Amor esponsal e amor paternal-maternal

3. O amor esponsal revela a identidade profunda do homem e da mulher. A sua união de amor torna-se revelação e é fonte de conhecimento mútuo. E nessa revelação da identidade profunda do homem e da mulher, ressalta a sua qualidade de pai e de mãe. O amor conjugal desabrocha na paternidade e na maternidade. E assim se reconhecem, mais uma vez, como “imagem de Deus”. É que no mistério de Deus, comunhão trinitária, a cuja imagem foram criados, o Espírito de amor revela a identidade de Deus Pai e de Deus Filho; a paternidade de Deus Pai é partilhada pelo homem, criado à imagem de Deus, na paternidade e na maternidade humanas. Quando alguns arriscam afirmar que Deus também é mãe, exprimem apenas a intuição que a maternidade humana é participação do mistério da paternidade divina. Aliás, nada na criação se assemelha tanto ao coração de Deus como um coração de mãe, que encontra a sua plena expressão no coração de Nossa Senhora, a Virgem Mãe.

O Livro do Génesis, narração original da criação, une a intimidade conjugal ao conhecimento mútuo dos esposos e esse conhecimento revela, na experiência da fecundidade, a dimensão de paternidade e maternidade. “O homem conheceu Eva, sua mulher; ela concebeu e deu à luz Caim e exclamou: adquiri um homem, com o poder de Deus” (Gen. 4,1). Neste texto é Adão, o homem, que reconhece a mulher na sua maternidade, e ao conhecer a sua companheira como mãe, reconhece-se a si mesmo como pai. A maternidade da mulher é a experiência a partir da qual o casal se reconhece, mais profundamente, na sua esponsalidade.

Ouçamos, a este propósito, o Papa João Paulo II nas suas catequeses: “Toda a constituição do corpo da mulher, o seu aspecto particular, aquelas qualidades que, pela força de uma atracção perpétua, estão na origem do conhecimento de que nos fala Gen. 4,1-2, estão em estreita ligação com a maternidade. Com a simplicidade que lhe é própria, a Bíblia e, na sequência dela, a Liturgia, honram e louvam, ao longo dos séculos «as entranhas que te trouxeram e os seios que te alimentaram» (Lc. 11,27). Estas palavras constituem um elogio da maternidade, da feminilidade do corpo da mulher, na sua expressão típica de amor criador. São palavras que no Evangelho são dirigidas à Mãe de Cristo, a Maria a segunda Eva. Por outro lado, a primeira mulher no momento em que se revelava a maturidade maternal do seu corpo, quando concebeu e deu à luz exclama: «adquiri um homem pelo poder de Deus»” 4.

No filho, um ser humano, o homem e a mulher reconhecem-se na sua dignidade fundamental. Ouçamos ainda o Santo Padre: “a procriação faz com que o esposo e a esposa se reconheçam reciprocamente num «terceiro» gerado por eles. É por isso que este conhecimento se transforma numa descoberta, em certo sentido, uma revelação do novo ser humano, no qual, um e outro, homem e mulher, se reconhecem ainda a si mesmos, descobrem a sua humanidade, a sua imagem viva” 5.

Mas segundo o texto sagrado, este conhecimento mútuo começa no reconhecimento, por ambos, do fruto das suas entranhas, como um homem, imagem de Deus. Ainda hoje, o reconhecimento da dignidade humana do fruto do ventre materno, pelo homem e pela mulher, é causa de grande alegria, mas também exigência de coragem e sentido ético. O mistério da vida gerada, que envolve o sentido da própria existência do homem pai e da mulher mãe, não deixa espaço para ambiguidades morais. Um homem e uma mulher que geram um filho, ou o aceitam na sua dignidade de um outro ser humano e se
descobrem na sua própria dignidade, ou o rejeitam, negando-se a si mesmos.

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