Igreja e Eleições: Equação Mal Resolvida!

Em tempo de eleições, volta a questão: qual a contribuição válida e correta que a Igreja deveria dar ao processo eleitoral. Colocando agora a Igreja na pluralidade de suas denominações, a pergunta ganha complexidade e as respostas ficam ainda mais diversas.

É inegável o esforço da CNBB, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, em oferecer orientações de princípios, dirigidas inclusive a todos os eleitores. Semelhantes recomendações são emitidas também pelo CONIC, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, órgão que congrega sete igrejas ecumênicas que se reconhecem mutuamente na sua diversidade e se unem na convergência de finalidades.

Mas estas orientações gerais se diluem, e não produzem um resultado homogêneo, dada a distância entre os princípios teóricos, sempre abrangentes, e sua aplicação prática, muitas vezes contraditória.

A contribuição mais eficaz e consistente é dada a partir de uma prática eclesial de base, em que a vivência cotidiana da fé leva as pessoas a perceberem a necessária vinculação do Evangelho com a realidade social. Então se torna mais consciente a passagem da participação comunitária para o engajamento político. Desta maneira as comunidades eclesiais se tornam escola de educação política, despertando nas pessoas o indispensável compromisso da militância partidária.

Mas permanece o desafio de fundo: como a Igreja poderia repassar para a prática da cidadania o enorme potencial de motivação e de envolvimento público que ela possui, em decorrência de sua presença e da ascendência que exerce sobre os membros de suas comunidades, espalhadas por todo o país.

Quando encontra um caminho de expressão concreta, este potencial mostra sua eficácia surpreendente. Basta conferir o resultado do plebiscito sobre a Alca, não só nos seus números, mas na maneira como foi levado adiante. Ele se deve em grande parte ao apoio dado pelas comunidades da Igreja, cujos membros empreenderam um verdadeiro apostolado cívico, mesmo sem o respaldo evidente da hierarquia, e fizeram da votação um exercício de esclarecimento e de participação consciente no debate de assuntos de ordem claramente política.

Seria possível encontrar caminhos para contribuir de maneira mais eficaz e mais transparente para que o processo eleitoral se fizesse com menos ambigüidades, com mais consistência objetiva e com resultados mais coerentes?

O problema de fundo é o divórcio entre fé e política, que ainda permanece, com seu peso de alienação e com sua eficácia de incoerências, que se pode comprovar em inúmeros lances do cotidiano das comunidades. Basta a oferta numa quermesse para vincular o voto ao candidato, mesmo que seja reconhecidamente corrupto. O açougueiro-mor da região com um quilo de carne pretende aprisionar toda uma urna.

Há um dado histórico, pouco refletido, que pesa nesta questão. O Brasil ainda não assimilou adequadamente a ruptura entre Igreja e Estado, acontecida na proclamação da Republica. Deveríamos conferir quanto este divórcio institucional contribuiu para o divórcio entre fé e política, para prejuízo de ambos os lados. A política deixou de ser oxigenada por valores cristãos, e a Igreja ficou desprovida de parâmetros jurídicos que a situem convenientemente na sociedade.

Isto se evidencia no estranho fato de que o Brasil é um dos poucos países que não definiram constitucionalmente suas relações com a Igreja. Até o Cazaquistão já prepara sua “concordata” com a Igreja!

O relacionamento entre Igreja e Estado no Brasil ainda se guia pelas lacônicas palavras do Decreto 119 A do Marechal Deodoro da Fonseca, que na prática simplesmente reconhece a existência da Igreja e estabelece que o Estado não interfere em sua administração. Isto deixa uma salutar liberdade, mas permite perigosos equívocos, que hoje vão tomando forma de perniciosas manipulações.

Pois basta alguém invocar o guarda-chuva da eclesialidade, para se constituir em “igreja”, que fica livre da fiscalização do Estado, e passa a atuar sem parâmetros éticos, explorando a religiosidade popular para fins escusos e inconfessáveis, mas ao abrigo de qualquer contestação jurídica. Pior ainda, tais “igrejas” começam a incorporar em seus objetivos a conquista do poder político, manipulando o voto dos seus “fiéis”, e agindo corporativamente, pervertem a finalidade política dos partidos para torná-los instrumento dos seus interesses confessionais. Se o Estado cair em suas mãos, seria o pior castigo para os positivistas da república, cujos cadáveres certamente estremeceriam nos túmulos, com ímpeto de voltarem à arena para retomarem a batalha.

Na verdade, a batalha é de todos nós: como viabilizarmos, de maneira adequada, o sadio relacionamento entre convicções religiosas, e prática política respeitadora da cidadania e construtora do bem comum.

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