Indicações sobre o jejum e a oração pela paz

1. O JEJUM CRISTÃO

1.1 A essência do jejum cristão
Em todas as grandes experiências religiosas, o jejum ocupa um lugar importante. O Antigo Testamento enumera o jejum entre os fundamentos da espiritualidade de Israel. «É boa a oração como o jejum e a esmola, acompanhada pela justiça» (Tb 12,8)3. O jejum implica uma atitude de fé, de humildade, de total dependência de Deus. Recorre-se ao jejum como preparação para o encontro com Deus (cf. Ex 34,28; 1 Re 19,8; Dn 9,3), antes de enfrentar uma missão difícil (cf. Jz 20,26; Est 4,16) ou implorar o perdão duma culpa (cf. 1 Re 21,27), para manifestar a dor causada por uma desgraça familiar ou nacional (cf. 1 Sm 7,6; 2 Sm 1,12; Br 1,5); mas o jejum, inseparável da oração e da justiça, visa sobretudo a conversão do coração, sem a qual, como denunciavam já os profetas (cf. Is 58,2-11; Jr 14,12; Zc 7,5-14), ele não tem sentido.

Impelido pelo Espírito, Jesus, antes de começar a sua missão pública, jejuou durante quarenta dias como expressão de confiante abandono ao desígnio salvífico do Pai (cf. Mt 4,1-4); deu indicações concretas para que a prática do jejum, entre os seus discípulos, não se prestasse a formas adulteradas de ostentação e de hipocrisia (cf. Mt 6,16-18).
Fiéis à tradição bíblica, os Santos Padres tiveram em grande consideração o jejum. Para eles, a prática do jejum facilita a abertura do homem a outro alimento: a Palavra de Deus (cf. Mt 4,4) e o cumprimento da vontade do Pai (cf. Jo 4,34); conexo intimamente com a oração, fortifica a virtude, suscita a misericórdia, implora o socorro divino, leva à conversão do coração. É com esta dupla vertente – de imploração da graça do Altíssimo e de profunda conversão interior -, que se deve acolher o convite de João Paulo II para a jornada de jejum no próximo dia 14 de Dezembro. De fato, sem a ajuda do Senhor, será impossível encontrar uma solução para a dramática situação em que está o mundo; sem a conversão dos corações, dificilmente se pode imaginar a cessação radical do terrorismo.
A prática do jejum tem a ver com o passado, o presente e o futuro: com o passado, levando a reconhecer as culpas contra Deus e contra os irmãos com que cada um se manchou; com o presente, aprendendo a abrir os olhos para os outros e para a realidade que nos rodeia; com o futuro, acolhendo no coração as realidades divinas e renovando, a partir do dom da misericórdia de Deus, a comunhão com todos os homens e com a criação inteira, assumindo responsavelmente a missão que cada um de nós tem na história.

1.2 Indicações pastorais
1.2.1 Compete ao Bispo ou àqueles que, segundo o Direito, lhe são equiparados:
– fazer chegar a todas as componentes da Igreja particular, de que é Pastor, o pedido do Santo Padre para que se promova um «dia de jejum», e ilustrar o seu significado, com a cooperação dos Organismos encarregados da liturgia, do diálogo ecumênico, da ação sócio-caritativa, de justiça e paz;
– avaliar se será conveniente, na sua Igreja particular, alargar aos membros de outras confissões cristãs, a homens e mulheres aderentes a outras religiões, o convite que o Santo Padre, por um sentido de profundo respeito, se limitou a dirigir aos católicos; o dia 14 de Dezembro, aliás, coincide com o final do mês de Ramadão, consagrado ao jejum pelos sequazes do Islão;
– velar para que o jejum se realize segundo o estilo de discrição querido por Jesus e vise sobretudo obter o dom da paz e a conversão do coração;
– promover, no próprio dia 14 de Dezembro ou num dos dias vizinhos, um sério exame de consciência sobre o empenho dos cristãos a favor da paz; estes sempre acreditaram firmemente, com o Apóstolo, que «Cristo é a nossa paz» (Ef 2,14); mas, se é verdade que a paz tem o nome de Jesus Cristo, também é verdade que, ao longo da história, aqueles que se adornaram com o seu nome nem sempre testemunharam o destino último do homem que é a comunhão ao redor do trono do Cordeiro: as suas divisões são um escândalo e um real contra testemunho.
1.2.2 O «dia de jejum» não deve ser interpretado exclusivamente segundo as formas jurídicas prescritas pelos Códigos de Direito Canônico (CIC 1249-1253; CCEO 882-883), mas num sentido mais amplo que englobe livremente todos os fiéis: as crianças, que voluntariamente façam atos de renúncia a favor dos seus coetâneos pobres; os jovens, tão sensíveis à causa da justiça e da paz; e todos os adultos, à excepção dos enfermos, sem excluir os idosos.
A forma de jejum a adaptar será sugerida pela tradição local: ou uma única refeição, ou um dia «a pão e água», ou então esperar até ao pôr-do-sol para tomar alimento.
1.2.3 Além disso, o bispo terá o cuidado de estabelecer um modo simples e eficaz para que aquilo de que cada um se priva no jejum seja posto à disposição dos pobres, «em particular dos que sofrem neste momento as conseqüências do terrorismo ou da guerra».

