As chamas do inferno

“O inferno existe, sim, mas são os outros!”.

É provável que sejam uma multidão os que, a exemplo de Sartre, pensam que o inferno não seja outra coisa senão suportar o peso da convivência humana. Outros carregam mais ainda as tintas, e julgam que a própria vida é um inferno. O desemprego, as doenças, as perseguições, as injustiças, a corrupção, a guerra e centenas de outros males, o que são senão um inferno? Por que esperar ou imaginar outro inferno depois da morte? Além disso, se Deus é Pai, como dizem todas as religiões, como conciliar o seu amor com as chamas do inferno e um castigo eterno?

Na verdade, não é fácil aceitar a existência do inferno, não apenas por essas dificuldades, mas também pela deficiente instrução religiosa que a maioria das pessoas recebem. De fato, para não poucas delas Deus se assemelha a um caçador que, de espingarda a tiracolo, sai pelo mundo afora, sempre pronto a disparar seus tiros certeiros contra os pobres mortais que caem no pecado, e mandá-los pros quintos do inferno. Para outras, o inferno é uma imensa fornalha ou um enorme caldeirão, onde os condenados são constantemente torturados por uma multidão de demônios enfurecidos…

Mas, existem realmente o céu e o inferno? E se existem, o que são? Uma boa explicação pode ser dada a partir do sol. Quem dele se aproxima, participa de sua luz, de seu calor, de sua vida. Quem se afasta, fica nas trevas, no frio, na morte. Assim acontece com o céu e o inferno. Quem vive em Deus e com Deus, já está no céu, também nessa vida. Como o pai do filho pródigo, Deus lhe diz: “Tudo o que é meu, é teu!” Mas quem está longe de Deus, já está no inferno, também nessa vida. Se Deus é a fonte da felicidade, então céu e inferno significam estar com Deus ou sem Deus. Assim, mais do que um lugar, o céu e o inferno são uma situação de felicidade ou de infelicidade em que cada pessoa se encontra; situação que, nesta vida é passageira, e na outra, eterna.

Por tudo isso, compreende-se logo que o inferno não é um castigo dado “de fora”, por Deus, mas as conseqüências de atitudes tomadas pelo próprio homem durante a vida. É a situação em que se coloca quem transformou a sua existência numa opção profunda ou constante por tudo aquilo que afasta de Deus e destrói a convivência humana, como a violência, a avareza, a injustiça, o roubo, a infidelidade, etc.

O inferno é eterno não porque assim Deus o quer, mas porque a decisão que o homem toma conscientemente durante a sua vida e confirma na hora da morte – por Deus ou contra Deus – por sua natureza, é definitiva e irrevogável. Depois da morte, o ser humano não pode mais se arrepender ou voltar atrás. Se Deus, como pai que é, luta até o último instante para salvar os seus filhos, o homem fica sempre livre para se converter ou se radicalizar na situação de pecado em que se encontra.

Se o céu é a pátria do amor, o inferno é a pátria de tudo o que não é amor: do ódio, da raiva, do medo, da desconfiança, numa palavra: do egoísmo mais atroz. Assim na terra como na eternidade…

Por isso, a única coisa necessária é corresponder ao amor de Deus servindo os irmãos: “Vinde benditos de meu Pai: tudo o que fizestes ao menor dos meus irmãos, foi a mim que o fizestes!” Desta forma, ao invés do inferno, eles serão o nosso paraíso.

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