Orientação de como os católicos devem votar

Vivemos um momento de angústia decorrente da corrupção, violência, insegurança social, tráfico de drogas. Todo esse ambiente inaceitável tem algum relacionamento com a capacidade de escolha por parte dos cidadãos.

As eleições estão às portas. O próximo pleito se apresenta, como os anteriores, quando já existia o mal que nos asfixia, embora em grau menor. Sem dúvida, bons candidatos foram eleitos, trabalharam com afinco, mas a realidade de hoje indica que persiste a degenerescência política, que infelicita nosso País. Faz-se mister crescente esforço e discernimento na escolha dos que assumem o honroso e difícil ônus de governar, elaborar leis, tendo em vista o bem público e não vantagens pessoais.

Às vésperas das eleições, recordemos o dever cívico que tem, no alicerce, princípios religiosos, de promover os dignos, de rejeitar os aproveitadores. Por aí começa nosso compromisso cristão: votar e fazê-lo tendo em vista o bem comum. O ideal democrático, em seus aspectos políticos, econômicos, sociais, desde a Grécia antiga, passando por Roma até nossos dias, tem sofrido muitas vicissitudes. Essa participação do cidadão, pelo voto, indica o grau de responsabilidade na vida pública. Daí decorre sua grande influência na estrutura da sociedade. Trata-se de um compromisso cívico e moral e, evidentemente, seu reto exercício afeta a consciência do cristão.

O admirável documento conciliar “Gaudium et Spes” (nº 75) assim trata o assunto: “É plenamente conforme com a natureza do homem que se encontrem estruturas jurídico-politicas nas quais todos os cidadãos tenham a possibilidade efetiva de participar livre e ativamente (…) na gestão da coisa pública (…) e na escolha dos governantes”.

Todos os cidadãos se lembrem do direito e, simultaneamente, do dever que têm de fazer uso do seu voto livre. A grande dificuldade é discernir o digno do indigno em meio a uma intensa propaganda eleitoral, que utiliza em profusão a mídia,. Aí está um valioso campo de atividades do leigo. Como agir? Nas promessas feitas na campanha eleitoral, sem qualquer dúvida, nem tudo corresponde à verdade. Uma atuação importante nesses dias que precedem a eleição é esclarecer, inclusive por um contacto pessoal, os carentes de melhor conhecimento. Ela se exerce no interior da família, no local do trabalho, no círculo de amizades, nos deveres pastorais. Com absoluta isenção, acima de qualquer opção político-partidária, é possível ajudar quem está sendo enganado ou necessita de informações objetivas. Ao votar, cumpre-se um dever também de fundo religioso. Evidentemente, é uma atividade de leigo para leigo, em uma perspectiva cristã. Isto significa cumprir um compromisso cívico, movido por princípios cristãos.

Ao tratar desse assunto, recordemos a diretriz da Congregação para a Doutrina da Fé, em sua “Instrução sobre a Liberdade Cristã e a Libertação”, com a data de 22 de março de 1986: “Não compete aos Pastores da Igreja intervir diretamente na construção política e na organização da vida social. Tal tarefa faz parte da vocação dos leigos, agindo por sua própria iniciativa, juntamente com seus concidadãos. A distinção entre a ordem sobrenatural da salvação e a ordem temporal da vida humana deve ser vista ao interno de um único desígnio de Deus: o de recapitular todas as coisas em Cristo. Essa distinção é encontrada na Constituição Pastoral “Gaudium et Spes” (nº 76) e no Decreto “Apostolicam Actuositatem” (nº 7). Assim o leigo, em um e outro campo, deve deixar-se guiar constantemente pela consciência crist㔠(nº 80).

Há dificuldades para uma válida e responsável opção, entre tantos candidatos e programas, nesse campo de atuação do leigo. Eles devem ser alertados para o cumprimento do seu dever e, ao mesmo tempo, relembrar a distinção entre o religioso e o político-partidário.

Lembro que o Vaticano II faz um veemente apelo: “O sagrado Concílio pede instantemente, no Senhor, a todos os leigos que respondam, com decisão de vontade, ânimo generoso e disponibilidade de coração à voz de Cristo (…) Que se unam a Ele, cada vez mais intimamente e sentindo como próprio o que é dEle (Fl 2,5), se associem à Sua Missão salvadora (“Apostolicam Actuositatem”, nº 33)”. Evidentemente, é da maior importância para a causa do Evangelho fazer chegar aos postos de direção homens e mulheres que defendam a vida contra o aborto, promovam o ensino religioso nas Escolas Públicas, conforme a crença do aluno, a justiça social, através da aplicação da Doutrina Social da Igreja, fortaleçam a Instituição Familiar, combatam a fome dos filhos de Deus, a corrupção administrativa. E assim por diante.

Tudo isso pode parecer utópico. No entanto, os leigos do Brasil, no exercício de sua vocação, interligados na imensa rede de associações religiosas, apoiados pela mídia católica, algo de útil poderão fazer nestes últimos dias que nos separam das eleições. Pelo menos, poderá ser o início do despertar da consciência cristã, nesta matéria. Revela também a angústia reinante. Mesmo que os resultados sejam mínimos, certamente é um começo de reação em busca da solução desses problemas.

Certamente, estas considerações não nos devem levar ao pessimismo. Acima da fraqueza humana está a onipotência divina. A Mãe de Jesus também é nossa Mãe. Peçamos a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira de nossa Pátria, que, junto a seu Filho, obtenha para nossos leigos discernimento e coragem neste momento de grande importância para o Brasil e a Igreja.

Cardeal Eugênio de Araújo Sales
Arcebispo Emérito da Arquidiocese do RJ
Rio de Janeiro, 01 de outubro de 2002.

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