Indiferença: morte do Amor!

Vamos meditar um pouco sobre aquela passagem do bom samaritano (Lc 10, 25-37), pois daí que Deus quer falar conosco. Jesus diz que dois, um sacerdote e um levita (que tinham a mesma função) passaram por um homem que tinha sido assaltado e não fizeram nada. Um samaritano passou e se dobrou, moveu-se de compaixão (v. 33) para cuidar do homem. O próprio doutor da Lei que Jesus quis dirigir a parábola reconhece que este era o próximo do homem, pois viu que ele usou de misericórdia. E Jesus dá sua tacada final: ‘Vai e faze tu a mesma coisa‘ (v.37).

Indiferente é aquela pessoa que é apática, que não se importa com qualquer situação que esteja acontecendo ao seu derredor, e o pior, nos trás o dicionário que é uma pessoa nem má, nem boa: meio termo, medíocre. Vendo a situação que está o mundo hoje, “civis” morrendo por causa de várias situações de desigualdade social, fome, viciados, doentes físico e mentalmente e tantos outras como guerra, que até mesmo por isso não nos atingi diretamente, nos tornamos indiferentes a tudo isso. Falo até mesmo isso nas pequenas coisas do dia-a-dia, um bom dia, um abraço, o ouvir o outro que nem sempre em nosso coração há disposição, pois estamos muito ocupados conosco mesmos.

Esta semana fui perceber como Deus age na simplicidade. Vi uma irmã de comunidade e pedi a ela que levasse um bilhete para uma outra irmã que morava com ela. Escrevi no bilhete que o sorriso dela me cativava. Depois de alguns dias encontrei esta irmã que dirigi o bilhete e ela me disse que naquele dia ela estava disposta a pegar as coisas dela e voltar para casa. Quando ela foi para o quarto, ela encontrou meu bilhete em cima de sua cama. Leu e percebeu que aqui era o lugar dela mesmo e a vontade que ela tinha de voltar para casa sumiu. Eu fiquei impressionado ao ver como Deus é essencialmente simples e age na simplicidade. Um simples bilhete fez isso no coração de uma irmã de comunidade.

O que Deus quer nos ensinar é que nós não podemos ser indiferentes a nada, aos fatos, às pessoas. Elas não são coisas, são PESSOAS, assim como na Santíssima Trindade. Tem gente que abraça animais, gastam muito dinheiro cuidando de cachorros, periquitos, mas não tem a mesma atitude com homens, com as pessoas. O coração indiferente eu gosto de comparar com um coração desistente e covarde, pois não é capaz de dar passos e logo desiste: um fraco. Também é um coração displicente, nas nuvens, não se importa mesmo com nada, e mundo cai, mas continua dormindo. Com o fato que contei anteriormente, percebi que a “diferença” está na simplicidade. Um exemplo disso é o seu Zé e a dona Maria que moram na roça, que criam sua família no simples, mas marcam seus filhos e se torna uma família de exemplo para muitos.

Há pessoas que me marcaram profundamente na minha história, não com coisas grandiosas, mas com sua simplicidade. Deus marcou a minha história com Sua simplicidade, talvez também tenha marcado a sua da mesma maneira, pois Ele é simples. Deus usa de misericórdia conosco e quer que nos tratemos desta mesma maneira, principalmente mesmo com aqueles que convivemos a todo dia.

O Pe. Paulo Ricardo, reitor do Seminário diocesano de Cuiabá – MT, diz que manter o mesmo ânimo é sinal de maturidade, e indiferença é um sinal claro de imaturidade, pois o ânimo inicial é barrado por sei lá quais razões, picuinhas, respeito humano. Deus permanece fiel, mesmo na nossa infidelidade (II Tm 2, 13), mas é da natureza corrompida do homem o ser infiel. Olhando profundamente nossos relacionamentos, vemos isso acontecer a cada instante. É só acontecer algo que, superficialmente achamos que perdoamos, que o outro não nos causou nada, mas na verdade isso começa a reagir dentro de nós e nos distanciamos da pessoa e destruímos um relacionamento que poderia continuar sendo verdadeiro e transparente. Não notamos que isso é coisa da serpente, e com pequenas atitudes destrutivas de indiferença atacamos o outro. Isso nos torna inconstante em nossos relacionamentos. Digo isso, pois era mestre nisso, mas precisei mudar. A indiferença gera ódio, e em determinados momentos, ela supera o ódio.

A maldade se espalhará e o amor de muitos se esfriará‘ (Mt 24, 12). Nós da Canção Nova e o nosso fundador, o Pe. Jonas Abib, pregamos muito sobre Jesus que vai voltar: nós o aguardamos ansiosamente, mas sabemos que no fim só restará o amor (I Cor 13, 8). No fim, não viverá um coração indiferente, pois um irmão entregará o outro se forem por esse tempo indiferentes, se não souberam trabalhar a misericórdia com o outro. Voltando à passagem inicial: “Vai e faze tu a mesma coisa”, é o apelo de Deus hoje para mim e para você. A indiferença destrói, mata o amor. Não sei como está seu coração quanto a essa palavra, mas todos nós precisamos mudar neste aspecto, principalmente por causa da volta de Jesus, pois precisamos ser bons samaritanos neste mundo que não há o verdadeiro amor no coração de muitos. Ser misericordioso com os outros, com o nosso mais próximo. Vejo isso na vida em comunidade, a luta de irmãos para serem misericordiosos, que doam suas vidas por causa de outros irmãos e de maneira gratuita.

Eu já vi coisas terríveis neste aspecto de ver pessoas num péssimo estado e ver outros “irmaõs” do mesmo grupo o condenarem por aquilo que está vivendo e até mesmo empurrarem o irmão cada vez mais para o buraco, mas não tiveram um pouco de compadecimento de o ajudar e cuidar de suas feridas. Nós temos um conceito muito errado em nossos corações de que só o outro tem que vir atrás, que cuidar das feridas do irmão seria atrapalhar no se processo independente de santidade. Logicamente, não iremos deixar este depender de nós e darmos uma de mãezonha, tomando as decisões para a pessoa, uma vez que ele precisa caminhar com suas próprias pernas, ou seja, amadurecer. Cada um deve cuidar de sua santidade, mas todos precisamos ser santos, e não há santidade sem misericórdia. A Luzia Santiago sempre diz: eu tenho que amar primeiro, eu tenho que dar o primeiro passo.

Ter um coração sensível a isso é essencial. Sensibilidade não é coisa só para mulheres, como dizem os machistas por aí. É comprovado que os homens são sensíveis assim ou até mais que a mulher, em alguns aspectos. Um exemplo disso é na relação sexual, o homem é muito mais sensível ao prazer (clímax) do que a mulher. Ter um coração sensível não é ter um coração dodói, mas um coração aberto e acolhedor às pessoas que necessitam de nós, mesmo que sejam um peso para que isso aconteça. Não podemos ser inconstantes no amor, mas devemos fazer a diferença, pois somos cristãos, e este faz a diferença neste mundo. Por isso, diante de Jesus, peçamos a Ele a graça de mudarmos nosso coração de toda nossa indiferença, deixando para trás nossa grandeza, e buscando coisas simples, mas sendo misericordiosos com os nossos, dando passos concretos ao nosso irmão que está do nosso lado e não o percebemos.

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