Ordenações de Presbíteros e Diáconos

1. Na Solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo, a Igreja de Lisboa reúne-se para a ordenação de novos presbíteros e diáconos, que em comunhão conosco, os Bispos, garantirão o exercício do sacerdócio e do ministério. Trata-se de uma festa litúrgica na qual, durante muitos anos, a Igreja de Lisboa ordenou os seus padres.

Esta circunstância convida-nos a uma consciência de unidade e de fraternidade, entre os membros do presbitério, dos sacerdotes e diáconos com o seu Bispo, numa comunhão que é semente de unidade de toda a Igreja. Saúdo todos os sacerdotes que hoje celebram o aniversário da sua ordenação sacerdotal.

Os textos bíblicos que agora escutamos realçam três dimensões da vida e ministério dos Apóstolos Pedro e Paulo, base perene de uma compreensão do ministério e de uma espiritualidade sacerdotal: o ministério apostólico é concebido como um combate, que pode ser ganho porque o Senhor não falta com a Sua força, esperando Ele a confissão pronta da Sua qualidade messiânica e da Sua Senhoria de ressuscitado.

2. O “bom combate” do ministério apostólico: grava-se no nosso coração o testemunho de Paulo, já no ocaso da sua vida terrena: “combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Daqui em diante está-me reservada a coroa de justiça, que o Senhor, Juiz justo, me dará no dia do Juízo”. Noutras passagens das suas cartas, Paulo concretiza as aventuras desse combate. E para Pedro ele começou logo em Jerusalém, nos primeiros dias da Igreja, no confronto com o Sinédrio. Ambos venceram a última batalha, na coroa do martírio, vitória da caridade na aparência da derrota humana.

O exercício do ministério sacerdotal poderá, ainda hoje, no nosso contexto cultural e social, comparar-se a um combate? Penso que sim. Ele recebe da imagem do combate, a decisão inabalável de lutar, com todas as forças a que possamos recorrer, por atingir objetivos irrenunciáveis, que definem a essência mesma do serviço sacerdotal. Em qualquer combate quando as causas porque lutamos esmorecem ou se confundem, a derrota é inevitável. Por isso Paulo afirma noutra passagem das cartas: “Sei em Quem acreditei”,

O nosso ministério é, hoje, antes de mais, o combate da fidelidade. Como é encorajador e estimulante ver Paulo, no fim da vida, afirmar: “guardei a fé”. A sua causa foi a mesma, do princípio ao fim: Cristo morto e ressuscitado. O dom do sacerdócio e do ministério que hoje recebeis, constitui uma nova exigência de fidelidade.

Antes de mais, fidelidade a Jesus Cristo e ao seu Evangelho. Chamados a participar no Seu próprio Sacerdócio, enquanto Pastor e Cabeça da Igreja, uma exigência de intimidade crescente com o Senhor é semeada no vosso coração. Exercer o sacerdócio de Cristo, sem ser íntimo de Jesus Cristo, é um contra-senso e, porventura, um escândalo. Só assim a vossa palavra será um testemunho, confessando com amor a Cristo, Messias e Salvador.

Mas o vosso combate pela fidelidade, será também o da fidelidade ao ministério que vos é confiado. Ele não é vosso, é serviço amoroso de Cristo ao seu Povo. Não podereis reinventar o ministério, mas apenas servi-lo com todas as vossas forças, na unidade da Igreja, pois o ministério que vos é confiado é o ministério da Igreja. E sabemos quanto esta fidelidade exige hoje coragem e determinação, perante as correntes na moda, as exigências da sociedade de nos adaptarmos aos seus critérios, as próprias exigências dos cristãos pouco esclarecidos, que tantas vezes pedem à Igreja o que ela não lhes pode dar. Combate de fidelidade também na vigilância e na luta contra as nossas fragilidades pessoais. Deus e o seu Povo esperam de nós o testemunho de um coração casto e puro, do desprendimento pobre e generoso, da total disponibilidade para o serviço; esperam, sobretudo, que lhes demos a Palavra que converte e o autêntico pão de vida que alimenta. É uma ilusão pensar que a exigência e a santidade da nossa vida pessoal não se repercutem na fecundidade do nosso ministério. Mesmo quando os nossos pecados não são públicos, a sua influência negativa pode ser universal.

3. O nosso ministério é também um combate pela verdade. O Senhor Jesus deixou-nos, para esse combate, o critério supremo: “Eu sou a Verdade”. Ele é a verdade da Igreja, sempre compreendida de novo, que pode ser comunicada servindo-se dos elementos próprios de cada cultura e de cada tempo, mas inalterável porque Ele é definitivo. Vivemos num tempo que valoriza a busca subjetiva da verdade. O nosso ministério não nega esse direito de cada pessoa de fazer o seu próprio caminho de verdade; somos chamados, isso sim, a fazê-los confrontar-se, na sua busca, com a verdade de Jesus Cristo. É dessa que somos ministros e o seu sujeito perene é a Igreja, através do seu Magistério e do “sentido da fé” de todo o povo crente. Por isso rezamos, todos os dias, na Eucaristia: “Senhor, não olhes para os nossos pecados, mas para a fé da Tua Igreja”. Através do vosso ministério, sereis testemunhas autorizadas da “fé da Igreja”. Que dignidade e que responsabilidade! Isso exige a escuta permanente da Palavra, a oração persistente e o estudo aturado. Com essa tríplice experiência, estareis mais preparados para perscrutar os anseios e os problemas dos nossos irmãos.

4. O vosso ministério é, também, um combate pela primazia absoluta da atitude de serviço. Sereis ministros de Cristo Servo, Ele que afirmou de Si Mesmo, não ter vindo para Ser servido, mas para servir. É uma ideia bela, mas na rotina de toda uma vida será o vosso caminho de martírio, porque de dom total da vossa vida. Experimentareis o que significa ser, na Eucaristia, oferente e vítima oferecida, em união com Cristo, nosso Sumo Sacerdote e bom Pastor.

5. Este combate é a continuação do combate do próprio Cristo, e na Sua morte e ressurreição Ele é definitivamente vencedor. E a sua vitória é a garantia da nossa vitória. Pedro sentiu-o de perto, quando um anjo o liberta da prisão. Quanta força e confiança brotaram dessa experiência: “agora sei realmente que o Senhor mandou o seu Anjo e me libertou”. O mesmo testemunho nos dá Paulo: “o Senhor esteve a meu lado e deu-me força”. Isto continua a ser verdade hoje, dois mil anos depois: o combate do ministério apostólico não se pode travar só com as nossas forças humanas; ele não é uma loucura impossível, porque conosco luta o Senhor vitorioso que nos comunica essa força de vitória através do dom do Espírito. O sacerdote é, no seu ministério, um profeta desta dimensão sobrenatural da vida e da história.

Quantos sacerdotes poderiam, hoje, dar também este testemunho, quando no concreto da sua vida apostólica podem reconhecer: “o Senhor esteve a meu lado e deu-me força”. Este é o mistério da Igreja: os grandes combates pela implantação do Reino de Deus travam-se em público, com todos os meios humanos ao nosso alcance; mas a vitória decide-se em segredo, no silêncio da nossa fidelidade adorante. Aí aprendemos, com Maria, a “fazer tudo o que Ele nos disser”.

† Dom José Policarpo,
Cardeal-Patriarca de Lisboa – Portugal
Mosteiro dos Jerónimos, 29 de Junho de 2002

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