Mensageiros do Ressuscitado

Suspira minha alma pelo Senhor, meu escudo e meu socorro (SI 33,20)
Na semana da Páscoa, recolhe a Liturgia da Palavra os principais testemunhos da Ressurreição e os oferece à meditação dos fiéis para que lhes robusteça a fé. Retoma hoje a Liturgia a narração da Madalena, ‘Maria de Magdala, da qual expulsara (Jesus) sete demônios’ (Mc16,9), e que se destaca no grupo das piedosas mulheres pelo amor ardente e a solicitude em procurar o Senhor.

Depois de ter sido a primeira a correr para avisar a Pedro do sepulcro vazio, volta e, enquanto os discípulos, verificado o fato, regressam à casa, continua ‘junto ao sepulcro, fora, chorando’ (Jo20,11). Não sossega, quer encontrar a todo custo o Corpo bendito. Está de tal modo tomada pela dor e com o pensamento em Cristo, que à visão dos anjos não se admira nem se assusta. A pergunta deles, diz o motivo de suas lágrimas: ‘Tiraram o meu Senhor, e não sei onde o puseram’ (ibidem, 13). E quando Jesus fala, não o reconhece, mas tomando-o pelo jardineiro, diz-lhe: ‘Senhor, se o tiraste, dize-me onde o colocaste e irei buscá-lo’ (ibidem, 15). Não pensa Maria na ressurreição! Tão comovida está que nem os linhos colocados com tanto cuidado no túmulo vazio a fazem refletir. E não reflete também que lhe seria impossível a ela, mulher fraca, transportar o Corpo.

A intensidade da dor impede-a de raciocinar. Procura Jesus morto; tem-no vivo diante de si e não o reconhece. Mas ei-lo que a chama pelo nome: ‘Maria!’. Basta aquela voz para fazê-la compreender tudo: ‘Mestre!’ (ibidem, 16). O grito de seu amor e de sua fé. Quereria ficar aos pés do Senhor finalmente encontrado, mas recebe, também ela, a missão: ‘Vai dizer aos meus irmãos’ (ibidem, 17).

A boa nova da ressurreição não é só para ela, mas deve propagar-se quanto antes para alcançar todos os homens, todos ‘irmãos’ do Ressuscitado. Como a Madalena, deve todo cristão ser mensageiro da Ressurreição, não tanto por palavras, mas trazendo em si seus sinais. A fidelidade, o amor, a solicitude de Maria de Magdala e sua prontIdão em Ir aos ‘irmãos’ podem sugerir alguma coisa.

O primeiro discurso de Pedro ao povo, culminando no testemunho da ressurreição do Senhor e da sua glorificação – ‘Deus constituiu Senhor e Messias esse Jesus que vós crucificastes!’ (At 2,36) -, conclui-se com um convite premente: ‘Convertei-vos … e batize-se cada um de vós no nome de Jesus Cristo, em remissão dos vossos pecados’ (ibidem, 38) .Conversão e batismo imergem o homem no mistério pascal de Cristo, envolvem-no na sua morte e ressurreição. A Páscoa quer renascidos, ressurgidos! O batismo não só inicia este renascimento e ressurreição, mas nos oferece também a graça para sua realização progressiva e completa.

O cristão jamais acaba de converter-se, de renascer, de ressurgir: a condição de sua vida terrena deve ser a preocupação de um contínuo regenerar-se em Cristo, configurando-se sempre mais à morte e ressurreição dele. O cristão nunca está realizado completamente: ‘Também nós – diz o Apóstolo – que possuímos as primícias do Espírito, nós também, interiormente, gememos à espera da redenção’ (Rm 8, 23). A redenção plena e definitiva só se realizará na vida eterna, só então o homem será assimilado, de modo estável, ao mistério pascal de Cristo, estará morto ‘uma vez para sempre ao pecado’ e ‘eternamente vivo para Deus, em Cristo Jesus’ (Rm 6, 10-11).

Entretanto, enquanto vive peregrino na terra, deve o cristão trazer em si os sinais da morte e da ressurreição do Senhor. Os sinais da morte com a rejeição do pecado, o domínio das paixões, a renúncia e a mortificação generosa que o configura ao Crucificado; os sinais da ressurreição com uma vida resplandecente de pureza e de amor. Precisa cada cristão dar lugar ao Senhor, para que possa ressuscitar e reviver nele, para que nele continue a passar entre os homens fazendo o bem, consolando os aflitos, sustentando os fracos, iluminando os cegos, socorrendo os pobres, ajudando os humildes, dando a todos amor e verdade. Eis a que visava o Apóstolo, ao dizer: ‘Por toda a parte levamos sempre no corpo os sofrimentos de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nosso corpo’ (2Cor 4, 10).

Eduardo Rocha Quintella
Fraternidade S. J. da Cruz – O.C.D.S
Belo Horizonte – MG

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