Morreu a minha princesinha

Tinha aprendido que as princesas não morrem, mas voam silenciosamente para o Céu. Depois, crescendo, me convenci que também as princesinhas morrem como todas as pessoas. Mas lendo São João da Cruz, que pouco tem a que ver com princesa, mas que tudo tem a ver com o místico, na “chama de amor viva” diz que os místicos, os santos não morrem, eles se arrebentam por dentro de amor e podem dizer para Deus: “rompe a tela para este doce encontro”. O coração que deseja a Deus se desfaz lentamente e por ele anela como cervo pelas fontes de águas correntes.

A morte é simplesmente impiedosa, ela não respeita ninguém, nem juventude, nem afeto de irmãos e de pais, e nem às vezes escuta as orações de milhares de pessoas que pedem que ela venha, mas não agora, mais tarde. É o mistério que nos envolve. O mesmo Deus quer que nós saibamos suplicá-lo incessantemente, mas nunca garante que a nossa intercessão será atendida do jeito que nós queremos e como nós queremos. Ele mesmo vai dizendo a cada um de nós que “os seus projetos não são os nossos.”

No dia 4 de novembro, bem de madrugada, às 3h30m da manhã a morte veio buscar a Irmã Joseli, de 32 anos, das Irmãs Apóstolas do Sagrado Coração. Deus me deu a graça de conhecer esta consagrada, sorriso e delicadeza, quando a doença começou a aparecer. Ela era noviça e desejava só uma coisa: fazer a profissão, ser apóstola. O desejo dela foi atendido pela bondade da Madre Geral, da Madre Provincial. Professou que agora era feliz, sentia o Céu dentro dela e sabia que o Senhor estava no seu coração. Queria ser apóstola, imolar-se pela salvação dos pecadores e dentro dela tinha um grande desejo de viver, de ser apóstola, de fazer o bem. Houve orações e muitas, mas a doença fez o seu curso normal… Ela não escutou a ninguém.

Em qualquer momento, mesmo quando o sol da esperança parecia desaparecer e ir longe, Irmã Joseli sempre tinha uma palavra cheia de esperança; sempre animava os outros e, quando a dor se fazia grande demais, como “cordeiro imolado”, se fazia silencio contemplativo e orante. Um dia a minha princesinha me diz: “quando a dor se faz maior do que eu e não consigo suportar, o que devo fazer para agradar a Deus? Foi aí que me lembrei, quase por encanto, das palavras da Virgem Maria e lhe sugeri que naqueles momentos só dissesse “faça-se!” e nada mais. O repetir destas palavras seria muito agradável a Deus, porque o mesmo Jesus nos seu “eis-me aqui” e na Cruz, só sabia dizer para o Pai: “em tuas mãos entrego a minha alma. Tudo está consumado!”

Irmã Joseli deu provas, ao longo dos muitos meses de dor num vai e vem, que sua alma estava preparada para Deus. Deus prepara e purifica os que ama. A sua morte foi serena, tranqüila. Os funerais da Irmã Joseli tinham mais sabor de festa e de paraíso do que de choro. Deus nos envia tantas pessoas boas para que nos ensinem como devemos viver e como devemos amar a Deus não só na alegria, mas também na dor de cada dia. Ao redor dela, é o testemunho dos médicos, das enfermeiras, sempre havia gente. O médico cirurgião que a operou dizia que “também eu, se fosse Deus, gostaria de ter perto de mim a Irmã Joseli.”

Somos impotentes diante da morte, ela nos faz pequenos, mas a grandeza dos que sofrem por amor se fazem para todos escola de vida. Não há dúvidas de que a Irmã Joseli pode e deve ser apresentada para as jovens, como modelo de alma transparente, apaixonada por Deus e cheia de amor e zelo apostólico. Vinha da roça, de ambiente simples e família profundamente cristã, onde estava trabalhando no cultivo da uva com seus pais e seus irmãos. Uma vez ela escreveu: “tenho medo de tanta violência que vejo, eu quero ser de Jesus.” A sua vida interior era louvor, ação de graças. Tinha os olhos transparentes, onde o Céu e o rosto de Deus se espelhavam como num lago azul.

Eu a encontrei pela graça de Deus, caminhei com ela. Eu soube dizer-lhe palavras boas e ela me deu testemunho de como na vida se deve aceitar a vontade de Deus. A ela sou agradecido. Recordo quando pela primeira vez entrei no seu quatro, aí que a chamei de princesinha e ela me respondeu “o meu frei”. Sempre nos chamamos assim e, sempre pedimos a Jesus que nos desse o dom da santidade.

Ela foi. Eu ainda não sei por quanto tempo vou continuar andando por estas estradas, mas uma coisa é certa, ela de lá está rezando para todos e ela me ensina agora a dizer, embora com dificuldade, quando o sol se esconder: “faça-se!” Deus é amor, mesmo quando o seu amor se faz dor. Diante da morte nada nos resta a dizer a Deus, diante da morte a nos prender não podemos fazer nenhuma pergunta a não ser dizer: “eis-me aqui!” No coração de Deus seremos para sempre luz, vida, chama de amor. Aqui na terra devemos alimentar a lâmpada acesa com o azeite da fé para que, quando ele vier, nos encontre preparados, com a lâmpada acesa.

Irmã Joseli estava com a lâmpada acesa e partiu como sempre tinha vivido, sorrindo para nós e sorrindo para Deus.

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