O combate da morte com a Vida

1. A sequência da Liturgia pascal canta: “a morte e a vida travaram um duelo admirável; o Rei da vida, que tinha sido morto, reina vivo”. Um duelo entre a vida e a morte, eis o maior drama da humanidade; é um combate que nenhum homem pode evitar, embora se faça tudo para o retardar. Combate incerto, pois só com as forças humanas, nenhum vencedor está, à partida, garantido. Segundo a nossa fé, a vitória segura da vida só nos é garantida na Páscoa de Jesus e é por isso que ela é a fonte da nossa esperança.

Neste combate a morte é um inimigo ardiloso, pois muda continuamente de fisionomia e de táctica. Começa por debilitar o seu contendor, enfraquecendo-o pelo medo e fazendo-o perder de vista as verdadeiras forças da vida, levando-o, por vezes, a chamar vida àquilo que já são características da morte. Cristo, o primeiro grande vencedor desse combate, usou como arma nesse combate o nunca perder de vista a verdade da vida, a plenitude da vida, não cedendo as suas armas ao inimigo. Ao fazer-nos participar da Sua Ressurreição, fortalece-nos com essa armadura, fazendo-nos experimentar a verdadeira vida, permitindo-nos não cair em ambiguidades ou confusões nesse combate de vida ou de morte. É a primeira condição para se sair vitorioso desse duelo, nunca perder de vista o que é a vida, a plenitude da vida. Sempre que cedemos na nossa compreensão da exigência e da beleza da verdadeira vida, fornecemos armas ao inimigo.

2. Sem esta graça pascal, em que o Espírito Santo, Espírito de Vida, infunde nos nossos corações a experiência da vida em plenitude, este combate entre a vida e a morte torna-se dramático e tantas vezes se cela com a vitória da morte. E o grande derrotado é sempre o homem, na sua ânsia de plenitude e de felicidade.

A primeira expressão desta derrota é o pecado. Este tem sempre, na sua raiz, a perda do sentido da verdadeira vida, porque o homem procura espontaneamente a vida. Mas se adultera o sentido da verdadeira vida, se chama vida àquilo que não o é, procurando a vida, encontra a morte. Somos libertos desta confusão pelo Espírito de Jesus, como escreve Paulo aos Romanos: “Agora não há condenação para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do espírito que dá a vida em Cristo Jesus te libertou da lei do pecado e da morte” (Rom. 8,1-2).

Verdadeiramente Cristo ressuscitou para nossa libertação. Ao perder de vista o sentido do mistério da vida, o homem fica enfraquecido neste combate. E são tantas as circunstâncias, na nossa sociedade contemporânea, em que o homem sai derrotado ou desiste mesmo do combate. É que a luta pela vida é exigente, supõe uma visão clara da sua dignidade intocável, o que se transforma em exigência ética e a coragem de renunciar a caminhos, que tantas vezes aparecem como busca de solução para problemas reais, que passem pela violação da vida. A vida humana é um valor absoluto, que tem a sua origem em Deus, o qual, apesar de no-la dar, não abdica de ser o Seu Senhor. Quando, para procurar solução para dramas reais da existência, se segue o caminho de menosprezar a vida, é sair derrotado deste combate entre a morte e a vida. A agressão violenta contra a vida humana tem de ser um caminho fechado para a busca de soluções para os dramas humanos. É assim com o suicídio, com a eutanásia, com o aborto, com o homicídio, com a guerra como busca de solução para os conflitos.

Todos sabemos que este combate não é fácil e é por isso que a Páscoa de Jesus Cristo se torna decisiva para a humanidade. O Espírito de Jesus ressuscitado não anula a luta, vem fortalecer-nos para a luta, dando-nos possibilidades de vitória. Mas sempre que a morte leva a melhor, aumenta o drama da humanidade. Estão aí a confirmá-lo, mesmo no nosso tempo, os milhões de vítimas inocentes, injustamente sacrificadas no altar do triunfo da violência e da morte.

3. Jesus Cristo foi o primeiro que saiu completamente vitorioso deste combate. A Sua morte foi a expressão máxima do desvio da consciência da humanidade; a Sua ressurreição foi a afirmação derradeira de que Deus é o Senhor da Vida. Ele o Filho, que não conheceu pecado, isto é, que nunca perdeu de vista a verdadeira Vida que Ele experimentava em Deus, sofre a morte como pecado dos outros, afirma a vitória da vida como experiência pessoal que Ele recebe de Deus. Esse é o anúncio do Apóstolo Pedro, porque é a grande novidade de uma humanidade renascida: “Deus ressuscitou-O ao terceiro dia… e constituiu-O Juiz dos vivos e dos mortos”. A vida de Cristo ressuscitado passa a ser o critério de discernimento e de juízo de todos os combates entre a vida e a morte.

Participar na ressurreição de Cristo é adoptar um padrão de vida com o horizonte de Deus, que não se esgota nem se identifica com aquilo que conhecemos da vida neste mundo, mas nos projecta para a vida em Deus. Escutámos agora isso na Carta aos Colossenses: “Uma vez que ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde Cristo se encontra, sentado à direita de Deus”. E o Apóstolo acrescenta: “Cristo é a nossa vida”.

Meus irmãos e irmãs, este é o anúncio pascal. Quanto mais procurarmos o sentido da vida em Cristo ressuscitado, mais fortalecidos ficaremos para o nosso combate pessoal entre a vida e a morte, que temos que continuar a travar, na esperança de uma vitória final, que será a nossa própria ressurreição dos mortos. Então a nossa vida triunfará, com Cristo, na Glória.

† Dom José Policarpo,
Cardeal-Patriarca de Lisboa – Portugal
Domingo de Páscoa, 31 de março de 2002

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