Dom Luciano

O mundo precisa de pessoas capazes, lúcidas, generosas. Dom Luciano mostrou que pessoas assim existem e semeiam esperança.

Aos 27 de agosto, Festa de Santa Mônica, mãe do bispo santo Agostinho, faleceu, aos 75 anos, Dom Luciano Mendes de Almeida. Seria aniversário de sua falecida mãe, data em que ele recebeu o sacramento da Crisma, e sétimo aniversário de morte de Dom Hélder Câmara. Tudo muito mais que coincidências!

Dia 28 de agosto, Dia de Santo Agostinho (filósofo, teólogo e bispo do quarto século d.C.), Dom Luciano, igualmente teólogo, filósofo e bispo, recebeu, na repleta catedral da Sé, em missa presidida pelo Dom Cláudio Cardeal Hummes, Arcebispo de São Paulo, a homenagem da Igreja e da cidade, com a presença do prefeito municipal, autoridades, católicos, representantes de outras igrejas, membros das pastorais, crianças de projetos sociais da Igreja e moradores de rua.

Todos o conheciam pessoalmente e eram por ele conhecidos. Sua missão foi unir, congregar, conciliar, romper barreiras de distância ou de discórdia. O Presidente da República, com todo o Brasil, acompanhou atento os 40 dias em que o prelado esteve internado no Hospital das Clínicas. Em São Paulo, o Chefe da Nação prestou-lhe sincera, pessoal e pública homenagem de reconhecimento. O prelado foi um homem que, nas últimas décadas, contribuiu para o avanço democrático e social do País.

Nascido aos 5 de outubro de 1930, ele foi ordenado sacerdote jesuíta, em Roma (1958). Em 1976, foi ordenado bispo por Dom Paulo Evaristo Arns, tornando-se responsável pela Região Episcopal Belém (o Belenzinho), na zona leste de São Paulo.

Em 1988, foi nomeado Arcebispo de Mariana (MG). Lá, durante 18 anos, guiou o povo católico, percorrendo longas distâncias nas visitas às comunidades, crismando dezenas de milhares de jovens, criando projetos de promoção humana, promovendo a conservação do patrimônio histórico colonial das igrejas, a formação dos leigos, as vocações sacerdotais, amparando pessoalmente os pobres.

Homem de grande mente e grande coração, de brilhante comunicação e inteligência privilegiada. Tratava a todos com humildade e simplicidade, escutando e compreendendo cada pessoa na sua situação. Como estudante, neo-sacerdote e professor, em Roma, iniciou seu apostolado junto aos presos. Daí em diante, seu dinamismo, capacidade de trabalho, dedicação incansável, espírito de sacrifício, intensa ascese espiritual, oração e fidelidade só aumentaram. Exemplo e referência para o episcopado nacional, admirado e respeitado pelos bispos, dom Luciano ocupou, por 16 anos, cargos de secretário-geral e presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).

Com serenidade, firmeza, autoridade e diálogo com o Governo, ele ajudou a encontrar soluções para difíceis questões sociais e políticas nacionais. Em 1981, os conflitos de terra no sul do Pará (Araguaia), levaram à prisão dois padres franceses, em cuja defesa o prelado atuou com veemência, defendendo, em nome da CNBB, a reforma agrária e políticas agrícolas eficazes, abrangentes e duradouras.

Defendeu, com firmeza, os direitos da pessoa humana, especialmente os direitos sociais à moradia, saúde, educação, apoiando, na Zona Leste da capital paulistana, a criação do Movimento de Defesa do Favelado. Logo que chegou ao Bairro de Belém, a partir de visitas à FEBEM (Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor), ele iniciou a Pastoral do Menor, hoje, expressiva em todo o País. Para moradores de rua, Dom Luciano criou a Casa São Martinho e o Arsenal da Esperança.

Defensor convicto e incansável da causa indígena, ajudou no processo que culminou na vitoriosa demarcação da reserva Raposa/Serra do Sol, em Roraima. Em 2002, inspirou os bispos do Brasil a aprovarem, unanimemente, o Mutirão de Superação da Miséria e da Fome, com a construção de cisternas no Nordeste e apoio à agricultura familiar.

Teve atuação decisiva nas Conferências Episcopais Latino-americanas de Puebla (1979) e Santo Domingo (1992). Foi delegado em diversos Sínodos dos Bispos, em Roma, e eleito para a Conferência Episcopal de Aparecida, no próximo ano. O esforço pela paz o levou, anos atrás, ao Líbano.

No leito do hospital, repetia sempre: “Rezemos pelo Líbano e por Israel”. A Igreja e o mundo precisam de pessoas capazes, lúcidas, generosas. Soluções só virão com grandeza de espírito, em que causas nobres e urgentes sejam colocadas acima dos interesses individuais e pequenos. Dom Luciano mostrou que pessoas assim existem, marcam, fazem diferença, semeiam esperança, acreditam no ser humano.

Sua profunda fé em Deus fez do centro do seu pensamento e do seu ensino o tema da pessoa humana e sua dignidade. Sofria ao pensar que a sociedade atual, avançada tecnologicamente, não só permite como se mantém indiferente ao drama dos que passam fome e sofrem, sobretudo, na África. Repudiou a insensatez da fabricação de armas para matar inocentes.

Com sua lucidez, profetismo, testemunho eloqüente de caridade, bondade e santidade, resumia-se simplesmente como uma pessoa feliz. Na doença, costumava dizer: “Estou nas mãos de Deus” ou “Deus é bom”. Seu serviço sacerdotal e episcopal, traduzido em testemunho de amor a Deus, à Igreja e aos pobres foi realizado, como diz seu lema: “Em nome de Jesus”, cumprindo o que disse santo Agostinho: “Para vocês, sou bispo; com vocês, sou cristão”.

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