O CIRCO CONTINUA...MORTEEM CAMPO.

26 de junho de 2003. Na cidade francesa de Lyon tudo é festa. O estádio está cheio para assistir a um jogo da copa das Confederações. Os adversários Colômbia e Camarões. Os gritos da arquibancada acompanham os lances. Aos 27 minutos do segundo tempo o jogador do time de Camarões cai por terra. O árbitro apita. É levado fora do campo, morto…Mas o jogo continua. Uma inútil homenagem: a próxima Copa das Confederações terá o seu nome “Marc Vivien Foe”. A notícia chocou o mundo. Foi uma morte ao vivo em direta, não no campo de batalha como tantas viram na guerra do Iraque e Estados Unidos, mas num campo de futebol. Diante deste quadro me veio em mente as grandes lutas dos gladiadores romanos. O circo se enche de espectadores para ver um triste espetáculo. Uma luta sangrenta até à morte entre dois homens, aquele que era morto era tirado de lado à margem do campo e pronto. Entrava outro e o circo continuava. Não podia parar.

Nada pode parar o instinto humano, é necessário alimentá-lo e bem para que fique por poucos momentos calmo e tranqüilo até a próxima fome ainda mais violenta. Estas cenas nos dão o sentido claro como a vida é algo de descartável que não tem valor à não ser por aquilo que ela produz, pela sociedade do consumismo em que vivemos. Podemos não concordar e encontrar milhões de razões para aprovar a nossa atitude…O público que já tinha rasgado o seu ingresso, não se sabia que o jogador estava morto… Hoje as notícias correm velozes. Como realizar depois de novo o jogo?…Seria prejudicar o time que estava vencendo… Há desculpas quantas quisermos inventar e todas nos parecem válidas. Mas a verdadeira validade é só econômica e que a vida não vale mais nada. Morrer ou viver é a mesmíssima coisa. Depois em homenagem póstuma se fazem antes de iniciar os vários jogos “um minuto de silêncio” e tudo está resolvido. É o mito da catarse e da purificação, antes se mata e depois, com lágrimas de crocodilo, se chora a morte do amigo e companheiro. Estas cenas que percorreram o mundo, vistas em todos as ângulos, serão esquecidas rapidamente e o circo continua…

É assim a vida. Lança-se a bomba sobre cidades indefesas, morrem milhares de cidadãos que não têm nada a ver com a guerra e que não sabem nem porque se faz a guerra, mas a guerra impiedosa deve continuar até realizar o maior genocídio sem matar a peça central…Pedem-se desculpas ao mundo e… O circo continua. A corrupção anda solta por aí, continuam os corruptos a se engordar com o dinheiro do povo. Gritamos por todos os lados, nos tornamos o país CPI que são tantas que nem os que criam podem acompanhar quantas são, se faz de conta que colocar alguém na cadeia para libertá-lo imediatamente sem que ninguém o saiba, e o circo continua… São tantas as coisas que nos pegam de surpresa neste mundo que perdeu e perde constantemente os valores éticos e tentam anestesiar a própria consciência com comoventes manifestações de pensamentos pelos mortos…Mas o circo deve continuar.
Faz já vários meses de novo governo, se fala de fome zero e todos sabemos que o projeto ainda nem saiu do papel a não ser tímidas tentativas, e parece que não ligam a quem se aproveita do dinheirinho que deveria ir ao bolso dos pobres para aliviar a terrível mordida da fome…Mas o circo da política deve continuar. Para fazer alguma coisa é necessário ceder em tantos pontos, não somente este circo continua na política, no futebol, na economia, mas também na mesma Igreja. Temos medo de assumir as nossas responsabilidades. Fazemos milhares de estatísticas sobre o avanço das seitas, pensamos em tantas estratégias, projetos e novos métodos de evangelização e depois, quando devemos começar, por tantos motivos, deixamos de iniciar…O circo continua.

É preciso que o Senhor nos envie profetas corajosos para romper esta continuidade de circo que nos impede de viver e de ser nós mesmos. É o momento de levantar a voz para gritar com todos os pulmões que não podemos mais permanecer espectadores de um mundo sem alma e sem coração, os profetas sabem levantar o povo e caminhar silenciosamente para as praças dos poderes, nada de mais ameaçador do que o silêncio que diz tudo sem proferir palavras e sem agredir a ninguém. É o silêncio de Jesus no alto do Calvário, somente ele e os mártires tiveram a coragem de romper “os círculos do circo” da morte, através da vida espalhada em plenitude.
Somente quando assumimos os valores da vida somos capazes de anunciar algo que vai nascer como novo sol no horizonte. Se todos os participantes do jogo Colômbia x Camarões se tivessem levantado e abandonado o estádio aí o circo do jogo teria terminado. Se os militares voltassem a ter a consciência crítica e não tomassem as armas e se recusassem a usá-las, o circo da guerra terminaria. Se os corruptos estivessem na cadeia sem dor e sem pena o circo da corrupção terminaria uma vez para sempre. Se as situações de pecado na mesma comunidade e Igreja fossem rompidas o circo também do mal terminaria e começaria a nascer o novo dia da ressurreição que não tem fim.

Não há como se sentir bem diante dos contravalores que são apresentados como ídolos. Necessitamos todos nós reassumir o caminho do Calvário na esperança da ressurreição, precisamos de profetas que nos animem a uma “desobediência” pacífica, mas que coloca as estruturas desumanas em crise e lhes impedem de levar a frente os seus planos pecaminosos. Quando não se respeita mais a dor e quando a morte é um mero acidente de percurso e nada mais não há muito que esperar. Por enquanto parece que morte e vida se agridem reciprocamente e não podem estar juntas. Festa e dor são contrários não podem conviver. Jogo e enterro não combinam. Mas num mundo onde tudo está invertido não é improvável que daqui a pouco dor e alegria sejam a mesma coisa. Não descarto a possibilidade que eu esteja errado. Mas não quero que este circo continue.

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