Cardeal Dom Eugênio fala sobre o Carnaval

As leis são elaboradas e devem ser observadas possibilitando, assim, uma convivência pacífica entre os cidadãos. A sociedade é formada por pessoas com as mais diversas tendências. A sobrevivência exige um mínimo de harmonia decorrente de normas a serem cumpridas para alcançar um objetivo, indispensável à paz e ao bem-estar da comunidade. Essas considerações me vêm à mente ao aproximar-se o Carnaval. E esses festejos, dada a sua natureza e amplitude, pedem uma atenta reflexão que preserve o bom senso, a concórdia e a ordem.

Não se discute o direito às celebrações públicas e aos benefícios advindos de manifestações de alegria. Ocorre, entretanto, que, no Tríduo momesco, ao lado de aspectos até mesmo positivos, há uma incrível proliferação de espetáculos deprimentes. Acresce que as aberrações, particularmente no âmbito sexual, sucedem diante de uma platéia e são transmitidas para milhões de telespectadores. A apresentação é feita de maneira a aliciar seguidores, sem distinção de idade. E o convite aos atos, à satisfação de paixões exacerbadas, tudo é bem acobertado até por motivos culturais, que anestesiam consciências ou arrastam vontades débeis, incapazes de resistir aos atrativos do mal.

Leva-se ao mundo uma falsa imagem do Brasil, como a terra da libertinagem, das mulheres fáceis a convites inconfessáveis, ao turismo que explora sexualmente crianças, cuja iniciação começa com os desfiles carnavalescos.

Ao lado da falta de pudor, há o desrespeito aos sentimentos de milhões de brasileiros. A exploração de objetos sacros, tentativas de inseri-los em um ambiente com características luxuriosas, ferem a índole de tantos brasileiros. Por mais de uma vez, foi necessário a Arquidiocese do Rio de Janeiro apelar à Justiça para fazer respeitar os valores cristãos. Os que pensam diferentemente dos que optam pela liberdade sexual têm o direito, amparados pelas leis, de ver preservado seu modo de vida, de acordo com suas crenças.

Alerto as autoridades competentes, para que haja uma vigilância redobrada. A História de nossa Pátria está profundamente vinculada à Igreja Católica e sua influência na cultura, no modo de viver da população. Essa advertência, que é um apelo ao respeito e a tudo o que se refere a Deus, tem sua razão de ser. Infelizmente, a blasfêmia e o desrespeito não estão ausentes. Posso citar um clube que utiliza, de modo chulo, a divina e adorada Pessoa de Cristo. Usa-o como seu título. Trata-se de uma ditadura dos irresponsáveis.

Os excessos do carnaval atingindo o pudor, os sentimentos cristãos, não constituem um caso isolado no decorrer do ano. Eles são parte da decomposição, da decadência dos costumes por que passa também nosso País. Essa constatação não pode ser usada por qualquer pessoa de bom senso, para justificar sua continuidade ou ampliação neste período do ano. Não há um direito para divulgar e propagar a pornografia. Nem o fato de favorecer o turismo com práticas imorais. O crescimento da riqueza e o desenvolvimento econômico não justificam a desordem moral, destes dias.

Ganhou mais um capítulo na mídia o fato de ser cogitada a reserva de lugares para a prática do nudismo. Apresentam como justificativa o falso direito de alguns cidadãos de andarem despidos. Chega-se ao ridículo, com a argumentação de nossos antepassados índios assim viverem. Todos sofremos com a violência. Urge denunciar serem eles efeito do desprezo à Lei de Deus. Avança o narcotráfico proporcionalmente à desagregação das famílias. Os massacres entre grupos de facínoras, em plena cidade, revelam uma situação anômala. O mesmo ocorre, ao condenarem a Polícia quando reprime os que praticam ações ilegais. A irracionalidade se revela na seguinte verificação: se o soldado mata, mesmo em defesa das instituições e resguardados os justos limites de sua ação, é matéria de destaque, mas se é morto por bandido, merece ordinariamente simples e obscura referência.

A culpa não é somente do Carnaval, mas também dos que promovem o consumo da droga, os bailes violentos, a jogatina, a prostituição, a ilusão dos preservativos diante do mortífero HIV, a luxúria, expondo tudo o que desperta as paixões libidinosas. Cada cidadão que assim age, por palavras e atitudes, promove a destruição da estrutura ética de uma sociedade. Merecem lugar de especial destaque os que se acovardam diante de uma opinião pública que condena qualquer restrição moral, a pretexto de respeito à liberdade.

Mesmo sozinhos, criticados ou rejeitados por uma mentalidade paganizada, reafirmemos a dignidade do corpo humano que, um dia, na expressão de São Paulo (Fl 3,21) o Senhor o transfigurará ‘conformando-o ao seu Corpo glorioso, pela força que lhe dá poder de submeter a si todas as coisas’. Nestes dias que antecede o Carnaval reflitamos sobre uma passagem do Catecismo da Igreja Católica (nº 2354): ‘A pornografia consiste em retirar os atos sexuais, reais ou simulados, da intimidade dos parceiros para exibi-los a terceiros, de maneira deliberada. (…) Atenta gravemente contra a dignidade daqueles que a praticam (atores, comerciantes, público) porque cada um se torna para o outro objeto de um prazer rudimentar e de um proveito ilícito. Mergulha uns e outros na ilusão de um mundo artificial (…) As autoridades civis devem impedir a produção e a distribuição de materiais pornográficos’. Praza aos céus que assim aconteça.

Cardeal Dom Eugênio de Araújo Sales
Arcebispo Emérito do Rio de Janeiro
Fonte: Arquidiocese do Rio de Janeiro

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