O que buscais?

É tempo de reorientar os caminhos, tempo de fazer um balanço da própria vida. Mas é bom lembrarmos que chega ao fim mais um ano marcado pelo calendário humano, porém o calendário da alma não tem começo nem fim, portanto, não há data marcada para revisão de vida. Busquemos, então, examinar sempre a consciência, para que Deus nos mostre onde fui mais “gente” com o outro, onde poderia ter sido melhor por graça de Deus. É sempre bom lembrar que Cristo veio ao mundo para nos ensinar a ser gente! E, em atitude atenciosa para com o Deus Pai, para com o Amor que sempre se comunica, me firmar com Ele em propósitos de uma vida melhor, pois o mundo começa a melhorar a partir do momento que eu melhoro o meu mundo, colocando em ordem tudo que ainda está bagunçado no “quartinho dos fundos do meu coração”. Comprometendo-me, ouvirei do próprio Cristo a pergunta: O que buscais? Então, falarei a Ele o que preciso e Ele me dará de prontidão.

(Comentário de Gisele Lourenço – S. J. dos Campos)

Jesus, ao começar o Seu ministério, quis responder aos mais profundos desejos humanos. Estando só, nas margens do Rio Jordão, percebeu que dois homens o seguiam. Sentiu, atrás dos seus passos, o caminhar de uns homens, que procuravam alguma coisa. Era a humanidade em busca. Nesses passos ressoava a longa marcha de Israel pelos desertos, querendo chegar à terra prometida. Nesses passos havia um eco de tantos pobres e profetas à espera do Messias.

Pressentia que ali havia matéria para formar apóstolos. Voltou-se para eles e lhes perguntou: “O que buscais?”(Jo 1,38).

Pensemos sobre esta primeira pergunta do Evangelho, que tem valor mais além das circunstâncias em que foi feita. Pode nos ajudar, agora, a orientar nossas próprias caminhadas.

O que buscais? Por trás destas palavras, Jesus desejava saber até onde queriam ir estes homens, e porque abandonavam o que lhes dava segurança em suas vidas. Porque deixavam seu antigo mestre, o Batista.

Jesus, que no Evangelho, ensinou com perguntas, volta-se também para cada um de nós, porque quer saber atrás de que coisas andamos. O que realmente, queremos? No nosso trabalho, na nossa família, quando vamos repousar ou quando discutimos política, o que procuramos? Vale a pena fazer o que estamos fazendo? Nosso caminhar nos leva a algum lugar?

O problema não é só pessoal. Também a sociedade como um todo o enfrenta. O que procura uma sociedade? Quais são nossas metas como povo? Se quisermos desenvolvimento, em que tipo de progresso estamos, de fato, interessados? Quando nos impomos – e, muito mais, quando nos impõem – sacrifícios, o que se pretende? Qual era nosso projeto verdadeiro quando nos decidimos voltar à democracia na América Latina? Queríamos liberdade, a igualdade de oportunidades e direitos, a justiça, a verdade?

As utopias e sonhos determinam uma parte importante de nossos esforços. Uma sociedade sem metas é uma sociedade estagnada. Do mesmo modo uma sociedade que proclama uns objetivos que, na realidade, não deseja, mais cedo ou mais tarde, se sentirá duramente decepcionada.

O ser humano é mestre em esconder-se, em camuflar seus desejos. Um dos primeiros frutos do pecado que Adão provou, foi sua necessidade de esconder-se. E Deus lhe foi ao encontro com uma pergunta dilacerante, que é um chamado à verdade: Adão, onde estais? (Gn 3,9). Chamou-o a ousar sair da moita que o escondia e enfrentar sua própria realidade. As ideologias, as meias verdades, as paixões humanas tornam muito difícil para o indivíduo e a sociedade terem ânimo de dizer, realmente, o que buscam.

Um dos grandes desafios educacionais de nosso tempo é ensinar a sonhar, a buscar, a ter metas, que valham à pena, e dar liberdade para que se possa dar início à caminhada. O que uma pessoa busca define o caminho a ser percorrido e, até, anuncia o que vai encontrar. A busca orienta a marcha. Que nada busca, não só andará errante, mas perde o rumo e não alcançará nenhuma meta.

Com inúmeras variantes, o ser humano tem traçado “o caminho real” de sua vida. Este caminho o fez sair de Deus, seu Criador, e o conduz até se encontrar, um dia, diante do rosto do Senhor, que é Pai e o fim de todos os cuidados. Se a senda escolhida não termina à porta de Deus, o ser humano terá errado a propósito de sua mais profunda vocação. Tudo o que ele tem, tudo o que ele é, tudo o que ele faz deve firmar seu passo para chegar a Deus.

Mas é muito bom ter em conta que, se estamos na busca, é porque, muito antes, nosso Senhor anda nos procurando, como demonstrou já no Gênesis. É ele quem nos procura apaixonadamente, quem nos quer encontrar. Este encontro, contudo, nunca poderá se dar na liberdade se não nos pomos a caminho. Nunca ele desprezará nossa liberdade.

Consola constatar que todos os caminhos humanos, por errados que sejam, se cruzam, alguma vez, com o Caminho da Vida verdadeira, se temos coragem de reorientar nossos passos. Por isto é bom aceitar que ressoe em cada um de nós a pergunta de Jesus: O que buscais? Nunca é tarde para responder.

Fernando Montes, SJ
trad. R. Paiva, SJ

Fonte: www.vilakostkaitaici.org.br

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