Amor ao Santíssimo Sacramento

Estamos para celebrar uma das festas religiosas mais populares da Igreja, a festa de Corpus Christi. Nela celebramos o mistério do Corpo e do Sangue de Cristo no sacramento da Eucaristia. Tornou-se tradicional celebrá-la com grande e solene Santa Missa, seguida de procissão pública, levando a hóstia consagrada para ser adorada fora dos recintos dos templos, num testemunho público de fé. Em muitos lugares, o povo católico enfeita as ruas e as janelas de suas casas por onde deve passar a procissão, num gesto de amor e profunda acolhida ao Cristo Eucarístico. Em outros lugares, fazem-se grandes concentrações eucarísticas. Quando não há condições de sair dos templos, fazem-se ao menos Horas Santas solenes ou outras formas de celebração no interior dos templos, além das Santas Missas. Realmente, o povo tem grande amor a esta festa, sinal do seu amor ao Santíssimo Sacramento.

A Eucaristia, como sabemos, foi instituída por Jesus na sua Última Ceia com os apóstolos, na véspera de sua Paixão e Morte, entregando-lhes o pão e o vinho e dizendo-lhes que era seu corpo e seu sangue, sacrificados por eles e por todos, acrescentando que fizessem isso em sua memória. Desde então este sacramento tornou-se o centro da vida da Igreja. A Eucaristia une e reúne a Igreja. É fonte e sinal de sua unidade. Nunca se deve esquecer que a Santa Missa, a Eucaristia, é a grande força da unidade da Igreja. Uma unidade na diversidade dos carismas, dos ministérios, dos serviços, dos talentos, dos grupos, das vocações, das espiritualidades, dos movimentos, das pastorais e de tantas outras formas de legítima diversidade no interior da comunidade eclesial. É também na Eucaristia que deverão voltar a unir-se todos os cristãos das hoje diferentes Igrejas e Comunidades cristãs, separadas entre si, quando pela conversão superarem as divergências e acolherem a unidade, que é dom de Deus.

A Eucaristia é sacrifício, refeição e prenúncio escatológico do futuro. Ela é sacrifício, isto é, em forma sacramental, não cruenta, ela torna presente sobre o altar o sacrifício de Cristo na cruz. Na Última Ceia Jesus havia antecipado de forma misteriosa sua Paixão, Morte e Ressurreição, a sua Páscoa, no sacramento do pão e do vinho. Dando aos apóstolos o mandato de fazerem o mesmo em sua memória, deu-lhes o poder de realizar este sacramento pelo mundo e séculos a fora. Assim, em cada Missa, pelo poder do Espírito Santo, que é invocado sobre o pão e o vinho, o sacerdote, repetindo o ato e as palavras de Jesus na Última Ceia, torna realmente presente Jesus Cristo, morto e ressuscitado, debaixo das aparências do pão e do vinho. Não é um novo sacrifício de Cristo, mas é o seu sacrifício único tornado sacramentalmente presente de novo sobre o altar. Neste sacrifício, Jesus deu sua vida por nós. Assim, quem participa da Santa Missa deve seguir o exemplo de Jesus e estar disposto a dar a vida em favor dos irmãos necessitados.

A Eucaristia é também refeição sacramental. Ao comermos deste pão e bebermos deste vinho consagrados, estamos comendo e bebendo o Corpo e o Sangue de Cristo. Mas a Santa Missa é sempre um ato comunitário. Ela reúne os filhos e as filhas de Deus ao redor da mesa de Deus. É o sacramento da unidade, que reúne os cristãos reconciliados com Deus e entre si. Vemos, portanto, Deus distribuindo seu pão a todos. Comendo deste pão, devemos dispor-nos, também, a partilhar o nosso pão com quem pouco ou nada tem e participar do esforço daqueles que querem construir um mundo menos desigual, onde todos tenham o suficiente para viver com dignidade, sem fome, sem pobreza, sem miséria. Reunindo-nos no amor ao redor da mesa de Deus, devemos sair daí para construir uma sociedade fraterna, onde reine o amor, a solidariedade, a justiça, a colaboração, o perdão, a misericórdia e a paz.

A Eucaristia é também prenúncio escatológico, ou seja, prenúncio do que será a vida no Reino definitivo de Deus, no fim dos tempos, quando Deus consumar a história e instaurar em definitivo o que preparou para aqueles que O amam. Um banquete eterno, em que experimentaremos em plenitude o amor que Deus tem por nós.

Dom Cláudio Cardeal Hummes
Arcebispo de São Paulo

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