Família Humana, Família de Deus!

O mundo é a família de Deus, pois Jesus se encarnou em nossa realidade, experimentando o drama de todas as famílias humanas, conduzindo seu povo para a vida em plenitude. Toda celebração eucarística é catequese permanente da ação de Deus em nossa vida. Por isso, com a festa da Sagrada Família, celebramos não só o sofrimento das famílias brasileiras, mas sobretudo a certeza de que estamos sendo guiados por Deus no caminho que conduz à liberdade e vida para todos.

Encerramos mais um ano de caminhada, o primeiro do novo século e do novo milênio. Agradecemos a Deus a alegria das esperanças realizadas. E celebramos desde já as expectativas, pois a maioria das comunidades e famílias ainda não viu brilhar no horizonte o êxodo definitivo ao qual Deus nos conduz.

O livro do Eclesiástico é uma tradução de um original hebraico, de autoria de Jesus Ben Sirac. Seu neto empreendeu a obra de tradução com o objetivo de mostrar, aos judeus que moravam fora do país, a riqueza da tradição do seu povo. É, portanto, um livro que ajuda a recuperar as raízes e identidade de um povo ameaçado de perder o sentido da vida. Vivendo em terra estranha, facilmente os judeus assimilavam a cultura e ideologia do país em que estavam, perdendo de vista a herança cultural e espiritual dos antepassados, baseada na experiência de Deus em família. De fato, o Deus de Israel foi se revelando na vida das pessoas, e essa revelação passou de boca em boca, de pai para filho, desde os tempos mais antigos.

‘Honre seu pai e sua mãe: de modo que você prolongará sua vida, na terra que Javé seu Deus dá a você’. O mandamento está ligado à promessa de vida longa. O Eclesiástico vai mais longe, acrescentando à vida longa (v. 6) mais duas promessas: a de ver atendidas as orações (v. 5) e o perdão dos pecados (vv. 3.14).

Para quem vivia longe do templo, lugar onde eram feitos os sacrifícios pelas culpas cometidas, há agora um horizonte novo: o perdão dos pecados acontece não através de um rito externo, mas de uma atitude traduzida em amor pelos pais, sobretudo quando estes se encontram em estado de carência, como a perda do uso da razão (v. 13). O texto se aproxima bastante da novidade trazida por Jesus de Nazaré, que disse: ‘O que eu quero é a misericórdia, e não o sacrifício’ (cf. Mt 9,13), e que afirmou que o Pai rejeita as ofertas sagradas que deveriam ser empregadas na preservação da vida dos pais (cf. Mc 7,8-13).

Amar, obedecer e respeitar a fonte da vida que são os pais é amar, respeitar e obedecer a Deus, origem de toda vida. Os pais reproduzem, em parte, o ser de Deus que é doação. Eles não produziram para si, mas para os outros. Os filhos, por sua vez, chegados à fase adulta da vida, são convocados a não produzir para si, mas para outros, perpetuando a vida e amparando a dos pais na velhice (v. 12). Essa proposta quebra o sistema de sociedade do consumo e do descartável, que só valoriza as pessoas enquanto capazes de produzir.

Mateus procurou dar destaque especial a José, homem justo, porque é por meio dele que Jesus se torna descendente de Davi. Neste texto, José aparece como o tipo de pessoa obediente ao Senhor. De fato, ele é orientado pelo Anjo do Senhor que lhe aparece em sonho (vv. 13.19; cf. 1,20; 2,22). Para o povo da Bíblia, o sonho é o lugar onde as pessoas se encontram com Deus; é símbolo das grandes revelações divinas. José não é um autômato. Os sonhos são a janela da alma de uma pessoa. E é nesse lugar sagrado que Deus se manifesta a José.

De Belém ao Egito: o drama de uma família de refugiados políticos (vv. 13-15)

O Egito se tornou, nos últimos séculos antes de Cristo, o lugar mais seguro para os refugiados. A fuga da Sagrada Família para o Egito recorda a migração de Jacó para esse mesmo país (cf. Gn 46,1-4). Mateus vê, nesse fato, o início do processo libertador que Jesus irá inaugurar. Além de Jacó migrante, o episódio recorda também as ameaças de morte do Faraó contra Moisés (cf. Ex 4,19). Neste caso, porém, o Faraó não se encontra no Egito, mas na Judéia e, mais exatamente, em Jerusalém: trata-se de Herodes. Com seu sistema opressor, transformou o país num lugar de escravidão e morte (cf. 2,18). E isso também para as comunidades de Mateus que, em torno do ano 68, tiveram de sair da Judéia e migrar para a Síria.

