Anunciamos Cristo, e Cristo crucificado

Igreja é mestra na leitura dos acontecimentos da história. Ela aprendeu do seu Senhor as lições que lhe possibilitam não afogar-se na avalanche de dores e apreensões que caracterizam a aventura humana. Começando de sua própria fileira, leigos, sacerdotes, religiosos e bispos foram reconhecendo que, malogradas suas imperfeições e pecados, o Evangelho é anunciado e o Reino de Deus se espalha.

Não cabe, na vida do cristão, o apavoramento diante da violência que grassa, mas será sua arma abrir-se para o plano de Deus, recuperar continuamente a serenidade dos santos, fazer a própria parte na recuperação do mundo, certo de que Deus ama os homens, cuja existência não é obra do acaso e, menos ainda, uma brincadeira de alguém que encontra satisfação no sofrimento e na morte de seus filhos.

Deus, de fato, “não fez a morte, nem se alegra com a perdição dos vivos. Ele criou todas as coisas para existirem, e as criaturas do orbe terrestre são saudáveis: nelas não há nenhum veneno mortal, e não é o mundo dos mortos que reina sobre a terra, pois a justiça é imortal” (Sb 1,13-15).

A sociedade brasileira tem sido sacudida por sucessivos fatos de violência e morte; crimes reveladores de uma situação muito mais grave, caracterizada pela pobreza, fome, agressão e morte cujos detalhes não são divulgados, pois acabaram absorvidos pela consciência social amortecida. A Palavra de Deus tem sua luz para iluminar a situação em que vivemos.

O profeta Jeremias (Jr 20,7-9) vive o dilema fundamental de sua missão: fugir das dificuldades, escapar de um povo que não quer ouvir a voz que desperta a consciência, ou quem sabe, falar só o que está no “gosto do povo”, ou a irrecusável opção, deixar-se conduzir por Deus, que “seduziu o profeta”. E ele não pode se calar, deve proclamar bem alto que não se chega à vida verdadeira pelos caminhos da opressão percorridos pela nação!

Jesus, no evangelho de São Mateus (Mt 16,21-27), abre o coração para mostrar aos Seus discípulos primeiro o Seu próprio caminho: morrer e depois ressuscitar, matar a morte ao morrer, pois ninguém tira a Sua vida, ele a dá livremente. Depois, o convite ao seguimento: Também o discípulo do Senhor deverá percorrer o mesmo caminho: “quem quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me”. Para ganhar a vida, é necessário perdê-la! Difícil? Contraditório? Não, caminho… e o único!

Nossa sociedade está produzindo frutos de violência e morte (cultura de morte!) porque centraliza tudo na própria realização. Ninguém quer perder, pois o motor dos tempos que correm é a competição! Pode-se perguntar com Santo Agostinho: “de que vale viver bem, se não pudermos viver sempre?”

Aqui está o impasse e o desafio que somos intimados a responder: renegar o inimigo que está dentro de nós, a que São Paulo chamava de “homem velho”, o do egoísmo, da concupiscência. Renegar, por amor a Deus e aos irmãos, arriscar-se no projeto de Deus, cujo modelo é o próprio Jesus Cristo. A escolha é nossa. Assumir esta estrada é oferecer alternativas, estabelecendo novas formas de relacionamento entre as pessoas. Quem for capaz de dar o primeiro passo já estará lançando as bases de um novo mundo.

Dom Alberto Taveira
Arcebispo de Palmas – TO
Fonte: ‘Coleção Aos pés do Senhor
Livro: Segue-me

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