O dever do descanso

O grande Santo Agostinho, visualizando a experiência do Paraíso, disse que na eternidade haverá louvor, oração, amor e descanso (“laudabimus, orabimus, amabimus, vacabimus”). Feitos para glorificar a Deus, no louvor e na oração, desde já nos realizamos como pessoas. E cantar, ensina o mesmo santo, é próprio de quem ama. Quem louva, reza e ama a Deus e ao próximo é feliz. E daí encontra as condições para o adequado descanso. Para os cristãos, o dia do Senhor, chamado Domingo, é dedicado a celebrar o mistério pascal de Cristo, ao descanso, à família e à solidariedade. Neste dia, de modo especial, queremos antecipar as realidades esperadas para a eternidade, dentre elas o descanso. E outras ocasiões, especialmente as justas merecidas férias, são oportunidades preciosas para um adequado repouso, que nos dê condições para rezar melhor, louvar a Deus e querer e fazer o bem, no amor ao próximo. É sabido que pessoas agitadas e cansadas acabam dando guarida em seu interior a sentimentos destinados a transformá-las em presenças agressivas em suas famílias e na sociedade.
        
“A ligação entre o dia do Senhor e o dia do descanso na sociedade civil tem uma importância e um significado que ultrapassam o horizonte propriamente cristão. De fato, a alternância de trabalho e descanso, inscrita na natureza humana, foi querida pelo próprio Deus, como se deduz do texto da criação no livro do Gênesis (cf. 2,2-3; Ex 20,8-11): o repouso é coisa sagrada, constituindo a condição necessária para o homem se subtrair ao ciclo, por vezes excessivamente absorvente, dos afazeres terrenos e retomar consciência de que tudo é obra de Deus. O poder sobre a criação, que Deus concede ao homem, é tão prodigioso que este corre o risco de esquecer-se que Deus é o Criador, de quem tudo depende. Este reconhecimento é ainda mais urgente na nossa época, porque a ciência e a técnica aumentaram incrivelmente o poder que o homem exerce através do seu trabalho. Importa não perder de vista que o trabalho é, ainda no nosso tempo, uma dura escravidão para muitos, seja por causa das condições miseráveis em que é efetuado e dos horários impostos, especialmente nas regiões mais pobres do mundo, seja por subsistirem, mesmo nas sociedades economicamente mais desenvolvidas, demasiados casos de injustiça e exploração do homem pelo homem.

Quando a Igreja, ao longo dos séculos, legislou sobre o descanso dominical, teve em consideração sobretudo o trabalho dos operários, certamente não porque este fosse um trabalho menos digno relativamente às exigências espirituais da prática dominical, mas porque mais carente duma regulamentação que aliviasse o seu peso e permitisse a todos santificarem o dia do Senhor. Nesta linha, Leão XIII, na Encíclica Rerum Novarum apontava o descanso festivo como um direito do trabalhador, que o Estado deve garantir” (João Paulo II, Carta Apostólica Dies Domini n. 65-66).

Muitos de nós falham com os próprios deveres quando não vivem o domingo em suas diversas dimensões e quando não se dedicam ao necessário descanso. Sim, é pecar contra a lei de Deus não descansar! Queremos entrar numa escola de repouso, descanso, férias! Outros não sabem descansar. O descanso, para não se tornar vazio nem fonte de tédio, deve gerar enriquecimento espiritual, maior liberdade, possibilidade de contemplação e comunhão fraterna. Os fiéis hão de escolher, de entre os meios da cultura humana e as diversões que a sociedade proporciona, aqueles que estão mais de acordo com uma vida segundo os preceitos do Evangelho (Cf. Dies Domini 68).

A volta para casa, num final de domingo, assim como o retorno de um período de férias em nossas magníficas praias nunca sejam marcados pelo remorso suscitado pela entrega aos vícios, nem pelos acidentes de trânsito, mas cheios de alegria e disposição. Há uma grande tarefa a ser vivida pelos cristãos e pela Igreja, no meio da sociedade, onde nos cabe defender o primado absoluto de Deus e também a primazia e a dignidade da pessoa humana sobre as exigências da vida social e econômica, antecipando de certo modo os novos céus e a nova terra, onde a liberdade será definitiva e total (Cf. Dies Domini 68), na oração, no louvor, no amor e no descanso.

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