Casados e... Amigos?!

Hoje, se fala muito de amor entre homem e mulher, mas nem sempre se está falando de um amor pleno, que reúna de modo harmonioso todas as suas dimensões. Às vezes se fala dele como alguém que experimenta apenas uma “faísca” da imensa “fogueira” que na verdade é o amor conjugal, porque este possui várias dimensões que interagem e se complementam. E uma dimensão muito importante do amor conjugal é a amizade entre os esposos.

Para compreendermos o que significa a amizade no matrimônio, precisamos conhecer um pouco os diferentes graus do amor humano. Uma dimensão do amor, que a filosofia de Platão chama de “Eros”, é o “amor-paixão”, bem claramente presente entre os esposos no começo do namoro.

A paixão

O começo de tudo foi uma atração por aquela pessoa que diante do nosso olhar pareceu diferente das outras, e então quisemos obtê-la para nós. Esta dimensão, conhecida como paixão, alguns já confundem com o amor propriamente dito, mas sozinha ainda não o é. A paixão é uma das dimensões do amor, e embora não seja um sentimento “condenável”, mas até bem importante, ainda não é suficiente para compor o amor conjugal, que requer fidelidade e indissolubilidade.

Para compreendermos o que foi dito basta recordarmos que podemos sentir paixão não somente por pessoas, mas pelo trabalho, por um esporte, por uma comida e até por um bichinho de estimação. É que a paixão configura um desejo de ter para si algo ou alguém, e desperta uma imensa força para se lutar por ele. No entanto, podemos ter paixão por muitas coisas ao mesmo tempo e nossas paixões podem “esfriar” depois de algum tempo, a ponto de nos admirarmos de termos feito tantos esforços por aquela coisa ou por aquela pessoa.

O fato é que a paixão pertence à ordem dos nossos instintos, e como todo instinto, nem sempre possui estabilidade. Por isso a paixão não pode ser a nossa “dona”. Imagine se você fosse inteiramente movido pela paixão por doces, por exemplo e consumisse todos que encontrasse pela frente? No mínimo seu organismo acabaria sofrendo algum transtorno e no final de tudo talvez o “amado” doce se transformasse em objeto de seu “ódio”… Parece uma comparação absurda, mas entre pessoas, a paixão sozinha corre o risco de se transformar em ódio. Infelizmente o exemplo disto é comprovado por tragédias que lemos freqüentemente nos jornais: às vezes acontece de alguém agredir ou matar violentamente àquele a quem dizia “amar”, ou chegar a fazer o mesmo para “se libertar” daquele a quem diz “não amar mais”.

Pelo que foi dito podemos ver que a paixão sozinha não é capaz de sustentar uma vida a dois. Por esta razão é que os namorados precisam galgar um ponto mais elevado de seu relacionamento que a simples atração. Um ser humano é muito mais do que seu corpo, sua voz, seu modo de atrair. Um ser humano é corpo e alma, e embora ambos sejam importantes, a alma humana sempre será o princípio vital que nos faz ser pessoas capazes de nos relacionar. Nós jamais poderemos ser felizes nos relacionando com “um corpo”, por mais atraente que ele seja, mas com alguém cuja nota especial é dada pela alma única que recebeu de Deus para sempre.

A benevolência

Outra dimensão do amor, que a filosofia de Aristóteles chama de “eunoia”, é o amor de benevolência, que é sempre dirigido às criaturas humanas, e consiste em amar o outro desinteressadamente, querer o seu bem e fazer o que estiver ao seu alcance para lhe proporcionar este bem. Quando acontece entre duas pessoas reciprocamente o amor de benevolência, a este amor mútuo Aristóteles chama de “filia”, o amor de amizade muitas vezes esquecido pelos “apaixonados”. Este amor é capaz de assumir a paixão, controlando-a e lhe dando um significado novo. Assim os instintos serão direcionados para o bem do outro e não em primeiro lugar para a própria satisfação.

A “filia” não é nem camaradagem nem utilitarismo, porém, segundo o filósofo, “ela consiste num amor que não cessa de aumentar e que se ata entre duas pessoas que se amam e se escolhem como amigos” e que são capazes de declarar um ao outro: “Eu te amo por ti mesmo, e não por tua fortuna, ou pela alegria que me dás. Mesmo se tu ficares enfermo ou pobre, eu te amo porque és tu”.

É o amor de amizade que, presente no matrimônio, vai ajudar os cônjuges a afastar o egoísmo, causador de tantos conflitos e separações. Infelizmente, fala-se tanto em cultivar a paixão dentro do matrimônio, que é importante, que se esquece de cultivar a amizade entre os esposos, sem a qual a paixão entra em desordem, animaliza, rebaixa e acaba morrendo. Muitas vezes o que resta dentro da casa dos antigos “apaixonados” são dois corações solitários, que temem confiar um ao outro suas dores, fraquezas e até mesmo as esperanças e alegrias, pelo temor de um duro julgamento ou até de provocar uma separação. Então fica mais fácil desabafar com aquela conhecida que ela encontrou no supermercado, ou com aquele cara engraçado que ele encontrou no bar da esquina.

