O Chamado

Um fato singular lhe mostrou qual a comunidade deveria escolher. Catarina sonhou que estava rezando na capela de Fain-les-Moutiers, quando um padre velho e de aspecto venerável entrou, paramentado para celebrar a Santa Missa. Terminado o divino Sacrifício, o padre lhe fez sinal de que queria falar; porém ela intimidada recuou, embora sem poder tirar os olhos do semblante do augusto velhinho. Saiu depois da igreja e foi visitar uma pessoa doente. Lá achou de novo o padre misterioso que lhe disse cheio de doçura: “Minha filha é muito bom cuidar dos doentes; agora tu foges de mim, mas um dia tu me procurarás e serás feliz em achar-me. O bom Deus tem desígnios sobre ti”.

Impressionada com esse sonho, falou do que se tinha passado a Vigário de Chatillon, que lhe respondeu: “Creio, minha filha, que esse ancião é São Vicente de Paulo, que te chama para ser Irmã de Caridade”.

Mais tarde ao entrar no locutório das Irmãs de Chatillon, Catarina ficou pasma ao encontrar lá um retrato perfeitamente parecido com o padre que tinha visto em sonho. Perguntou então quem era aquele sacerdote, e quando lhe disseram que era Vicente de Paulo, o mistério esclareceu-se e ela compreendeu que era ele quem devia ser seu pai.
Quando Catarina contou ao pai o seu desígnio, o coração do pobre homem revoltou-se. “De modo nenhum! Já dei a Deus a minha filha mais velha, foi um grande sacrifício. Consenti nesse primeiro sacrifício, mas não consentirei em um segundo, é demais”.

Seu pai, para tirar da cabeça da filha a idéia de ser religiosa, mandou Catarina passar um tempo com o seu irmão. Ele morava em Paris e era dono de uma pensão.
Catarina obedeceu, mas aquele tempo foi para ela de grande provação, tédio e sofrimentos, por sentir-se na grande capital, fora do seu ambiente familiar e inocente. O irmão nada poupou para persuadí-la da sem razão de sua escolha, repetindo o eterno estribilho que a salvação eterna se alcança tão facilmente no mundo como no convento, contradizendo assim às palavras de Jesus Cristo: “Se quiseres ser perfeito, segue-me”.

Catarina recorreu à oração, ao Céu, pedindo luz e força. Veio-lhe então a idéia de recorrer aos conselhos da irmã mais velha que por então era Superiora das Irmãs de Caridade, numa casa do sul da França.

Esta a felicita pelo seu ardente desejo de consagrar-se a Deus e anima-a a perseverar até vencer todos os obstáculos. Essa carta é uma bela descrição de tudo o que constitui a vida religiosa, o espírito de uma Irmã de Caridade.

Reconfortada por essas palavras cheias de ideal, repassadas de amor de Deus e dos pobres, Catarina suportou corajosamente a provação que durou dois anos. Afinal, o pai, que era homem temente a Deus, diante dos sinais manifestados do chamado divino, consentiu em fazer o sacrifício de sua filha mais querida.

A 21 de abril de 1830, entrou no noviciado das Filhas de Caridade em Paris.

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