O Cardeal Convertido

Em meados da década de oitenta foi publicado um livro de entrevista ao Cardeal Ratzinger. As críticas feitas ao Cardeal, em razão dessa entrevista, são de domínio comum. De um lado, criticaram-no por ser muito pessimista, de outro, por ser autoritário e “centralista”.

Li, numa versão italiana, um segundo livro de entrevista ao mesmo Cardeal Ratzinger, publicado em 1997, sob o título “Il Sale della Terra”, o sal da terra. São 320 páginas. Entre os comentários feitos, tenho lido na revista italiana, “Il Regno”, um elogio surpreendente do Cardeal König, considerado “progressista”. Elogiava amplamente as colocações de Ratzinger.

O entrevistador, o jornalista Peter Seewald, “tendo abandonado a Igreja há muito tempo”, revela-se, entretanto, muito inteligente e competente nas questões que, com rara franqueza, formula ao Cardeal Ratzinger. São três grandes blocos de questões, um primeiro sobre a história pessoal do Cardeal, um segundo, sobre os problemas da Igreja Católica e, finalmente, um terceiro, sobre a Igreja na soleira do novo milênio. Dou nesta página uns flashes da entrevista.

No primeiro bloco, conta-nos o Cardeal que pertenceu a uma família simples e de fé profunda. Viveu na adolescência momentos dramáticos da guerra. Estudou no pós-guerra, onde reinava uma efervescência de idéias filosóficas em torno de Heidegger e de idéias teológicas em torno do teólogo jesuíta Karl Rhaner. Formado, jovem padre, Ratzinger tornou-se professor brilhante, capaz de entusiasmar a juventude, tanto pelo método empregado, quanto pela visão aberta aos problemas da Igreja e do mundo. Em 1977 foi nomeado Arcebispo de Munique, designado por Paulo VI como “insigne mestre de teologia”. Em seguida foi feito Cardeal. Em 1981, João Paulo II o nomeou Prefeito da Congregação pela Doutrina da Fé, cargo que ocupa até o presente.

A partir desse momento, observa o jornalista, mudou a fama do Cardeal. Da fama de “o conservador com maior capacidade de diálogo”, segundo um jornal alemão “Süddeutsche Zeitung”, passou a ter fama de conservador autoritário e centralista. Ratzinger explica: na Congregação pela Doutrina da Fé, trabalha-se em equipe. A equipe é composta de 40 colaboradores. Com eles se decidem todas as questões referentes à Igreja. Ademais, uma vez por semana, o Cardeal Prefeito entretém uma audiência com o Papa, onde juntos conferem as decisões a serem tomadas. De sorte que nem sempre prevalece a opinião do Prefeito, de vez que ele se apoiaria na opinião dos 40 e, especialmente, na do Papa.

Nesse pano de fundo, num segundo bloco, o jornalista entrevistador, desfia inúmeras perguntas sobre a atitude das autoridades eclesiásticas diante de quantidades de problemas que agridem a Igreja. São abordadas questões gerais, como sejam, a identidade do catolicismo, hoje, e questões particulares sobre ecumenismo, diálogo inter-religioso, bioética, relação da Igreja com a política, etc.

Em um terceiro bloco aparecem perguntas e respostas referentes ao futuro da Igreja no próximo milênio. Será lícito, por exemplo, crermos que estamos verdadeiramente entrando “No limiar da Esperança”, como reza o título de um livro de entrevista com o Papa? Ou, não se encontram, acaso, a Europa e, dentro da Europa, a Alemanha, com poucas chances de ver luz de vida cristã no fim do túnel? O Cardeal Ratzinger parece confirmar essa perplexidade, tanto da Europa, como, sobretudo da Alemanha, referente à vitalidade do cristianismo nessa parte do mundo.

Lendo essas passagens sobre a crise de cristianismo na Europa, lembrei-me da afirmação tantas vezes repetida entre nós, que não adianta evangelizar enquanto o povo se encontra em estado de miséria. Perguntei-me, entretanto: iremos deixar a evangelização para quando estivermos, por exemplo, nas condições econômicas da Alemanha? E quando alcançarmos uma suficiência econômica como lá, teremos melhores condições de evangelizar? Não parece que a elevação do nível econômico daquelas regiões tenha contribuído para o êxito da evangelização. Muito pelo contrário.

