Como é bom ter-se família!

Queremos, hoje, nos entreter sobre o maior valor social da história, que é exatamente a família, toda a família, mas ainda mais a família cristã. O Padre Zezinho em suas composições, tem idéias muito felizes e em uma das suas canções mais bonitas sobre a família, diz: “Como é bom ter-se família” e emenda, triste, quando tantos não a tem. Nós sabemos que a família, hoje, mais do que nunca, é atacada de todos os modos, especialmente, pela opinião pública. E pelo fato de ela ser atacada, isso nos vem dizer, que ela é um grande valor é uma das maneiras até de ver que é um grande valor. Não se ataca o que não nos intriga, o que não nos causa problemas. Então, parece que se quer mesmo esfacelar a família para que todas as ideologias, todos os sistemas políticos, todos os sistemas econômicos, matança de crianças através do aborto, sejam lícitos e a isso se opõe exatamente o baluarte da sociedade, que é a família.

Os ataques, naturalmente não são a única das problemáticas que afligem a família. Hoje há muitos jovens que dizem assim: “Mas eu ter família para que?” É um risco muito grande; não dá certo; é um risco que eu me amarre sem eu poder me desligar depois e sem me sentir à vontade. O próprio fato de sentir esse risco já deixa a pessoa com uma suspeita de que a família seria melhor deixá-la de lado e é claro que, além disso, além desse risco que se tem medo de enfrentar, a opinião pública conseguiu construir uma espécie de sistema. “Vale muito mais o amor livre”. Portanto, o amor apaixonado, o sentido de viver de paixão em vez de ter o verdadeiro amor e a paixão depois desanda para o erotismo e o erotismo, como nós sabemos, desanda para os abusos de ordem sexual de todo tipo. Esta é uma lógica que infelizmente acontece.

Agora, o amor verdadeiro, eu gostaria de saber se o mundo sabe o que é o amor verdadeiro. Perguntei a grandes assembléias de reuniões se tinha alguém que me poderia dar um testemunho de amor verdadeiro, exclusivamente altruísta, desinteressado e que não entrasse nada de egoísmo, ainda que seja um egoísmo bem leve. Até hoje eu não encontrei quem tivesse a coragem. Gostaria de lembrar, por exemplo, um amor absolutamente puro: é o de Cristo, absolutamente santo e absolutamente amor. Cita também o amor de Cristo na Eucaristia, ele está sobre a forma de pão para alimento da humanidade, sobre forma de vinho para dessedentar a sede de infinito que temos. Está lá! Não é mais nada, Ele o Senhor do céu e da terra, não é mais nada, é uma aparência de algo material, materializado e este é um tipo de amor puro. Outro amor puro e amor verdadeiro, total, doação sem resquício de egoísmo, nós temos no alto da cruz, quando Cristo oferece toda sua vida, o seu corpo e seu sangue e, no final, ainda reza pelos próprios algozes: “Pai perdoai-lhes porque não sabem o fazem”. Naquela hora ninguém mais pode duvidar do amor absolutamente gratuito e desinteressado de Jesus.

Eu falei que o maior valor social da humanidade é a família, e de fato a família é anterior à sociedade, é bem anterior. Isso já os grandes pensadores, como Aristóteles, o maior filosofo da Grécia, dizia: “A família é uma instituição anterior à própria sociedade”. Por isso qualquer lei da sociedade contra a família, essa lei é nula, ela é inválida, porque é posterior à própria família. Portanto, legislar contra a família, como é o caso do aborto, do divórcio e coisas semelhantes, isso são leis nulas por natureza, porque são posteriores à constituição da família que é constituída pela própria presença de Deus na história e dentro da história da família.

Na família temos a beleza da imagem de Deus, o Pai, o Filho o Clima de amor. Temos na família, normalmente, a presença de uma criança e eu queria dizer que longamente pensei sobre a criança. O que a criança afinal é? Vejam! Todos os gestos de amor, todas as atitudes de amor passam, por mais sublimes que sejam… Só tem um que não passa, quando esse gesto, essa atitude de amor se transforma em um outro ser de vida eterna, isto é uma criança. A criança é a perpetuação de uma atitude de amor que não passa nunca.

A aliança que os dois cônjuges, os nubentes estabelecem entre si, não é um simples contrato, é um elo de amor e de vida, que se estabelece – e os antigos faziam até através da queima de sal, outros usavam o elemento do sangue.

