O último minuto com meu pai

Sabe pai, cada dia mais, a cada ano de vida que completo, a saudade diminui pois sei que mais se aproxima o dia em que nos reencontraremos definitiva e eternamente. Ouvi uma coisa interessante através de meus netos, seus bisnetos, quando um deles me perguntou:

– Vovô, como era o seu papai? Ele era bonzinho?

Descobri, nessa pergunta, que os laços espirituais e os da família não se rompem ao fim de nossa existência. Esse poderoso e tênue fio liga o céu e a terra, o nosso coração e alma, ao nosso Pai Criador e liga as suas criaturas entre si. Lindo isto, não é?

Sabe pai, houve um tempo em que descobri a injustiça do meu julgamento a seu respeito, quando via tantos defeitos e me esquecia das suas qualidades. Tanto tempo estivemos separados um do outro e depois que mamãe morreu, fui morar com você, alguém que conhecia tão pouco. Foi um momento difícil e uma experiência muito dura, sabe? Era muito difícil até chamar você de “pai”. Tive que aprender também a pedir a sua bênção. Felizmente consegui superar isto e outras coisas, mas nem tudo pôde ser mudado. No meu coração você era o grande responsável pelos meus sofrimentos na infância sem pai e sem o carinho paterno.

Olhava com amargura para as suas atitudes e comportamento e me revoltava contra você. Não admitia seus fracassos, seus erros, sua ausência na minha educação e, principalmente, não suportava a sua fraqueza pela bebida, pelo álcool. Não entendia como alguém pudesse ser tão fraco a ponto de ser dominado por esse maldito vício.

Quantas vezes, enquanto meus colegas, adolescentes como eu, se divertiam namorando e indo aos bailes, eu era obrigado a sair procurando por você nos bares da cidade. Quantas vezes trouxe (ou melhor “arrastei”) você para casa, o coloquei na cama e exausto e decepcionado com a vida, fui dormir tendo por companhia somente meu travesseiro ensopado de lágrimas.

Hoje, aí no céu, você pode entender a minha revolta na época e me perdoar.

Todo esse sofrimento e decepções começaram a se dissolver quando ficamos juntos no seu último dia de vida. Quando você quase sem forças, olhou em meus olhos e me pediu perdão. A razão dentro de mim dizia “não aceite” e impedia o coração de perdoar. Naquele momento aconteceu a maior batalha de minha vida. Disse, com os lábios, “está bem pai”, mas não com o coração. Concordei somente para agradar um moribundo. Hoje confesso, arrependido, essa mesquinha atitude.

Tudo, na verdade, começou a mudar quando você não podia mais falar e seus olhos continuavam a me pedir perdão. Suas mãos naquele momento apertavam as minhas querendo dizer, nesse gesto, o que você jamais pôde falar: “eu te amo, meu filho”. Senti que, naquele instante, finalmente meu coração superava e derrotava, num só golpe, a razão e pude finalmente dizer com toda sinceridade:

– Descanse papai, eu te perdôo de coração… para sempre.

E num “eu te amo” meio tímido abracei você pela última vez.

Jamais vou me esquecer do seu sorriso e suas lágrimas entre as dores e a agonia do fim. Lembro do seu grande suspiro e a seguir da serenidade tomou conta de sua face. Você passou a respirar suave e serenamente enquanto seu coração, até então inquieto e sem ritmo, recuperou suas batidas, mas a seguir foi parando lentamente. Debruçado sobre o seu peito, pai, pude ouvir a sua vida se esvaindo como o vento que cessa após a tempestade. Logo a seguir um leve tremor e você voltou para o Pai. O nosso aperto de mãos se desfez quando suas forças acabaram definitivamente.

Ali, sobre nós dois, não pairava o anjo da morte, mas o amor do Pai que retoma o Sopro da Vida. Em seu leito pai, num quarto silencioso de hospital, o Pai do Céu nos uniu e nos abraçava também, num grande afago de amor inabalável e eterno.

Perdoe-me pai, se agora paro por um instante de escrever para enxugar as lágrimas; elas não são de dor não, mas de alegria e felicidade. Felicidade por ter, naquela profunda experiência de perdão, entendido todo o sofrimento de sua vida, do seu insucesso como homem e pai, as suas experiências dolorosas no trabalho, nos negócios, no casamento e a nossa separação. E eu, que pensava ser muito melhor que você, logo iria saber que também, como pai, não seria tão perfeito como quis que você fosse. Descobri que todo pai carrega as imperfeições do ser humano e que é uma luta árdua superar-se e se fazer um pai amoroso e afável todos os dias.

Entendo, hoje, que você não poderia me dar facilmente, aquilo que não teve de seus pais: carinho, afeto, amor, dedicação.

Descobri, contudo, que a bênção e a graça do perdão está em apagar definitivamente as dores e mágoas da vida. O perdão supera o racionalismo que destrói as relações de amor e afeto e restaura os relacionamentos tão preciosos aos olhos de Deus e indispensáveis a uma vida plena e feliz neste mundo. O Pai nos concedeu, no último instante, a oportunidade de restaurarmos, eu e você, esse tão valioso laço. Você, tanto pediu a Deus essa oportunidade, que Ele, comovido, atendeu e nos reuniu naquele momento final.

E, ao atender esse seu pedido, pai, Ele também me concedeu um grande favor e a lição do que é perdoar. Obrigado, Pai do Céu, por esta oportunidade.

Hoje, pai, rogo ao Pai Eterno, a graça de não deixar esta vida sem pedir e receber o perdão dos meus filhos e de minha esposa. Peço somente que, como você, eu deixe esta vida ouvindo deles o “eu te perdôo e te amo” definitivo e eterno, igual aquele que te dei.

Logo estaremos reunidos, eu, você e o Pai, na morada definitiva, onde não há dores, nem gritos, luto e lágrimas e iremos nos abraçar novamente entre risos e alegria.

Por isso, pedindo a sua bênção, deixo o meu “até breve, meu pai!”.

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