Isto não significa que amizade entre os esposos deve fechar-se nos dois, mas que é deste laço mais forte e mais importante, que foi escolhido e afirmado diante de Deus, que agora partem as outras afeições humanas, também importantes e necessárias. Um fechamento recíproco é destruidor de qualquer amizade e também destrutivo da amizade dos esposos.

Como será a amizade entre os esposos?

Aristóteles se refere a dois tipos falsos de amizade, sendo o primeiro chamado de “amizade utilitária”, que existe somente enquanto o amigo me é útil. Alguém já disse que este tipo de amizade existe até entre os ladrões, que se unem para fazer o mal; e o segundo é a “amizade de prazer”, cujo nome já traduz o significado. Mas o amor de amizade, sendo encontro de dois amores de benevolência, ultrapassa nosso egoísmo e nos faz amar o outro por ele mesmo.

A amizade entre os esposos, como toda amizade, não se constrói num dia, mas requer tempo e perseverança; requer lutar juntos diante dos desafios que se apresentam na vida de cada um, pois o problema de um amigo é também o problema do outro. Somente assim se poderá ver que o amor é capaz de superar os fracassos sofridos por um ou por outro. Requer a confiança, porque um verdadeiro amigo conhece o outro e não acredita em tudo que se diz dele, mas o vê por dentro, onde ninguém mais o vê. Requer atenção e sensibilidade ao amigo e o esquecimento de nós mesmos. O verdadeiro amigo não só perdoa sempre, mas cobre diante dos outros as faltas do outro, porque sempre acredita que ele pode mudar.

A amizade verdadeira sempre leva os amigos a realizarem uma obra em comum. Assim também a amizade entre os esposos é fonte de uma fecundidade dentro de casa, não somente biológica, mas se estende na educação dos filhos e dos que convivem com eles para as virtudes. Mas para ser fecundo, este amor exige uma educação progressiva, uma luta perseverante contra o egocentrismo que teima em se insinuar em nossas relações, e para obter vitória é preciso estar sempre disposto a voltar atrás e recomeçar.

Pela própria condição humana, raro será estar ausente desses amigos experiências de sofrimento passados juntos, que podem vir de fora, ou mesmo de um para o outro. Neste caso, é preciso ir contra o egoísmo e acreditar que o fato de ter vivido o sofrimento e permanecido juntos, permitirá a amizade ir mais longe, tornar-se mais profunda. Tal amizade ultrapassará as transformações da distância e do tempo, porque entre os dois abriu-se o espaço para o amor-ágape, que é o amor de caridade, capaz de ultrapassar esta vida e alcançar a eternidade.

Nenhum casal se basta. Sua amizade cultivada é como um trampolim, que permite um ao outro descobrir que por trás do amigo existe Deus que o sustenta e que o concedeu a nós. Por isso a amizade entre os esposos é uma via de acesso muito privilegiada para que ambos descubram a presença de Deus, e nos abrirmos ao Amor chamado “Ágape”, que está acima do amor humano e jamais concorre com o amor conjugal, mas o eleva. O amor-ágape vem do Pai e só o discípulo de Jesus o recebe e o vive. Quando o recebemos, já não somos nós quem amamos o outro, mas Deus que ama através de nós. Graças a este amor, o esposo e a esposa poderão ir muito mais longe em seu amor mútuo e no transbordamento deste amor aos filhos e aos que o cercam. Assim também os esposos que cultivaram a amizade jamais deixarão de alegrar-se na companhia um do outro, mesmo quando não for mais possível expressar seu amor através do ato conjugal. Este amor tenderá a se tornar cada vez mais puro, mais profundo e os preparará para um dia, unidos numa amizade sem fim, louvar a Deus por toda a eternidade.

Haveria muito mais a dizer sobre o amor de amizade entre os esposos. O amor dos amigos, dos namorados, dos irmãos, dos filhos e dos esposos só pode ser gratificante se for buscar em Deus a forma de vivê-lo. Se você está se preparando para o matrimônio, casou recentemente ou mesmo já tem muitos anos de vida conjugal e nem sabe como começar a viver isto, lembre-se de que só Deus tem a receita, pois nele está a origem e a finalidade última de todo amor autêntico. Este amor tenderá a se tornar cada vez mais puro, mais profundo e os preparará para um dia, unidos numa amizade sem fim, louvar a Deus por toda a eternidade.

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