, na evangelização dos povos, no mundo do trabalho, da política e da cultura; Educação, Igreja e Sociedade e Ética: Pessoa e Sociedade.

Na mídia, não raro, aparecem estranhezas e críticas à “intromissão” da Igreja em assuntos que não seriam – a rigor – de sua alçada e competência. Alguns exponentes da mídia nacional chegam, por vezes, a ser agressivos e virulentos. Arrogam-se o direito da crítica desapiedada.

Poucos jornalistas e repórteres, efetivamente, têm a visão global e exata de nossas Assembléias Gerais, realizadas há 50 anos, anualmente, com participação total do Episcopado Brasileiro. Quase todos os temas são tratados em sessões plenárias, em discussões e debates em círculos menores, em comissões de estudo e em sessões gerais “privativas”. O trabalho é sério, intenso e consciencioso.

A Grande Imprensa tem pouco acesso à maioria dessas reuniões e, com isso, talvez, a função maior de determinados jornalistas e repórteres é ditado pela imaginação, pela opinião pessoal ou… por preconceitos. Pelo que, ordinariamente, é notificado na mídia, as Assembléias Gerais da CNBB aparecem para o nosso povo como um grande comício de discussões acirradas, inescrupulosas, uma espécie de luta partidária sem concessões.

Saibam todos, que as Assembléias Gerais têm como objetivo traçar rumos, buscar inspirações, procurar caminhos para que a Evangelização, a ação pastoral e as iniciativas sociais de nossa querida Igreja de Cristo atinja os melhores resultados, através dos ditames evangélicos de Jesus Cristo. As discussões, as trocas de opinião e de experiência e, até mesmo, acentuadas diferenças visam apresentar unicamente o rosto de uma Igreja que retrate, o melhor possível, o Rosto de Cristo, o seu jeito de ser e de agir.

Ao descrever as primeiras comunidades cristãs, São Lucas Evangelista nos aponta: “Eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos Apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações” (At 2,42). Creio, que todas essas prerrogativas podem ser aplicadas às nossas Assembléias Gerais da CNBB, mesmo que as fraquezas e as limitações, por vezes, nos tentem desviar desses objetivos.

A Organização interna da CNBB se compõe de 17 regionais de cunho pastoral e administrativo. É por demais evidente que nem todos os problemas do Norte são os do Sul, ou do Centro-oeste, os do Leste. Freqüentemente são perceptíveis notáveis diferenças no mesmo Regional, especialmente, quando este é muito grande e internamente diferenciado. Há exigências e sensibilidades de ordem pastoral de certos regionais que quase não aparecem em outros. Naturalmente, isto causará enorme diferença nas tônicas, na escolha das prioridades e no teor mesmo das discussões nas Assembléias Gerais. Saiba-se – e isso deve ser acentuado com justiça – todos os Bispos participantes das Assembléias da CNBB jamais ficaram sem oportunidade ou chance de externar e frisar os próprios pontos de vista. Reina, neste sentido, enorme espírito participativo, co-responsável, democrático, em nossas Assembléias.

Outra característica marcante é a fraternidade, a cordialidade e alegria reinantes entre todos os participantes das Assembléias Gerais. Podemos divergir, e muito, nas posições e escolhas pastorais… Jamais, na caridade! A apregoada diferença entre linhas de pastoral horizontalista e verticalista são bem menos acentuadas do que é escrito e falado. Há regiões pastorais, em nosso país, em que a dignidade humana, o valor e promoção da pessoa são relegados a tal descaso que o aspecto social horizontal e humano deve ser apontado com coragem, vigor e clareza. Com esta “opção preferencial” pela promoção mais humana, jamais se deixa em segundo plano ou no esquecimento: a dimensão espiritual, transcendente e divina desse mesmo nosso irmão espezinhado, até mesmo, em seus direitos religiosos.

Outra realidade, sumamente elogiável, das Assembléias Gerais da CNBB, são as celebrações litúrgicas. Rezamos e cantamos muito em tais ocasiões. Temos plena certeza de que, sem o auxílio do Alto, quaisquer iniciativas nossas cairiam no vazio: ‘Sem mim, nada podeis fazer‘ (Jo 15,5).

Dom Eusébio Oscar Scheid
Arcebispo do Rio de Janeiro

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