Indignação !

Construir a paz é tarefa urgente e fundamental para a convivência humana feliz, seja aqui, seja em qualquer parte do mundo. Paz social, na cidade e no campo, paz entre os povos, paz na família, no trabalho e em todas as nossas relações interpessoais. “Felizes os que promovem a paz”, disse Jesus (Mt 5, 9). A paz, porém, é fruto da justiça. A existência de tanta pobreza, miséria, fome e exclusão mostra bem o quanto estamos longe de relações justas na convivência humana. Mostra como são precários os fundamentos para construir uma paz duradoura.

Por sinal, mais uma vez somos confrontados com esta verdade, quando nos colhe duramente a notícia do assassinato, sábado passado, da missionária americana católica, uma freira, Dorothy Stang, de 73 anos, no Pará, no município de Anapu. Todos os indícios apontam para uma morte encomendada, porque a missionária atuava em favor dos sem-terra da região. Muitos outros assassinatos semelhantes já ocorreram no campo nas últimas décadas. Isso, porém, não pode diminuir nossa indignação e enfraquecer nosso clamor para que esta morte seja investigada até o fim e os culpados, executores e eventuais mandantes sejam devidamente punidos, segundo a lei. Estamos todos chocados. Esta morte manifesta novamente e de forma desafiante quanto é urgente e fundamental para a paz no campo a reforma agrária. Ela poderia, juntamente com a construção da justiça social, trazer as condições para que sejam superadas as tensões e o risco de violência nas questões de terra.

A irmã Dorothy foi assassinada com vários tiros em meio a propriedades rurais, num ponto isolado, a cerca de 40 km do centro de Anapu. Viajava por uma estrada de terra, acompanhada por dois trabalhadores rurais. A região há vários anos é foco de conflito que envolve fazendeiros e grileiros, de um lado, e trabalhadores rurais, do outro, conforme afirmou o comandante da Polícia Militar da região.

Na semana anterior ao assassinato, a missionária teve audiência com o ministro Nilmário Miranda, dos Direitos Humanos, em que teria relatado a gravidade da violência na região e identificado pessoas que estavam sendo ameaçadas de morte, devido aos conflitos de terra. Ela vinha realizando um grande trabalho, de repercussão internacional, de apoio aos trabalhadores rurais e de defesa da floresta amazônica, em favor de um desenvolvimento sustentável e da reforma agrária. Chegou-se a compará-la a Chico Mendes. Acabou tendo morte igual à dele. Segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a missionária estava sendo ameaçada desde que iniciou o trabalho de apoio aos trabalhadores rurais, em 1997. Mas nunca se intimidou. Seu amor aos mais pobres o havia aprendido de Jesus Cristo.

O assassinato de irmã Dorothy torna ainda mais atuais e urgentes os objetivos da atual Campanha da Fraternidade, que se realiza neste período da Quaresma. Ela visa a construir solidariedade e paz.

Esta campanha é realizada há várias décadas pela Igreja Católica. No ano 2000, pela primeira vez, foi ecumênica, isto é, a Igreja Católica a abriu a outras Igrejas cristãs. Atendendo a este gesto, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic), do qual a Igreja Católica é membro, a assumiu e assim várias Igrejas cristãs a realizaram em conjunto. Agora, em 2005, ela é novamente ecumênica.

Queremos criar maior fraternidade, mediante a construção da paz, que, por sua vez, supõe um exercício concreto e eficaz de solidariedade para com todos, em particular para com os pobres. A solidariedade constrói a paz. Bastaria citar as guerras do Afeganistão e do Iraque para demonstrar que, se as nações desenvolvidas tivessem no passado investido com eficácia no desenvolvimento integral desses países, o terrorismo, as violências e as hostilidades que hoje ensangüentam e devastam essas regiões talvez não existissem ou, pelo menos, seriam substancialmente menores. A injustiça nas relações humanas, seja locais, nacionais ou internacionais, produzem uma justa revolta, mas que muitas vezes, infelizmente, desemboca na violência.

Outra causa de violências é a ganância dos prepotentes, como se mostra de novo no assassinato da irmã Dorothy. Em vez de solidariedade, que levasse a uma justa reforma agrária e ao desenvolvimento sustentável, constatamos a violência para, a qualquer preço, apropriação das terras disponíveis, mediante a força, os assassinatos e a corrupção, sem preocupação por justiça e solidariedade para com os menos favorecidos.

Daí que a Campanha da Fraternidade, entre outras atitudes e iniciativas, propõe colocar no centro do testemunho das Igrejas o esforço de superar a violência e promover a solidariedade e a paz, construir reconciliação e solidariedade, promover ações públicas para reformar e aperfeiçoar a legislação e as instituições responsáveis pela segurança pública, tendo em vista o respeito aos direitos humanos e a sua inviolabilidade, colocar-se ao lado dos desfavorecidos e contribuir para soluções não violentas dos conflitos sociais.

Assim, indignados pelo revoltante assassinato da Irmã Dorothy, queremos rezar e trabalhar por um Brasil melhor, unir forças entre as Igrejas cristãs e todas as pessoas de boa vontade, contribuir para as reformas sociais necessárias e urgentes, reforçar nossa esperança de que mais este sangue não tenha embebido a terra em vão, mas fecunde o esforço nacional para construir um Brasil justo, solidário, próspero e feliz! Então, a paz brilhará.

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