Meu consolo

Com a morte de João Paulo II, a eleição e posse de Bento XVI à frente da Igreja, nós, católicos, especialmente, mas o mundo em geral viveu momentos únicos e muito intensos de emoção: dor, saudade, alegria e até mesmo sentimentos que não se consegue explicar, exprimir em palavras.
Foi tudo muito intenso e rico.

O que vivemos nesses tempos, tudo que colhemos de imagens, discursos, depoimentos, fatos, homilias, cerimoniais, ritos, etc, vamos absorvendo e usufruindo, pouco a pouco em nossa vida.

Nesse processo, tenho vivido uma experiência profunda com a frase de Bento XVI no início de seu pontificado, quando o mundo todo o via pela primeira vez como Papa, na Praça São Pedro, no Vaticano, diante de câmeras de televisão do mundo inteiro:

“O meu consolo é que o Senhor sabe trabalhar com instrumentos insuficientes”.

O Papa, um dos homens mais importantes do mundo e da Igreja, afirma que o consolo dele é que o Senhor sabe trabalhar com instrumentos insuficientes.
Percebi que só posso engrossar a fileira de Bento XVI e reconhecer também que sou um instrumento insuficiente. Sou. Não preciso ter medo de reconhecer esta realidade, confrontar-me com ela.

De tudo que me é apresentado para ser e fazer, olho e constato como sou pequeno, não preparado o suficiente, imperfeito, falho, mas é comigo, com gente assim que Deus sabe trabalhar sempre.

Comprovamos isso na história de salvação do povo de Deus.
Aos olhos humanos, Deus poderia ter escolhido uma mulher “da sociedade” para ser a Mãe de seu Filho, mas escolheu Maria, a simples e humilde Maria, prometida em casamento a um carpinteiro, chamado José. E no “sim” dessa simples Mulher, a história da humanidade foi dividida num antes e num depois.

Assim também, Jesus poderia ter escolhido os fariseus, doutores da Lei, instruídos, “puros” para serem seus apóstolos e iniciadores de sua Igreja, mas escolheu pescadores, cobradores de impostos, pecadores públicos…

Ele também poderia ter escolhido uma pessoa teologicamente bem instruída, versada nos assuntos de Igreja, para permitir que sua Mãe aparecesse e confirmasse o Dogma da Imaculada Conceição, mas escolheu a pobre camponesa Bernadete, em uma gruta, para fazer esta revelação, em Lourdes, na França.
Moisés, que foi à frente do povo de Deus, no Antigo Testamente era gago; Davi, que era o menor entre seus irmãos, foi escolhido para ser rei de Israel…

Enfim, por inúmeros exemplos constatamos ainda mais essa pedagogia do Senhor. Já temos revelações suficientes para crer que, de fato, “o que é fraco no mundo, Deus o escolheu para confundir os fortes” (1 Coríntios 1,27b).

Que o Espírito Santo possa realmente abrir nossos olhos e coração para esta realidade, para este consolo nos envolver e mudar nossa vida, mudar as respostas que muitas vezes não damos por medo, diante de nossa incapacidade e fraqueza.

Não que o Senhor não possa escolher e escolha pessoas “capacitadas” para sua obra; pessoas com ampla formação acadêmica, poder aquisitivo e de grandes influências. Mas, mesmo estas pessoas, com força nesses aspectos, em alguma circunstância de sua vida, em um recôndito de sua alma, possuem uma “fraqueza”, algo que mostra a elas mesmas que é Deus quem as está levando em frente.

Vamos juntos, sem medo de nossa pobre condição permanecer firmes na vontade do Senhor. Ele é perito em trabalhar com instrumentos insuficientes como eu e você.
Ele trabalha sempre assim. Eis o nosso consolo.

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