Dia Mundial das Vocações

Neste IV Domingo da Páscoa, celebra-se o XXXIX Dia Mundial de Orações pelas Vocações, instituído pelo Papa Paulo VI. Este ano, o lema escolhido é “A Vocação à Santidade”. Ele interpela toda a comunidade cristã. São Paulo assim se dirige aos Romanos (1,7): ‘A vós todos que estais em Roma, amados de Deus e chamados à santidade, graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo‘.

O Concílio Vaticano II, em vários documentos, de modo particular nos Decretos “Optatam Totius”, sobre a formação sacerdotal e “Presbyterorum Ordinis” aborda o ministério e a vida dos presbíteros. Eles também aprofundam a reflexão sobre a responsabilidade do clero, leigos, famílias, instituições católicas, pastores e fiéis em relação ao tema das vocações sacerdotais e religiosas. Essa atividade pastoral não é algo facultativo, mas onera a consciência do católico. Nesse campo merecem referência elogiosa a Comissão de Pastoral Vocacional, a Obra das Vocações Sacerdotais e o Serra Clube. Embora nesta data a celebração mundial se refira à oração e à súplica, o ônus imposto pelo Concílio vai além, incluindo a manutenção dos seminários, que recebem os vocacionados, após uma prévia seleção.

Trata-se de um assunto que envolve o apelo de Deus a uma pessoa, para se dedicar a Seu serviço e a resposta da criatura. Toda a comunidade cristã, e não apenas o escolhido do Senhor, tem um papel a cumprir no discernimento, para assegurar a credibilidade. Inclui também a ajuda espiritual e material em uma realização que interessa a todo o rebanho, especialmente no que concerne ao número e á santidade dos sacerdotes. Entre todos os fatores que influenciam, positiva ou negativamente, a acolhida que um ser humano oferta a um apelo de Deus, devem ser destacadas soluções para a escassez dos ministros de Deus.

O terreno é misto, no sentido de estarem presentes dois elementos fundamentais: um divino e o outro de natureza temporal. A Providência espalha a semente. Se o campo é cultivado, a messe estará garantida. A Arquidiocese do Rio de Janeiro sofreu os efeitos da crise sacerdotal dos anos 70. As ordenações, embora anuais, eram escassas. Foi feito um vigoroso trabalho vocacional e uma equipe inteligente e ativa realizou belo esforço pastoral.

Como conseqüência, há hoje uma média anual de 10 a 15 ordenações presbiterais. Já atingiu, em um ano, 22 novos padres. Não há falta de vocações para pastores, a não ser onde o terreno não é cultivado devidamente. Preserve-se sempre, em toda a comunidade, a integridade da Fé e a fidelidade irrestrita às diretrizes do Sucessor de Pedro. E eis que surgem muitas vocações. Onde dominam ideologias contrárias à Fé católica e há medo de defendê-la, torna-se muito difícil fazer germinar a semente do chamado divino.

Na Mensagem por ocasião do XXXIX Dia Mundial de Orações pelas Vocações, João Paulo II assim nos orienta: Esse convite ao serviço a Deus, no ministério ordenado, “é essencialmente um chamado à santidade, na forma que brota do sacramento da Ordem. A santidade é a intimidade com Deus, é imitação de Cristo pobre, casto e humilde; é amor sem reservas às almas e doação pelo seu verdadeiro bem; é amor à Igreja, que é santa e nos quer santos, porque essa é a missão que o Cristo lhe confiou” (Mensagem, nº 2).

Em sua tradicional Carta aos Sacerdotes na Quinta-feira Santa, com data de 19 de março último, o Santo Padre se refere “aos pecados de alguns irmãos nossos que traíram a graça da Ordenação, cedendo, inclusive, às mais graves manifestações do “mysterium iniquitatis” que agem no mundo”. No mesmo Documento, o Papa menciona escândalos graves “que chegam a criar um clima negativo de suspeita sobre todos os demais sacerdotes beneméritos, que exercem seu ministério com honestidade e coerência e, às vezes, com caridade heróica”.

O Prefeito da Congregação para o Clero, Cardeal Dario Castrillon Hoyos, publicou no dia 21 de março último, um documento sobre abusos sexuais do clero, em diversas nações do mundo, amplamente divulgados pela imprensa. Ele reconhece que alguns sacerdotes, respirando um clima de pan-sexualismo e libertinagem sexual, fruto de nossa cultura “cometeram o gravíssimo delito do abuso sexual”. Ainda sem uma estatística comparativa e minuciosa a respeito do mesmo crime em profissões, tais como: médicos, educadores, periodistas, políticos etc, há informações sobre um estudo publicado pelo Professor Philip Jenkins, da Pensilvânia State University. Segundo ele, 3% do clero norte-americano teria tendência ao abuso de menores e 0,3% seria pederasta.

O mesmo documento informa o procedimento da Igreja na defesa da moral, estabelecendo sanções a esses delitos. Como, por exemplo, no cânon 2.359 § 2º do Código de Direito Canônico de 1917 e, no de 1983, o cânon 1.395, § 2º. Mais recentemente, a intervenção de João Paulo II, com a Exortação Apostólica “Ecclesia in Oceania” e ainda a Carta Apostólica “Sacramentorum Sanctitatis Tutela”, de a 30 de abril de 2001, com normas que reservam à Congregação da Doutrina .da Fé as penas para os delitos mais graves. As medidas visam garantir a preservação da santidade da Igreja, o bem comum, o direito das vítimas e dos culpados. As leis da Igreja são sérias e severas, são concebidas de acordo com a tradição apostólica de tratar os assuntos internos em foro próprio. O que não significa, na ordem pública, estarem aqueles subtraídos às normas civis, em vigor em diversos países. Excetuando, sempre, o caso do sigilo sacramental, do segredo vinculado ao exercício do ministério episcopal e o bem comum pastoral”.

No final de sua Mensagem, assim se expressa o Romano Pontífice: “Obedecendo à ordem do Cristo, cada Dia Mundial se caracteriza como um momento de intensa oração, que envolve toda a comunidade cristã, numa incessante e fervorosa invocação a Deus, pelas vocações”.

Cardeal Eugênio de Araújo Sales
Arcebispo Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro

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