2. A PEREGRINAÇÃO E A ORAÇÃO
2.1 O sentido da peregrinação e da oração
Nas Escrituras hebraicas, a conversão consiste primariamente nisto: voltar para o Senhor com todo o coração, retomar o caminho das suas veredas. Por isso, segundo a tradição e a sugestão do Santo Padre, o jejum-conversão de 14 de Dezembro de 2001 será acompanhado pela peregrinação e a oração.

A Igreja reconhece, na peregrinação, muitos valores cristãos. Na proposta do Santo Padre que visa a preparação espiritual do encontro de Assis, a peregrinação torna-se sinal do caminho árduo que cada discípulo de Cristo é chamado a fazer para chegar à conversão; é ocasião para repassar, no silêncio do coração, os caminhos da história; e para recordar que verdadeiramente vamos ao encontro do Senhor, «não caminhando, mas amando, e teremos Deus tanto mais próximo do coração quanto mais puro for o amor que a Ele nos leva [….]. Portanto, não é com os pés mas com os bons costumes que se pode caminhar para Ele, pois está presente em toda a parte»5; para descobrir novamente que todo o homem e mulher, imagem de Deus, caminha ao nosso lado rumo a um único destino: o Reino.
A oração é um momento fundamental para preencher, com a escuta de Deus, o «vazio» que em nós se criou pelo jejum purificador e pela silenciosa peregrinação. De facto, é necessário partir do coração de cada um de nós para se construir a paz: no coração, Deus actua e julga, cura e salva. Não devemos esquecê-lo: não há possibilidades de paz sem a oração; por ela damo-nos conta de que «a paz está muito para além dos esforços humanos, particularmente na presente situação do mundo, e por conseguinte a sua nascente e a sua realização devem ser procuradas naquela Realidade que está acima de todos nós».

2.2 Indicações pastorais
2.2.1 Relativamente à peregrinação, compete ao Pastor da Igreja particular:
– ilustrar, com a colaboração dos Organismos diocesanos, o valor e o significado que tem a peregrinação como preparação imediata para o encontro multi-religioso que terá lugar em Assis, no dia 24 de Janeiro de 2002, presidido pelo Santo Padre;
– estabelecer alguns lugares, aonde os fiéis possam ir em peregrinação de 14 de Dezembro até 24 de Janeiro de 2002, para implorar do Senhor o dom da paz e a conversão do coração;
– organizar, onde for possível e se o considerar oportuno, uma peregrinação a nível da Igreja particular, presidida pelo próprio Bispo.
2.2.2 Relativamente à Vigília do dia 23 de Janeiro, compete ao Bispo:
– informar a Diocese do significado desta Vigília: a preparação espiritual imediata do encontro de Assis;
– organizar, a nível da Igreja particular, uma Vigília por ele mesmo presidida e dirigir os convites aos membros das outras confissões cristãs; e, se achar conveniente depois de ponderadas todas as circunstâncias, convidar também os aderentes doutras religiões, evitando qualquer risco de sincretismo;
– providenciar para que a Vigília, celebrada se possível nas horas nocturnas, se atenha substancialmente ao tema proposto para o Oitavário de Oração pela Unidade dos Cristãos («Em Vós, está a fonte da vida»); a Vigília deverá consistir numa Celebração da Palavra, em que leituras bíblicas e eclesiais, salmos e textos de oração, tempos de silêncio e momentos de canto sejam organizados segundo os esquemas próprios de cada rito litúrgico;
– empenhar-se para que uma idêntica Vigília se realize possivelmente em todas as paróquias e comunidades religiosas da Diocese;
– exortar os fiéis para que, com a oração e através dos meios de comunicação, acompanhem o desenrolar do encontro de Assis, em união orante com o Santo Padre.

3. ADVENTO – NATAL: TEMPO DE PAZ
Grande parte do período indicado pelo Santo Padre – de 14 de Dezembro até 24 de Janeiro de 2002 – coincide com o tempo de Advento-Natal: tempo em que de tantas formas se celebra Cristo como «Príncipe da paz» e «Rei de justiça e de paz».
Assim será fácil, sem introduzir alterações no desenrolar do ciclo litúrgico, pôr em evidência, em sintonia com as intenções do Santo Padre, o tema da paz, paz universal, paz como fruto da justiça. Em todas as Igrejas cristãs da terra, no coração da noite de Natal, ressoa o canto dos Anjos: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado» (Lc 2,14). Não foi sem razão que Paulo VI dispôs que no 1.º de Janeiro, Oitava do Natal, se celebrasse também o Dia Mundial da Paz: uma determinação que no dia 1 de Janeiro de 2002, vista a dramaticidade da hora presente e a actualidade da mensagem do Santo Padre «Não há paz sem justiça; não há justiça sem perdão», deverá ser observada com particular empenho.
No 1.º de Janeiro, tem lugar a solenidade da Virgem Maria Mãe de Deus, Mãe d Aquele que «é a nossa paz» (Ef 2,14) e que o povo cristão invoca justamente como «Rainha da paz», a Quem o Santo Padre confiou, desde o seu anúncio, «estas iniciativas […], pedindo-Lhe que queira fortalecer os nossos esforços e os da humanidade inteira nos caminhos da paz».

Fonte: Vaticano

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