O exemplo de nossas Marias

Terceiro setor e voluntariado são termos que vêm sendo utilizados há poucos anos. Porém, o poder transformador de “fazer o bem sem olhar a quem” sempre existiu, em maior ou menor grau, nos quatro cantos do planeta. Mas é importante lembrarmos que, à frente das causas sociais, na maioria das vezes, temos a presença de mulheres. Benfeitoras que agregam, compartilham, expandem, multiplicam, cuidam. Talvez, essa capacidade tenha origem na influência da figura de Maria… Talvez, ainda, venha do dom excepcional de gerar vida e de, por isso mesmo, saber valorizá-la mais do que a maioria dos homens.

Essa força feminina tão necessária ao mundo de violência e intolerância em que vivemos hoje repercute diretamente na melhoria das condições das populações e comunidades que permanecem sob os cuidados das mulheres. De acordo com dados divulgados pelo Banco Mundial, elas detêm 50% do poder em países como a Islândia, Finlândia, Noruega e Dinamarca. Nações com sistema de saúde e educacional muito avançados. Nesses locais, as mulheres organizam cooperativas e cuidam para que as pessoas usem o fluxo do dinheiro de forma muito mais adequada do que ocorre no resto do mundo.

No Brasil, por motivos vários, as mulheres ainda têm pouca representatividade política. Em contrapartida, há milhares de instituições sociais gerenciadas, criadas e organizadas pelas representantes do sexo feminino. Um exemplo é o Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, ligado à Pastoral do Menor. A criação do espaço data de 1946, quando um grupo de senhoras católicas que freqüentava a Paróquia Nossa Senhora do Bom Parto, no Tatuapé – bairro da Zona Leste de São Paulo – decidiu desenvolver ações de formação e capacitação profissional. A idéia era promover geração de renda às mulheres menos favorecidas economicamente.

Na época, o saudoso Dom Luciano Mendes de Almeida, então Bispo Auxiliar da Região Belém, percebeu a força dessa iniciativa e decidiu unir todo esse potencial para que, dentro de uma força centralizada, pudessem conseguir recursos, parcerias e, principalmente, infra-estrutura para atender com qualidade essa população.

O resultado dessa causa abraçada pelas mulheres e ampliada por Dom Luciano transformou-se numa rede hoje composta por 57 unidades. Núcleos que atendem 7.600 crianças, adolescentes, jovens e ainda 450 adultos. No total são 21 creches, centros educacionais e profissionalizantes, abrigos, lares para crianças portadoras de HIV, espaços de convivência para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social e uma unidade para adolescentes e jovens em liberdade assistida.

Como forma de reconhecer o trabalho realizado pelo Centro, a sociedade civil organizada vem concedendo ao local numerosos prêmios, dentre eles, o Bem Eficiente 2000, 2003 e 2006, o Prêmio Betinho 2003 – Menção Honrosa – e o Selo “Organização Parceira 2005”, do Centro de Voluntariado de São Paulo.

Estamos felizes por fazer desse espaço uma oportunidade de levar até os leitores exemplos de luta, de solidariedade e de amor. Ações que, literalmente, salvam a vida de milhares de pessoas. É nosso dever e nosso desejo prosseguir divulgando essas iniciativas como forma de impulsionar um número cada vez maior de pessoas a se mobilizar e a se unir em prol do trabalho social. Juntos, podemos fazer mais e melhor pelo mundo. Um grupo de mulheres na longínqua década de 40 acreditou nisso e, unidas, realizaram um sonho que, 50 anos depois, prossegue fazendo a diferença e dando oportunidade para que muitas pessoas possam ter uma vida digna.

Que esse espírito solidário e empreendedor germine dentro de todos nós e frutifique para as novas gerações.

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