Os povos indígenas e a Páscoa de Cristo

A Campanha da Fraternidade, promovida pela Igreja Católica e apoiada por outras Igrejas, nos convida a ligar a Páscoa do Cristo à “Fraternidade e os Povos Indígenas”. Maior do que a dívida externa, o Brasil tem um grande débito social com os povos indígenas. Durante a Missa que marcou a comemoração dos 500 anos, no 21 de abril de 2000, em Coroa Vermelha, o jovem, Matalauê Pataxó falou: “Quinhentos anos de sofrimento, massacre, exploração, extermínio de nossos parentes, estupro de nossas mulheres, devastação de nossas terras, destruição de nossas matas (…) Essa memória está na nossa alma e no nosso coração. Hoje, queremos justiça, terra e liberdade”.

Na história da colonização, a Igreja Católica Romana e outras Igrejas foram cúmplices de uma colonização que não respeitou os índios como povos autônomos. A Igreja foi cúmplice de uma ação conquistadora que destruiu culturas, invadiu territórios e escravizou povos inteiros. A própria cruz foi usada como símbolo desta conquista. Por isso, o Papa João Paulo II e diversos Bispos pediram perdão e se comprometeram a mudar a forma de viver o Evangelho e anunciar o Cristo. É claro que exige conversão interior e uma humildade que só entende quem se deixar tocar pelo amor de Deus.

A Campanha da Fraternidade 2002, cujo lema é “por uma terra sem males”, tem como objetivo permitir o conhecimento mais amplo dos povos indígenas, do seu modo de vida e de suas culturas. Deseja dialogar com outras Igrejas que trabalham com índios, sobre como respeitar mais e fortalecer as identidades e culturas. Visa restabelecer a justiça com os índios, mas também possibilitar que toda a sociedade receba dessas culturas uma contribuição para organizar o mundo de modo mais justo. A causa indígena é questão de todos.

Em toda a América há 40 milhões de indígenas. No mundo, calculam-se em 300 milhões de membros de povos originários e autóctones. No Brasil, no começo da colonização, os indígenas somavam milhões. Hoje, restam 550 mil e estão entre os mais carentes do país. Dos 771 territórios indígenas, o governo não demarcou ainda 68% dos seus territórios, passo importante para que evitar que sejam invadidos. Em 178 casos, o governo nem iniciou a demarcação. Celebrar a Páscoa é colocar-se do lado da justiça e de tudo o que favorece mais vida para todos. Jesus declarou bem-aventuradas as pessoas que têm fome e sede de justiça. Como canta Ataualpa Yupanki: “Dá a tua mão ao índio. Dá que te fará bem; te fará mais feliz e humano”.

Marcelo Barros
Monge Beneditino
E-mail:mostecum@cultura.com.br

>>> Leia mais no Especial da Campanha da Fraternidade 2002 <<<

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