Registro, finalmente, uma breve apreciação desse livro de entrevista a Ratzinger. Primeiro, é um livro altamente sugestivo, com respostas de alguém que manifesta um vastíssimo cabedal de conhecimentos teológicos e conhecimentos gerais. Aprende-se muito com ele. Ao terminar de lê-lo, fiquei, entretanto, com o desejo de que desenvolvesse e acentuasse bem mais um aspecto do cristianismo que aparece menos saliente. O jornalista recorda que o Cardeal König reclama a busca de uma linguagem para a doutrina cristã que se adapte melhor à consciência do homem moderno. Ratzinger concorda, mas acrescenta que a doutrina somente se fará compreensível ao homem moderno se o cristianismo se tornar “vissuto”, isto é, vivenciado, que envolva todo o indivíduo. Só então encontraremos também a linguagem adequada.

Digo que esse aspecto deveria ser salientado mais, pois, o lema do Cardeal, como bispo, soa assim: “Colaboradores da verdade”. O jornalista diz que “a verdade é o conceito central de Seu pensamento”. Nessa tônica maior, entretanto, a acentuação do “vivenciado” fica menos forte do que eu desejaria.

Com efeito, se observarmos bem, a pessoa do Papa, em suas viagens, em sua presença em Roma e, em seus escritos, apesar de falar com freqüência da verdade, faz, entretanto, irradiar de si para o mundo um cristianismo “vissuto”, uma “vida no Espírito”, uma experiência transparente da presença calorosa de Cristo em sua pessoa.

Não posso pôr dúvidas sobre o Cardeal Ratzinger, de não ser um testemunho de um cristianismo “vissuto”. Longe de mim essa presunção. Mas, me pergunto, como ressoa no homem moderno, impregnado de racionalismo, a pregação sobre a idéia de “Verdade”? O homem moderno, e o homem de sempre, precisa sentir um cristianismo vivo, que lhe cause um impacto em todo seu ser. Tenho afirmado que, no contexto do Evangelho de João 14,6, quando Jesus diz “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, deveríamos entender: O caminho, a verdade e a vida, sou Eu!!!

Percebe-se a diferença de acentuação? No primeiro caso, aponta-se para a verdade que estaria longe e fora de nós, Deus sabe onde. No segundo caso se apontaria para o concreto da Pessoa de Jesus Cristo. Então, a linguagem terá outra tonalidade e adquirirá outro sabor. As idéias, segundo aquele que é preconceituosamente acusado de racionalista, Tomás de Aquino, são meras “imagens intencionais” do real concreto, apenas como meios de abordagem do real concreto e não têm um valor em si como afirma a filosofia moderna. Concluindo, o livro de entrevista ao Cardeal Ratzinger, merece ser lido, a fim de balançarmos melhor nossos juízos sobre o mesmo Cardeal e sobre a atividade por ele exercida como Prefeito da Congregação pela Doutrina da Fé.

Pe. Achylle Alexio Rubin

Pe. Achylle A. Rubin é autor de quatro livros. Um primeiro, de 128 páginas, sobre a identidade e a prática de Jesus, como também sobre nossa ação evangelizadora, com o título de “A novidade da Novidade”. O segundo, de 376 páginas, trata de uma espécie de introdução à filosofia sob o título de “Minha pequena filósofa, minha pequena filosofia”. O terceiro, de 188 páginas, com o título “Subsídios para a arché da teologia” trata da relação da filosofia com a teologia. O quarto, finalmente, livro de bolso de 168 páginas, com o título “Também você é filósofo” versa sobre os rudimentos do conhecimento filosófico, destinado aos menos versados nessa matéria. Podem ser adquiridos esses livros pelo endereço do próprio autor: Caixa Posta 789, CEP: 85806-970 – Cascavel, PR; Tels. (xx 45) 3242377 ou (xx 45) 3241633; E-mail: achylle@terra.com.br

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