A família é lindamente a nossa melhor escola, a escola das virtudes sociais e humanas. Na família eu aprendo a beleza da alteridade, da fraternidade, da solidariedade; aprendo a comensalidade: comer à mesma mesa. Ah! se os homens entendessem que é preciso comer à mesma mesa, que todos tem direito à mesma mesa, ao mesmo pão, à mesma substancia alimentícia, que se distribui à farta pelo mundo todo, só que desigualmente. A simplicidade que existe na família, é ouro encanto. Usamos linguagem própria, familiar: diminutivos e, até apelidos. A simplicidade que existe dentro da família é muito bonita e o sentido do bem comum também se aprende dentro da família ou não se aprende mais.

Os valores cristãos, por exemplo, a oração. Começa-se a rezar dentro da família, normalmente, e de pequeno. A própria fé se recebe como uma tradição santa e sacra que os pais nos passam por graça, por virtude de Deus. As vocações para os diversos ministérios em prol do bem comum e em prol da Igreja, especialmente em prol da santidade das pessoas, se recebe na família. É a primeira sementeira, o primeiro seminário das vocações. Não se fale também de pastoral da juventude, se nós não começamos a tratar os jovens ou adolescentes dentro da família numa perspectiva verdadeiramente dele ser um apóstolo, dele ser gente modelar, enfim, de ser uma pessoa qualificada dentro da sociedade, dentro da Igreja. É o que pretendemos pela Pastoral da Juventude.

Grandes empenhos proféticos hão de fazer-se em prol da família. Saber, por exemplo, que a família é a imagem de Deus: ela copia a própria imagem de Cristo, doando-se pela Igreja. Cristo dá à Igreja tudo: os seus ensinamentos, a sua vida toda, o seu sangue, enfim dá o seu “eu” todinho, e no final dessa sua doação, nascem os milhões e milhões de filhos e filhas que são exatamente os cristãos, os católicos: em virtude da doação e do altruísmo da entrega de Cristo. Este é um dos modelos, um dos exemplos da verdadeira doação que a família deve propiciar dentro da sua própria constituição.

Temos a acolhida. É tão bonito que, a porta paterna nunca se feche, nunca a porta do papai e da mamãe se fecham. E, essa acolhida de que o mundo moderno tanto precisa, que até se fala em termos comerciais de acolhida personalizada, tudo isso são palavras bonitas, mas acolhida mesmo é a acolhida cordial do pai para o filho, do filho para o pai, do irmão para o irmão e isso dentro de um clima ainda fraterno mais comum e social. Assim, entramos no que é o ideal de uma sociedade.

A segurança que dentro da família temos, é um porto, é um amparo é um abrigo, é uma tutela que ninguém nos vai poder tirar se tivermos grande ligame dentro de nossa querida família. Saber viver e saber morrer pela família, é a maior doação que podemos ter. É o altruísmo total que impera a partir da família, e repito, não é o altruísmo que se aprende em escola, mas é anterior ao que se aprende na escola põe lhe ser anterior, como acima dissemos. A família é o modelo da verdadeira escola.

Eu queria ainda acrescentar, que já fiz muitos casamentos, abençoei muitos matrimônios. Queria recordar que, as flores recordem a beleza que é a família. Só que estas flores murcham e a beleza da vida a dois, a comunidade de amor e de vida não pode murchar jamais. Os cônjuges se dão às mãos. Dêem-se as mãos ela vida a fora sempre e aí poderão ter a certeza que a estabilidade está dentro das mãos, através das mãos em suas vidas. A aliança que um coloca no dedo do outro, sempre é uma aliança que recorda, que as duas pessoas estão vinculadas e não deixam de estar vinculadas jamais, porque “o que Deus une nem uma pessoa pode separar”. O juramento de fidelidade “eu te amarei até a morte, em todas as circunstancia da vida”, é o toque final do amor comprometido.

Enfim, falar da família poderíamos falar muito, mas a família precisa-se vivê-la, precisa ter-se um coração familiar, precisa ter-se um espírito familiar, precisa ter-se uma noção do que seja de fato viver em família. Desejo a todas as famílias que sejam uma família bonita e abençoada e abençoada! ‘Como é bom ter-se família!‘.

Dom Eusébio Oscar Scheid
Arcebispo do Rio de Janeiro

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