Abortar ou não: uma questão de amor

Pensei comigo mesmo que, esporadicamente, ao invés de um artigo, seja mais interessante oferecer aos leitores uma experiência concreta que demonstre a verdade do Evangelho. Dizia Paulo VI que, hoje em dia, o povo prefere escutar muito mais as testemunhas do que os mestres. E se ouve os mestres, somente o faz na medida em que são testemunhas.

“Há algum tempo Teresa, uma amiga da família, estava passando por uma série de dificuldades. Depois de muitas brigas e discussões, o seu marido resolveu pedir separação. Foi um choque para ela, porque o seu amor pelo marido era muito grande. Mas ele estava irredutível em sua decisão”.

Passado quase um mês depois da separação, veio à tona outra realidade: Teresa descobriu que estava grávida. Ao saber da notícia, ela ficou muito feliz, porque acreditava que esse filho pudesse trazer a reconciliação do casal. Mas, ao contrário do que ela esperava, seu marido não quis saber da criança, chegando a negar que fosse seu filho.

Teresa ficou desesperada. Atormentada pela idéia de que não conseguiria criar mais um filho, pensou que a melhor solução seria o aborto. Foi quando sua irmã Clara nos colocou a par de tudo e pediu ajuda para convencê-la a desistir. Ouvimos atentamente toda a história e concordamos que era preciso tentar convencer Teresa a desistir daquela decisão.

Algum tempo depois, voltamos a conversar com Clara, e ela nos disse que sua irmã não mudava de idéia. Lembramos da frase de Jesus que dizia: “Pedi e recebereis”. Rezamos muito e pedimos a Deus que iluminasse a vida de Teresa e que nos mostrasse a melhor forma de ajudá-la. Pensamos, então, em adotar a criança ou, ao menos, em ficar com ela até que passasse aquele momento difícil. Deus atendeu as nossas orações: certo dia, Teresa nos procurou, agradeceu o nosso amor por ela, e nos disse que, mesmo sozinha, iria acolher, com todo o seu amor, o novo filho. Colocamo-nos à sua disposição para ajudá-la em tudo o que precisasse. Nossa primeira atitude foi providenciar roupinhas para o enxoval do bebê. Depois de algum tempo, nasceu uma linda menina, muito saudável, que hoje está com um ano de idade.

Há alguns dias, no meio da noite, Teresa veio à nossa casa com a filha nos braços. Foi uma surpresa muito grande: temíamos que algo de ruim tivesse acontecido. Quando entrou, nos deu um terno abraço e agradeceu todo o carinho que tivemos para com ela. Foi quando nos convidou para sermos padrinhos de seu filho mais velho. Esse foi, sem dúvida, um dos convites mais importantes de nossa vida”.

O mundo melhor que todos sonhamos é construído por pessoas que, vivendo o Evangelho, passam a gozar de uma força interior que não apenas as faz superar as próprias dificuldades, mas ainda a irradiar o amor de Deus sobre quem caminha a seu lado. E o que costuma acontece, são verdadeiros milagres.

Dom Redovino Rizzardo
Bispo coadjutor de Dourados

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