Aprendendo a cultivar...

Nesses tempos, conversando com um amigo, ele me dizia que as pessoas são como flores. Deveríamos conhecer a beleza de cada uma das flores para perceber as do amigo. Então perguntei, brincando: “Que flor sou eu? Com um sorriso discreto falou baixinho: – ‘Uma Orquídea.’”

Orquídea?! No fundo a gente espera uma resposta tradicional: rosa, margarida… Percebendo o meu questionamento ele disse: – “Conheça as orquídeas!”

Confesso que fiquei curiosa em saber realmente quem eu era para esse meu amigo. Durante algum tempo esse nome não me saía da cabeça. Não deu outra; comecei a pesquisar sobre as orquídeas. E achei esse texto:

“As orquídeas variam muito em inúmeros aspectos, mas todas têm em comum o fato de produzirem flores lindíssimas. Embora as orquídeas necessitem de um tratamento especial, muitas espécies podem ser cultivadas facilmente num ambiente de interior. É efetivamente verdade que uma floração bem sucedida depende da capacidade de o jardineiro manter rigorosamente as condições adequadas. Assim, alguns jardineiros preferem cultivar as suas orquídeas em viveiros ou janelas para plantas, onde é possível controlar a luz, a temperatura e a umidade”.

Nossa! Pensei comigo: será que sou tão delicada quanto meu amigo me imagina?!
Então fui imaginando e até descobrindo que preciso cultivar meus amigos. Tê-los perto de mim, ainda que estejam longe geograficamente. Cultivá-los no ambiente de interior, no coração.

Minhas flores precisam ser belíssimas no meu jardim, para isso é preciso exercitar o ofício de jardinagem. Porque para um bom cultivo da orquídea e uma floração bem sucedida, depende da capacidade de o jardineiro manter rigorosamente as condições adequadas: arrancar o que faz mal, preparar a terra, ser paciente, regar quando necessário, estar preparado para os maus tempos.

Meus amigos são delicados, precisam de cuidados, de atenção. É que às vezes, a gente pára nos tempos das pragas, das secas ou nos excessos de chuvas. Outras vezes nós achamos que nossa plantinha nunca irá morrer, que ela é bonita, forte e resiste há muito tempo sem os cuidados.

Assim como os jardineiros preferem cultivar as suas orquídeas em viveiros ou janelas para plantas, onde é possível controlar a luz, a temperatura e a umidade, os amigos precisam estar no coração, onde podemos ajudá-los a crescer, a fazer brilhar a luz das suas virtudes e auxiliá-los na poda dos defeitos.
A amizade não faz somente por uma pessoa. Aristóteles já dizia: “A amizade é haver uma ‘alma’ em dois corpos”. O amigo compartilha e compadece com o outro.

Fui entendendo que apesar de minhas muitas falhas com o meu amigo ele me cultivava e eu também a ele. E nessas minhas descobertas, muitas coisas vieram a minha mente. Recordei-me ainda do conto de Saint-Exupéry, onde a raposa insistia com o Pequeno Príncipe sobre a necessidade de cativar. E fui compreendendo, segundo a lógica da raposa, que assim como o Pequeno Príncipe havia cativado a sua rosa , ele sentia necessidade de cultivá-la.

Vi o quanto meu amigo me conhecia: meu jeito de agir, meu temperamento, meus pensamentos e sabia o quanto tantas vezes sou uma pessoa difícil de lidar. “Embora as orquídeas necessitem de um tratamento especial, muitas espécies podem ser cultivadas facilmente num ambiente de interior”. Mas ele não desistia em me cultivar no interior, no coração. Ele não abandonou seu jardim nos tempos difíceis, mas aceitou, valorizou, respeitou, deu afeto, ternura, admirou e compreendeu sua orquídea.

“Acima de tudo, na vida, temos necessidade de alguém que nos obrigue a realizar aquilo de que somos capazes. É este o papel da amizade”. (Émerson)

Fazer com que a orquídea seja uma flor belíssima também depende do jardineiro.
Seja um jardineiro e cultive suas flores!

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