No tempo de Jesus, se esperava que o Messias, ao chegar, reeditasse os tempos de Moisés, inaugurando novo e definitivo êxodo de liberdade e vida para sua gente. Mateus lê em profundidade esses acontecimentos, vendo neles a realização das esperanças do povo: ‘…para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta: ‘Do Egito chamei o meu Filho’ ‘ (v. 15b; cf. Os 11,1). Lidos em profundidade, esses fatos afirmam que Jesus é o novo Moisés que libertará o povo; é o Filho obediente de Deus, em oposição a Israel, o filho rebelde; é o Messias esperado.

Do Egito a Nazaré: o caminho para a libertação (vv. 19-23a)

José recebe, no Egito, uma boa notícia: ‘aqueles que procuravam matar o menino já estão mortos’ (v. 20b). Tem-se a impressão de que a Sagrada Família ficou por pouco tempo no exílio. Mas José não é um autômato. O Anjo do Senhor lhe indica genericamente o lugar onde deverá residir (a terra de Israel, v. 20a). Cabe a José o discernimento. Ele investiga e acaba sabendo que Arquelau reinava na Judéia, como sucessor de seu pai Herodes, e tem medo de ir para lá (v. 22). José não confia em Arquelau, que reproduz a crueldade de seu pai. E por isso foge para Nazaré, na Galiléia (v. 23a).

Nazaré é uma aldeia do interior, desconhecida em todo o Antigo Testamento. Lida com olhos da fé, essa indicação aponta para a novidade trazida por Jesus: ele dá início ao novo povo de Deus a partir dos desconhecidos da periferia, no meio de gente à qual ninguém dá valor (cf. 4,15-16). Aí começa a libertação e a vida plena, pois na perspectiva de Mateus, Nazaré é o final do êxodo e o começo da vida para os empobrecidos e marginalizados.

Jesus é a árvore da vida (v. 23b)

Mateus vê nesses fatos o cumprimento das antigas profecias e a realização das esperanças populares: ‘Isso aconteceu para se cumprir o que foi dito pelos profetas: ‘Ele será chamado Nazareno’ ‘ (v. 23b). Quais são essas profecias? Há várias tentativas de explicação, visto que a frase do v. 23b não se encontra no Antigo Testamento.

Para solucionar essa inquietação, os estudiosos examinaram a raiz hebraica da palavra nazareno. Ela pode derivar de nazir (consagrado, cf. Jz 13,5.7). Jesus, então, é o consagrado por Deus para a missão de libertar o povo oprimido. Ou pode vir da raiz neçer, que significa broto ou rebento (cf. Is 11,1). Junto com a palavra çemah (que significa germe, cf. Jr 23,5; 33,15), mostra que Jesus é a árvore da vida, o Messias que trouxe liberdade e vida para todos. Finalmente, a raiz de nazareno pode vir de naçar (que significa guardar, cf. Is 42,6; 49,8). Dessa palavra originou-se naçur (que significa resto). Jesus é aquele que assume e guarda os que são tidos como o ‘resto’ do povo, os pobres e oprimidos que esperam a libertação. É provável que a palavra nazareno signifique todas essas coisas ao mesmo tempo. Mateus deixou aberta a questão. Os que têm fome e sede de justiça (cf. Mt 5,6) não precisam de muitas explicações, pois sentem que Jesus de Nazaré é o Deus-conosco que luta em favor da liberdade e da vida do seu povo.

A tradição rabínica daquele tempo associa os textos acima com a chegada do Messias. Mateus, afirma que, no alto da cruz de Jesus, havia esta frase: ‘Este é Jesus, o Rei dos judeus’ (27,37).

