CONTINENTE CRISTÃO

      Neste final de julho e início de agosto a cidade de S. Paulo se tornou sede de um acontecimento de repercussão continental. Nas dependências da PUC-SP e das Faculdades Batistas, realizou-se a Conferência sobre o Cristianismo na América Latina e no Caribe. Seu objetivo aparece mais claro à luz do enfoque dado aos debates: trajetórias, diagnósticos, prospectivas. Portanto, um olhar abrangente sobre a caminhada da fé cristã neste continente, a análise de sua situação atual e as perspectivas do seu futuro.

      A própria palavra usada para designar o evento traz evocações importantes, que lembram momentos significativos da história do cristianismo neste continente. De fato, ficaram famosas as diversas “Conferências”, que marcaram época, sobretudo a partir da metade do século passado. A primeira delas se realizou no Rio de Janeiro, em 1955, por ocasião do 35º Congresso Eucarístico Internacional, quando foi fundado o CELAM – Conselho Episcopal Latino-americano. Foi graças à atuação deste Conselho que depois foram sendo realizadas as famosas “Conferências” de Medellín em 1968, Puebla em 1979, e concluindo esta série no campo católico, a de Santo Domingo em 1992.

      Igualmente, no âmbito evangélico as últimas décadas também contaram com mobilização semelhante, com as “conferências” de Oaxtepec em 1968, Huampani em 1982, Indaiatuba em 1988, em Concepción em 1995, e em Barranquilla em 2001.

      Pelo ritmo da Igreja Católica, haveria a expectativa da convocação de uma nova “Conferência”, a se realizar possivelmente no Brasil, motivada pelo cinqüentenário da fundação do CELAM, que serviria de bom pretexto. Mas as perspectivas não estão claras. Tanto mais se justifica a iniciativa que se traduziu nesta atual “Conferência sobre o Cristianismo na América Latina e no Caribe”. Enquanto não se dão as condições de uma “conferência episcopal”, convocada pela hierarquia eclesial, se realiza uma “conferência”, promovida por iniciativa de diversas instituições e aberta à participação livre de muitas pessoas e grupos que se identificam com a causa da caminhada histórica da fé cristã em nosso continente.
      Estamos no continente que tem a identificação mais clara e enfática com o cristianismo. O fato é singular, e não deixa de ser intrigante. Vale a pena perguntar-se pelo seu significado. Em termos estatísticos, os dados são eloqüentes. No que concerne à Igreja Católica, por exemplo, mais de 40% dos seus membros estão na América Latina. Mas seria muito pouco se ater à superficialidade das estatísticas. No meio de profundas transformações em curso no mundo inteiro, e que afetam de maneira especial o nosso continente, existe um emaranhado muito complexo de questões a serem levantadas, para elucidar como está sendo, e como deveria ser, a incidência da fé cristã na pluriforme realidade social, cultural, econômica e política deste continente que está passando por mudanças alucinantes. Em poucas décadas tornou-se o continente com o mais alto índice de urbanização, numa evidente distorção deste processo. Não é mais tranqüilo ser cristão, nem poderia ser, num continente profundamente intranqüilo como o nosso. Se isto significa um momento de provação para as Igrejas, ao mesmo tempo pode se transformar em hora da graça. Para que isto aconteça, se requer uma atitude lúcida, uma busca persistente, e uma generosa abertura de espírito. Por isto, os debates desta Conferência não se reduzem a curiosidades acadêmicas. Eles levantam questões que angustiam os seus participantes, e os comprometem a se identificarem com o significado desta singular vocação cristã do continente em que vivemos.

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