Onde está o teu tesouro, aí está o teu coração

O amadurecimento humano, condição para assumir plenamente a vida, não é um processo automático, alcançado apenas com o passar dos anos. Inúmeras pessoas, em decorrência de tantos fatores, não chegaram a esse amadurecimento. Um dos sintomas é a incapacidade de fazer escolhas decididas e claras, o que é agravado pela manipulação ideológica e pela propaganda, cuja força condiciona enormemente o dia a dia.

À base desta situação, encontra-se diversos elementos, dentre os quais uma grande crise de valores que torna as pessoas embotadas em sua capacidade de discernimento, sem a qual nenhum homem é apto a escolher “o melhor”. E quem “aprende” a escolher fará crescer em si a disposição para a renúncia, a partir do bem maior! Com ela descobrirá o sentido dos limites, o respeito à liberdade do outro e o bem comum. É a estrada, tantas vezes exigente, para a plenitude humana, onde cada um não será apenas um número, mas pessoa consciente, agente de transformação, deixando na história as marcas correspondentes ao plano de Deus, já que foi pensado e amado por Ele desde toda a eternidade.

A Igreja, que é Mãe e Mestra, forma seus filhos para a plenitude humana. Sua sabedoria oferece, da riqueza da Palavra de Deus, os passos a ser percorridos. Um de seus métodos é a proclamação da Palavra, com um roteiro que permite um contato progressivo e contínuo com o Senhor, que continua formando seus discípulos. Já no Antigo Testamento, o jovem rei Salomão (1Rs 3,7-12), sentindo-se incapaz de governar, diante do Senhor que se coloca à sua disposição, pede o que vale “mais”:
“Agora, Senhor, meu Deus, fizeste reinar o teu servo em lugar de Davi, meu pai. Mas eu não passo de um adolescente, que não sabe ainda como governar. Teu servo está no meio do teu povo eleito, povo tão numeroso que não se pode contar ou calcular. Dá, pois, a teu servo, um coração obediente, capaz de governar teu povo e de discernir entre o bem e o mal. Do contrário, quem poderá governar este teu povo tão numeroso?

Este pedido de Salomão agradou ao Senhor. Deus disse a Salomão: ‘Já que pediste estes dons e não pediste para ti longos anos de vida, nem riquezas, nem a morte de teus inimigos, mas sim sabedoria para praticar a justiça, vou satisfazer o teu pedido. Dou-te um coração sábio e inteligente, de modo que não houve teu igual antes de ti, nem haverá depois de ti” (1 Rs 3,7-12).

Salomão não pediu longa vida, nem riqueza, nem a morte dos inimigos, mas sim, a sabedoria para praticar a justiça. E Deus lhe dá um coração sábio e inteligente. Este é também o caminho cantado pelo salmista, que ama os mandamentos de Deus, que valem mais do que “milhões em ouro e prata, mais que o ouro mais fino” (Sl 119).

O Evangelho de São Mateus (Mt 13,44-52) fala de um tesouro, cujo valor faz um homem vender tudo para adquiri-lo. A presença do Reino de Deus é a grande ocasião da vida, que exige uma escolha imediata: desfazer-se de tudo para buscá-lo.
Para isto, o cristão deve ter a capacidade do discernimento, fruto muito mais da graça de Deus do que de seus esforços intelectuais; dom a ser pedido confiantemente na oração, como o fez Salomão. O homem “sábio” arrisca tudo diante do bem supremo! As conseqüências serão muito práticas: escolher a verdade mais do que a mentira, buscar o serviço ao próximo mais do que os próprios interesses, perdoar as ofensas… Tudo isto vivido com a alegria de quem encontrou a maior riqueza de sua vida. Para muitos, esta é uma proposta irreal, num mundo de competições em que nos encontramos. Para nós, cristãos, este é o caminho, o único, e queremos comunicá-lo aos outros com o testemunho da vida.

Com São Paulo, sabemos estar inseridos no estupendo plano de Deus, dentro do qual tudo coopera para o bem dos que o amam, pois encontraram o tesouro e para ele voltaram o coração.

“Sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu desígnio. Pois aos que ele conheceu desde sempre, também os predestinou a se configurarem com a imagem de seu Filho, para que este seja o primogênito numa multidão de irmãos. E àqueles que predestinou, também os justificou, e aos que justificou, também os glorificou” (Rm 8,28-30).

Dom Alberto Taveira
Arcebispo de Palmas – TO
Fonte: ‘Coleção Aos pés do Senhor
Livro: Filhos de Deus

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