Finalmente, uma consideração de caráter eclesial. Para uma Igreja do jeito que Jesus queria, ou seja, capaz de pôr em curso o mesmo itinerário libertador daquele que a fundou: Igreja que assume o ‘resto’ da humanidade. Por causa disso ela será perseguida, terá que se refugiar, mas ao mesmo tempo sentir-se-á protegida e amada por Deus.

Se somos bons, nossas comunidades e famílias serão ótimas

Paulo tira do fato de, pelo batismo, nos tornarmos pessoas novas. Em outras palavras, o que hoje se lê é a tentativa de traduzir na prática o que significa ressuscitar com Cristo (cf. Cl 3,1). Paulo não separa o convívio familiar da vida em comunidade. Para ele são dois momentos de uma única realidade. E por isso trata das relações dentro da família e da comunidade ao mesmo tempo.

Hoje inicia mostrando a identidade cristã: ‘Vocês são o povo santo de Deus, escolhido e amado’ (v. 12a). A seguir, especifica o que isso significa em termos de relações sociais: ‘Por isso, procurem revestir-se de misericórdia’ (v. 12b). As virtudes que seguem esclarecem o sentido da misericórdia: ela se traduz em bondade, humildade, mansidão, tolerância, paciência e perdão (vv. 12c-13a). Paulo emprega a imagem da veste (‘procurem revestir-se’) para caracterizar as novas relações e valores que ajudam a construir sociedade nova. O ponto de referência para acabar com as discriminações é a prática de Jesus, sua morte e ressurreição: ‘Como o Senhor lhes perdoou, façam vocês o mesmo’ (v. 13b). E conclui: ‘Acima de tudo tenham amor, que faz a união perfeita’ (v. 14). O que torna uma comunidade perfeita não é a ausência de falhas e limites em seus membros, e sim a capacidade de amar sem medidas, apesar dos limites e falhas de cada pessoa (cf. 1Pd 4,8: ‘O amor cobre uma multidão de pecados’). O amor gera a paz e torna as pessoas membros do mesmo corpo (v. 15a).

A seguir, Paulo mostra algumas ferramentas para que a comunidade atinja esse objetivo. A mais importante delas é a celebração da Eucaristia. De fato, a expressão ‘sejam agradecidos’ (v. 15b) recorda a celebração eucarística do modo como era celebrada pelos primeiros cristãos: a escuta da palavra de Cristo, a partilha da palavra e o louvor, feito de salmos, hinos e cânticos inspirados (v. 16).

Paulo, porém, procura alargar os espaços, fazendo a celebração eucarística incidir em qualquer atividade, palavra ou ação, para que tudo seja feito em nome do Senhor Jesus, de modo que a vida inteira se transforme em ação de graças a Deus Pai (v. 17).

Em seguida, vêm as instruções para as famílias, com recomendações para as esposas, a fim de que sejam dóceis a seus maridos (v. 18); aos maridos, para que amem suas esposas e não sejam grosseiros com elas (v. 20); aos filhos, para que obedeçam aos pais (v. 20); e aos pais, para que usem uma pedagogia capaz de encorajar, e não desanimar os filhos (v. 22). Numa sociedade que privilegiava o pai de família como único responsável pelo bom andamento das coisas, Paulo apresenta, para todos, deveres recíprocos fundados no amor, o laço da perfeição. De fato, essas instruções não privilegiam uns em prejuízo dos outros. O ponto de confronto, para todos, é o modo como o Senhor Jesus agiu em relação ao Pai e às pessoas (cf. vv. 18.20).

Experimentar Deus em família. O livro do Eclesiástico sugere que façamos com os pais, fonte de nossa vida, o que eles fizeram um dia conosco: ‘tomá-los no colo’. O que isso significa para nós, freqüentemente habituados a agir como a sociedade do consumo e do descartável, que valoriza as pessoas somente enquanto capazes de produzir?

Com Jesus começa o êxodo definitivo. Uma família de migrantes e refugiados políticos se torna o berço de onde Jesus começa o êxodo para a liberdade e a vida de todos. Quando e como chegará ao fim o sofrimento das famílias brasileiras?

Se somos bons, nossas comunidades e famílias serão ótimas. O texto da carta aos Colossenses ajuda a iluminar as relações na comunidade e família. Quais são os fatores de união e desunião?

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